Casa da Cultura – uma história

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                                                                         Por Terezinha Pereira


Diálogo entre os atores Romana Campos e Higor Duarte, baseado na pesquisa de Ana Maria Campos, e transformado em vídeo para integrar a exposição sobre o prédio da Casa da Cultura de Pará de Minas na noite da reinauguração das obras de reformas e melhorias da edificação, ocorrida em 29 de outubro de 2015. Romana é “a” e  Higor é “b”.


a. 02 de julho de 1924. Há 91 anos...
b. 29 de outubro de 2015. Hoje.
a. Em 1924, a sede do município de Pará de Minas era habitada por 11.000 almas. Um pouquinho mais, um pouquinho menos...
b. Há de se considerar que a sede era cercada por diversos distritos.
a. Mateus Leme, Igaratinga, Bicas, São Gonçalo do Pará, São José da Varginha.
b. Somando a população da cidade com a dos distritos, eram mais de trinta e quatro mil habitantes
a.34.298 de acordo com o censo de 1920.
b. Já não era uma cidadezinha qualquer.
a. Era a cidade dos teares. Quem de nós não tem um parente, um avô, uma avó que não tenha trabalhado numa fábrica de tecidos aqui em Pará de Minas?
b. Quatro fábricas de tecidos! Três delas bem no centro da cidade!
a. A Pará Industrial, que era a chamada de Fábrica do Meio. / A Industrial Paraense era a Fábrica de Cima.  A Cia. Melhoramentos, a Fábrica da Várzea. E a Fiação e Tecelagem S. Gonçalo, lá na saída para Pitangui.
b. Guarde este nome: Cia. Melhoramentos.
a. Além das fábricas, a cidade tinha um hospital (que ainda não era onde está hoje).
b. Ah! E se tinha tantas fábricas é porque dispunha de energia elétrica!
a. O Grupo Escolar Torquato de Almeida, que fica mesmo ali nesta praça. Um prédio bonito, projetado e executado pelo construtor italiano Amadeo Celso Grassi, que vivia aqui na cidade.
b. Um Centro Literário! Um grupo de homens letrados queria promover a educação e desenvolver a cultura da comunidade. O Centro funcionava como um gabinete de leitura. Ali falavam de literatura, de política e também de abobrinhas...
a. Uma estação de trem, a Estação do Pará. As pessoas não precisavam mais viajar a pé, a cavalo ou de carroças para irem à capital, à Pitangui.
b. Um fórum, uma coletoria federal, uma estação telegráfica, até uma agência lotérica.
a. E já haviam criado dois cinemas, o Paraense e o Familiar.
b. Que tal construir na cidade um hotel?
a. Um hotel?
b. Sim. Um grande hotel!
a. Um grande hotel...  Onde?
b. Nesta praça, bem de frente à Estação do Pará.
a. Os passageiros desciam do trem, atravessavam a praça e estavam à porta do hotel.
b. Sonhavam com um belo lugar para receber hóspedes de toda a região, da capital federal... E fizeram. Cia Melhoramentos. Sugeri que guardasse este nome.
a. Foi o Torquato quem teve a iniciativa. Torquato de Almeida não é apenas aquela estátua que fica ali na praça, bem de frente a escola. O busto do Torquato, todo mundo conhece, não é mesmo? O que pouca gente sabe nos dias de hoje é que ele era um ilustre homem público e daqui de Pará de Minas.
b. Dizem que a ideia foi dele. O dinheiro veio da Cia. Melhoramentos que desejou investir na cidade. Ora, Pará de Minas já não era uma cidadezinha qualquer. Ora, ora, Francisco Torquato de Almeida Júnior, o Chiquinho Torquato, era irmão do Torquato de Almeida, na época, Diretor Gerente da Cia. Melhoramentos.
a. Como um bom construtor e projetista, Amadeu Celso Grassi, aquele italiano que construiu a escola desta praça, elaborou o projeto e executou a obra. O Chiquinho Torquato supervisionou a construçâo, claro, era o guardião do cofre da empresa...
b. Um prédio majestoso de dois andares, para abrigar 40 quartos de hóspedes precisava de esmerado acabamento em madeira. Janelas, escadarias. Amadeu Celso Grassi conhecia obreiros capazes de executar um bom trabalho. Para a escadaria e os corrimãos que queria bem torneados, ele pediu o trabalho de outro italiano, o marceneiro Santiago Constantino Cáffaro.
a. Para as janelas, muitas janelas, ele contou com o carpinteiro espanhol que também residia na cidade, o Sr. Moreira.
b. Em apenas dois anos edificaram o prédio do Grande Hotel de Pará de Minas. Os quartos, banheiros, salões de visita e de jantar, jardim interno. Um verdadeiro luxo!
a. Mais ainda, restaurante com serviço de bar na entrada do prédio, guarnecido de bela mobília de vime.
b. Salão de jogos para cartas e bilhar, agência de loteria e até um aparelho de rádio telefonia que transmitia e ampliava notícias comerciais e da bolsa, discursos parlamentares, óperas, músicas. Som vindo lá de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e até de Buenos Aires.
a. Lembrando: a primeira transmissão de rádio difundida no Brasil deu-se em 1922, por ocasião do centenário da Independência do país.
b. E assim, tudo bem planejado e executado, em 1924, neste prédio que hoje é reaberto ao público, numa grande festa, foi inaugurado o Grande Hotel de Pará de Minas.
a. Uma bela festa! Discursos, ora! Muitos. As pessoas envolvidas na construção do prédio e na instalação do hotel, o povo da cidade, todos estavam muito entusiasmados.
b. O diretor da Estrada de Ferro Oeste de Minas, o engenheiro José de Almeida Campos Júnior trouxe numerosa comitiva. O vigário, padre José Pereira Coelho e o padre Archangelo Ordine distribuiram as bênçãos nas dependências do prédio.
a. Torquato de Almeida fez seus agradecimentos aos visitantes e suas esposas e ao diretor da estrada de ferro pelo transporte dos convidados.
b. Apresentou aos convidados o gerente do hotel, o experiente senhor Lino Amadeu Bastos, que havia sido gerente do Grande Hotel de Belo Horizonte.
a.Eram muitas as expectativas...
b. Esperavam visitantes de todas as bandas. Gente da região e até mesmo de São Paulo, Rio de Janeiro.
a. É. Havia uma estrada de ferro... Por aqui passava trem. (Alguém se lembra?)
b. Quantas horas, agora? Naquele dia, mais ou menos pelas 20h, foi servido um grande banquete...
a. Um grande banquete! Em tempos passados suntuosos banquetes eram servidos em inaugurações... Importante.
b. Importante hoje é o povo. Não se serve grande banquete. A estrela da festa é o povo. Quando mais gente, mais bonita a festa...
a. Estou pensando na mesa montada no terraço do jardim... Finos doces, vinhos, licores... A magnífica orquestra regida por Pedro Rodrigues de Oliveira. Ah!  Fiquei sonhando quando li sobre esta festa... Lá nos documentos do Museu Histórico.
b. Acorda! A sua grande festa é hoje! Como está lindo este prédio da Casa da Cultura!
a. Antes, vamos pensar na sua história. O Hotel. O hotel recebeu gente de todos os lados. Era um dos mais confortáveis de Minas Gerais. Bom. Não hospedou assim tanta gente como o esperado. Engenheiros, viajantes / vendedores que traziam consigo muitas mercadorias. E mais. Veterinários, médicos, comerciantes, os diretores das fábricas de tecido.
b. E até um governador do estado de Minas, o Presidente Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.
a. Ah. E ele foi recebido com um farto banquete. Era 1928.
b. Começo de uma crise mundial. Crise. Alguém aqui já ouviu falar de crise? Pois é. Existe. Há séculos.
a. Com a tal crise mundial, a economia brasileira foi afetada.
b. Sai pra lá... Parece história de hoje...
a. O Hotel fechou suas portas. O prédio foi vendido para o Estado, ainda no governo do presidente Antônio Carlos.
b. Que pena! E pela história, parece que o prédio ficou fechado por uns três anos. Até que Benedito Valadares, que então era prefeito de Pará de Minas, recebeu as chaves do prédio para instalar aqui o Ginásio Municipal São Geraldo.
a. O Ginásio do prof. Martin Cyprien, um francês da ordem religiosa marista, que havia vindo da cidade de Oliveira. O Ginásio S. Geraldo funcionou neste prédio por quase dez anos, até que o prof Martin resolveu mudar-se para Divinópolis, levando a sua escola.
b. E depois...  Outras escolas funcionaram aqui. Em 1942, foi criado o Ginásio São Francisco, pelos frades da Ordem Franciscana, vindos lá da Holanda. Departamento masculino e departamento feminino. Meninos separados das meninas!  Ora. Ora.
a. O ginásio masculino, permaneceu menos tempo, cerca de um ano, até sua sede própria ficar pronta. Local onde hoje funciona a Escola Estadual Fernando Otávio.
b. O ginásio feminino ficou mais tempo, até no final de 1948. Então, mudou-se para o prédio próprio. Foi chamado de S. Francisco durante muitos anos, passou a ser Colégio Normal Sagrado Coração de Maria e hoje é o Colégio Berlaar Sagrado Coração de Maria.
a. Ufa! Pelos menos, mesmo mudando de nome essas escolas ainda funcionam. Mas, aqui funcionaram outras escolas...
b. Antes de ser usado para uma outra escola, o prédio sediou uma importante feira. A primeira Exposição Agro-industrial Regional de Pará de Minas, no final de 1949. Sinal de que a cidade começava a expandir seus negócios para a agricultura.
a. Uma importante feira, que contou com a presença do governador Milton Campos e comitiva, e autoridades do estado como Benedito Valadares e até Juscelino Kubitschek, na época deputado federal. Foi até filmada!
b. Depois disso o prédio passou por uma grande reforma. Ganhou as marquises na fachada principal.
a. Nesse meio tempo, o prédio foi ocupado pela Delegacia Fiscal de Rendas Estaduais. Pela Estação Rodoviária e outras escolas.
b.Uma delas, o Colégio Comercial Nossa Senhora da Piedade, a conhecida Escola de Comércio, funcionou aqui por 15 anos, até ganhar seu prédio lá no Centro Educacional Jarbas Passarinho, local onde funciona hoje o Colégio S. Francisco, que não é a mesma escola criada pelos franciscanos.
a. Colégio Normal N. Sra. da Piedade, mais conhecida como Escola da dona Avani. O Ginásio Vicente Porfírio.
b. A Associação dos Secundaristas de Pará de Minas.  A famosa ASPM do tempo de juventude.   Famosa?
a. Sim. Famosa. Na época em que a ASPM existiu, no final da década de 50, na década de 60. Era lá que os jovens iam para solicitar o que era, até então, o primeiro e mais importante documento de suas vidas. A Carteira de Estudante.  A carteira de estudante? Mas, era tão importante por quê?
b. Por causa do cinema. Havia dois cinemas na cidade. Dois filmes novos por semana! Diversão garantida pela metade do preço.
a. Outras entidades ocuparam também este  espaço.  Sindicato dos Trabalhadores Rurais.
b. Escolas Reunidas do Centro;
a. Cia. Telefônica de Pará de Minas;
b. Superintendência da Merenda Escolar;
a. Escritório da Cerita – Cooperativa de Eletrificação Rural;
b. Banda de Música Municipal;
a. Posto Regional do Ministério do Trabalho;
b. Posto do Ministério da Agricultura;
a. Liga Esportiva;
b. Rádio-Telégrafo Estadual;
a. Associação dos Motoristas;
b. Grupo das Bandeirantes;  
a. Associação Recreativa dos Professores Paraenses – ARPPA;  
b.Grupo Recreativo Escola de Samba Araras;
a. Academia de Taekwondo;  
b. Bazares Beneficentes.
a. Lions Club e Rotary Club;
b.Coral Nossa Senhora da Piedade;
a. 1984. Uma data que marca uma nova fase da história deste prédio.
b. O prédio do Grande Hotel foi doado ao nosso município pelo Governo de Minas durante a
administração do governador  Hélio  Garcia.
a. Isso, após um longo período de negociação de Antônio Júlio de Faria que era o prefeito da cidade
naquela época..
b. O  majestoso  prédio havia passado por  muitas modificações no seu interior.
a.Ainda bem que a bela fachada foi preservada, não é mesmo?
b. Portas e janelas de madeira de boa qualidade haviam sido substituídas por basculantes de
ferro  e vidro.
a. E nem se sabe quem havia feito as mudanças. O prédio havia ficado tanto tempo emprestado. Para  tantas escolas, tantas entidades...
b. A prefeitura verificou que o prédio precisava de uma urgente restauração. Obras difíceis e caras.
a. Só dois anos após receber a propriedade que a prefeitura pôde iniciar o restauro que teve a
direção da arquiteta Maria Cristina de Melo Aguiar e assessoria do IEPHA-Instituto Estadual do
 Patrimônio Histórico e Artístico.
b. Enquanto duravam as reformas, por lei municipal, o prédio conhecido como Grande Hotel
recebeu a denominação de “Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira”.
a. Desde que foi entregue ao município, mesmo em obras, o prédio foi ocupado:
b. A Biblioteca Pública Municipal Prof. Melo Cançado, que neste ano completa seus 55 anos de
empréstimos de livros e mais livros mudou-se para este local.
a. Centro Interescolar de Ensino Fundamental
b. Ensino Supletivo
a. Secretaria Municipal de Cultura
b Brinquedoteca
a. 17 de  Setembro de 1993. A Cultura toma conta do prédio.
b. Inauguração da Casa da Cultura pelo prefeito Silésio Mendonça.
a. E desde então... muitos eventos  culturais. As mais diversas expressões da educação, da arte e da
cultura são acolhidas nesta casa que é a Casa da Cultura.
b. Exposições de arte. Pintura, escultura, cerâmica, artesanato...  
a. Lançamentos de livros;
b. Recitais
a. Reuniões e mais reuniões. Encontros com os mais diversos segmentos culturais da cidade.
b. março de 2011. Inauguração do Arquivo Público Municipal Mário Luiz Silva. Pará de Minas se
 coloca como polo de pesquisa histórica da região e recebe pessoas de diversas partes de
 Minas, do Brasil e até do exterior.
a. Dezembro de 2012. Inauguração do Teatro Municipal Geraldina Campos de Almeida.
b. A vez do teatro.  Que maravilha tem um teatro!
a. O teatro foi construído no local que um dia serviu de área de serviço e cozinha do Grande
Hotel. Quanta intimidade!
b. E já foi palco de dezenas de peças, dezenas de espetáculos musicais, centenas de palestras.
a. Até hoje, a entrada do teatro se dá pela lateral esquerda do prédio da Cultura.
b. Até hoje...
a. Hoje, 29 de outubro de 2015, o teatro ganha uma entrada muito especial.  Um piano de cauda de
 belíssima acústica, camarins e banheiros bem equipados...
b. A Biblioteca, que recebe cerca de duzentos  leitores e pesquisadores de todas as idades por dia
reabre suas  portas.
a. O Arquivo Público Municipal está preparado para receber seus pesquisadores
b. A Secretaria de Cultura retorna a seu espaço. Tudo novo e pronto para receber o povo desta
cidade.

 (cantarolam a música): Casa É Sua - Arnaldo Antunes
Não me falta cadeira
Não me falta sofá
Só falta você sentada na sala
Só falta você estar
Não me falta parede
E nela uma porta pra você entrar
Não me falta tapete
Só falta o seu pé descalço pra pisar.

                                                   

 

Postado em 02.11.2015.