Tesouro Revelado

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                                     (Luiz Viana David - 04-02-2015)


 
Há aproximadamente três meses, lá pelo início de novembro, encontrei-me casualmente no hall do edificio Faria Mendes, com o odontologista Marcos Flávio Ferreira Ribeiro, profissional que conheço e admiro e que tem consultório no prédio. Marcos Flávio é filho do também dentista João Batista Cirne Ribeiro, já falecido. Pelo lado de sua mãe descende de duas das mais tradicionais e antigas famílias paraenses: é sobrinho-bisneto do benfeitor Torquato Alves de Almeida; neto do industrial e ruralista José Alves Ferreira de Oliveira  e bisneto do construtor da cidade, coronel João Ferreira da Silva.  Sem muita delonga, Marcos Flávio disse-me para passar depois no consultório dele, que tinha alguma coisa para me mostrar.  "Alguma coisa ligada à memória da cidade, ao Paraense Esporte Clube", adiantou ele. Na mesma hora o vírus da curiosidade presente na minha mente, entrou em ação. Deixei prá lá o que tinha ido fazer no centro da cidade, entrei no elevador e acompanhei dr. Marcos Flávio rumo ao consultório, que fica no sexto andar e tem como vizinho de porta o brilhante advogado Anastácio Pinto.
 
Então, Marcos Flávio abriu uma gaveta e de lá retirou uma pasta bem alentada, de capa preta, daquelas antigas, usadas em escritórios para arquivar documentos, onde as folhas eram literalmente parafusadas uma a uma. O volume já amarelecido pelo tempo, devia ter umas trezentas páginas, calculei rapidamente. O anfitrião então disse que se tratava de um relatório da construção do estádio Ovidio de Abreu, o campo do Paraense E.C., do primeiro dia das obras até o último dos mais de vinte jogos que o time realizou no ano de 1950. O autor do relatório foi o então 1º secretário do Paraense, o ainda jovem dentista Alcindo de Lima e Silva, o Cidinho.
 
Ao pegar a pasta em minhas mãos sentí que não se tratava apenas de um simples relatório, mas do resgate de boa parte da história política/esportiva da cidade, pois a construção do estádio envolveu não apenas os futebolistas, mas também, e principalmente, os grandes políticos da época, aqueles que iriam possibilitar a construção do estádio. O documentão conta com uma fartura de fotografias, cento e oito, todas em excelente estado de conservação e mostram como tudo aconteceu.
 
O autor foi minucioso ao fazer o relato. A partir de abril de  1950, quando o Paraense começou a jogar em seu novo domínio, Cidinho Lima e Silva produziu uma verdadeira súmula, jogo a jogo. Súmula completa, com formação das equipes, incluindo as visitantes; quem foram o árbitro e seus auxiliares, as ocorrências disciplinares, as substiuições, renda e público, até mesmo o comportamento da torcida foi analisado. Tudo acompanhado de fotos das duas equipes. O autor chega ao requinte de anexar em cada súmula o volante (panfleto) de propaganda da partida, convocando a torcida a comparecer.
 
Quando consegui falar depois da surpresa de ter aquele documento em minhas mãos, perguntei ao Marcos Flávio como aquela preciosidade tinha chegado às mãos dele. E ele: – Você se esqueceu de que eu sou sobrinho-neto do padre Grevy? Pois então, o tio padre era o presidente do Paraense na época da construção do estádio. Pouco antes de morrer ele deu-me o relatório de presente. Mas eu nunca dei grande importância à pasta, que desde então está no cofre que foi do meu pai. Por acaso encontrei você hoje e foi um lampejo, chamá-lo para ver o documento.
 
Então eu fiz o que qualquer outro  pesquisador faria. Pedi ao Marcos para emprestar-me a pasta que eu ia providenciar a reprodução da mesma. Claro que ele autorizou, então eu nem esperei pelo elevador e desci correndo os seis andares até o térreo levando o tesouro. Mandei escanear página por página  e salvar tudo em pendrive, no formato PDF, para facilitar a impressão. Depois, levei o pendrive até a Paracolor e pedi cópia de todas as fotos. Depois fui a uma encadernadora e pedi várias cópias do documento. Devolvi o original ao dono e como agradecimento ofereci-lhe uma cópia do original. Outras cópias dei de presente a alguns amigos; uma delas trouxe para o acervo do MUSPAM.   
 
Tudo ficou a salvo  nos computadores da Paracolor e da encadernadora, à disposição de todos.
Agora, Ana Maria Campos,diretora do MUSPAM, está colocando todo o arquivo no site da casa.
Espero que todos sintam, ao verem o incrível relatório, as mesmas emoções que eu senti.


Clique aqui e veja.

PS: Em 25 de junho de 2015, Dr. Marcos Flávio Ferreira Ribeiro doou o precioso relatório ao Muspam em nome da família Guimarães Ferreira.