“Leva eu, sodade” [Memória de Pará de Minas]

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                                                        Luiz Viana David


Nos primeiros anos da década de 1960 um grupo musical fez enorme sucesso por todo o Brasil e mesmo no exterior. Era um quinteto, “Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano”. Todos os integrantes eram negros como a madeira que batizou o conjunto. E afinadíssimos, vozes suaves, entre as quais se destacava  a de Nilo Amaro, vários tons mais grave do que a dos colegas. No ano de 1962 talvez a música mais tocada nas emissoras de rádio tenha sido uma gravada por Nilo Amaro e seus cantores, uma música gostosa de ser ouvida, e preguenta, pois dava vontade de ficar ouvindo-a horas seguidas. A canção “Minha Sodade” acabou ficando  popular com outro nome, por conta da primeira estrofe, que é assim:

“Ô leva eu,
Eu também quero ir
Quando chego na ladeira
Tenho medo de cair.
Leva eu,
Minha sodade!"

Em seguida vêm as outras estrofes, que fazem da letra uma bela poesia. Falando de coisas simples, que mexem com o imaginário popular. Os Cantores de Ébano viajavam por todo o país, se apresentando em circos, dancings, praças públicas, teatros, numa época em que a televisão engatinhava no Brasil e a venda de discos era a principal fonte de renda dos artistas. Então todos saiam em longas tournées pelo interior, e com Nilo Amaro e sua troupe não era diferente.

Corta para 1972. A Churrascaria Patropi era nesse ano, o principal ponto de encontro da sociedade de Pará de Minas. Funcionava no número 605 da rua Direita; seu proprietário era o ex-bancário Mauro Ferreira de Almeida, o Mauro do Wanderley dentista ( e de dona Vera, obviamente).  A casa estava sempre cheia, durante o dia pelos famintos em busca do suculento churrasco que era servido;  e à noite, principalmente pela juventude, que fez do lugar o seu point e lá ia para tomar seus drinks preferidos, hectolitros de cuba-libre, hi-fi, cachacola, cerveja e campari eram servidos à rapaziada que vivia o apogeu do movimento hippie, e por aqui também predominavam  as roupas coloridas e as cabeleiras enormes. O nome Patropi dado ao lugar não foi à toa, e foi uma bela sacada  do proprietário aproveitando o o nome do megasucesso cantado por Wilson Simonal. A Churrascaria Patropi assim, fazia jus ao nome.

Um belo dia um grande cartaz aparece afixado na porta da Patropi, anunciando em letras garrafais: "Na próxima sexta-feira, grande show com o famoso cantor Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano”. Mesas à venda.  Poucas horas depois de anunciadas, todas as cento e vinte mesas estavam vendidas, garantindo o sucesso antecipado do espetáculo. Nilo Amaro continuava em alta na cidade.

Volta para 1962. Neste ano, um jovem popular e bem sucedido comerciante havia decidido entrar para a política disputando de cara o cargo de prefeito. Era José Porfirio de Oliveira, que chegava ao cenário político municipal incentivado por centenas de amigos, depois de haver presidido com sucesso, o glorioso Paraense Esporte Clube.

Iniciado período da campanha eleitoral, José Porfirio logo providenciou um automóvel, equipado com campanas (alto-falantes), no interior do qual ia um locutor se esgoelando para anunciar as virtudes  do candidato e no intervalo de uma fala e outra entrava a música mais tocada nas rádios naqueles dias,  que o povo havia rebatizado de “Leva Eu”. Foram mais de dois meses de uma overdose de Nilo Amaro e parceiros. A canção foi tocada “ad nauseam”, mas tanto, que muitas pessoas que viveram aqueles dias ainda sonham com ela, meio século depois.  José Porfirio perdeu a eleição naquele ano e voltaria a disputar a eleição outras quatro vezes, ganhando em três oportunidades.

Volta para 1972. A noite do grande show tornou-se inesquecível não apenas pela performance do artistas. Nilo Amaro que já não fazia grande sucesso nas grandes metrópoles, ficou surpreso com a recepção que teve na cidade; a hospedagem no luxuoso e novíssimo hotel Gran Lord; e emocionou-se principalmente com a churrascaria lotada. Sabia de nada, inocente. Nem sonhava que sua fama no Pará de Minas decorria em grande parte da campanha eleitoral de dez anos antes. Figura simpática e extremamente acessível, o cantor da voz poderosa fez de tudo para agradar a eclética platéia. Foi um show demorado, mais de quatro horas de cantoria. Entre uma canção e outra, sempre alguém solicitava que cantasse novamente a mais famosa, Leva Eu.

Em determinado momento, visivelmente extenuado pelas horas seguidas que passou cantando, um dos fãs pede-lhe  que cante mais uma vez a velha canção. Nilo Amaro desmanchou-se em mil pedidos de desculpas, e recusou-se a atender o enésimo pedido de bis. Desta vez quem havia pedido fora o abastado e correto comerciante José Bentinho, porém, dono de um estopim reconhecidamente curto. Bentinho recebeu a recusa do cantor como um um insulto e ato contínuo, sacou de seu inseparável revólver e deu um tiro para baixo, no chão. por muito pouco não acertando o pé do assustado cantor, dizendo: “não canta, mas também não dança mais”!  Apavorado, o bom Nilo Amaro correu para o hotel que ficava apoucos metros dali e nem quis dormir na cidade, apenas pegou sua bagagem e seguiu para Belo Horizonte.

Zé Bentinho nunca teve a intenção de acertar alguém com sua arma, muito menos o célebre artista. Apesar de irascível e turrão, de andar sempre armado, era incapaz de matar uma mosca. Enviuvara recentemente e na época estava namorando,  com intenção de casar-se outra vez. Tudo o que queria era impressionar sua nova amada que o acompanhava naquela noite.

 

Fonte: http://www.estamosassim.com.br/leva-eu-sodade/  Retirado em 26.06.2014