O jogo que nunca acabou. Ou quando o melhor jogador do mundo atuou na cidade. [Memória de Pará de Minas]

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                                                     (Luiz Viana David)


O futebol é um esporte tão fascinante que uma partida de noventa minutos começa, na verdade, muito antes da bola rolar. São os comentários boca-a-boca, as matérias nos jornais e revistas, os programas de rádio e televisão e, agora também nas redes sociais deste instrumento inacreditável que é a internet, que criam a expectativa dos torcedores sobre a  partida  que será jogada daí a muitos dias. E está enganado quem pensa que tudo acaba quando o árbitro trila o apito ao fim dos noventa minutos regulamentares. A partir daí, a partida entra para a história e vai se integrar aos anais do futebol. O esporte criado e regulamentado pelos ingleses não é por acaso o  mais popular do planeta. Pode ser o mais reles rachão realizado num campo todo esburacado, perdido no mais remoto interior de qualquer país; ou  pode ser uma partida decisiva de  Copa do Mundo, sempre haverá um episódio a ser relembrado pela posteridade. Vinte, cinqüenta ou cem anos depois, sempre haverá alguém que ouviu dizer que “aquela bola não entrou”, ou que  “o juiz marcou pênalte inexistente” e ainda que “o resultado de goleada não reflete o que  foi a  partida”. Os lances duvidosos sempre são mais lembrados que as jogadas maravilhosas e  assim é, justamente por que o futebol é um esporte que desperta paixões; o único talvez, onde o melhor time nem sempre sai vencedor, o que permite ao torcedor de um time da quarta divisão sonhar com uma vitória sobre o campeão nacional. Além disso, o futebol tem regras únicas vigentes em todos os países, e não custa lembrar que a FIFA, entidade de caráter mundial, tem mais países associados do que a própria ONU: duzentos e sete em 2014. E as dezessete regras do futebol prevalecem em todos eles. São imutáveis há cento e cinqüenta anos, até parecem cláusulas pétreas da Constituição Nacional.

O que eu  quero é contar a história de uma partida de futebol acontecida em meados da década de 1950, em Pará de Minas, então uma cidadezinha pacata, cuja população formada por um povo hospitaleiro não passava de dez mil habitantes. Um povo apaixonado por futebol e pelo time local, o Paraense Esporte Clube. É a resenha de uma partida jogada na tarde ensolarada, mas fria, de 29 de maio de 1955,  que a exemplo de centenas de outras, ainda não acabou. Talvez por que o protagonista tenha sido o melhor futebolista do mundo naquela época: Tomás Soares da Silva, o Zizinho.  Aproveito para, de passagem, pintar um retrato daquele Pará de Minas romântico, gostoso, pequenininho. Essa histórica partida de futebol bem que pode ser vista como um rito de passagem de uma urbe que começava a romper os seus limites.

Pois então, deixem-me contar como foi.

Foi assim.

A grande novidade em Pará de Minas no ano de 1955, foi a posse em 31 de janeiro, do jovem advogado Osvaldo Ribeiro Lage no cargo de prefeito. No final do mês de abril, início de maio, muito se falava dos novos métodos de gestão que estavam sendo implantados pelo mais jovem alcaide de nossa história; cujo desempenho no cargo faria dele um dos melhores do município em todos os tempos.  Outros assuntos porém,  começavam a predominar nas conversas do povo, como a tradicional coroação de Nossa Senhora, que acontecia todas as noites na igreja matriz durante  o mês de maio.

A  sagração do vigário Geraldo Maria de Morais Penido,  elevado a bispo de Juiz de Fora,  era motivo de grande alegria e de prosas intermináveis. Outro assunto relevante era a campanha eleitoral em andamento, que levaria o governador mineiro Juscelino Kubitschek, um grande amigo de Pará de Minas, à presidência da República.

E obviamente, falava-se muito de futebol: do tricampeonato mineiro do Atlético, que agora queria o tetra; do Flamengo, que buscava o tricampeonato carioca, numa época em que torcer para algum time do Rio era quase obrigação. O futebolista patafufense Luiz Vinicius de Menezes, que deu seus primeiros chutes vestindo a camisa do Paraense,  também era pauta garantida. Vinicius, agora  atacante do Botafogo, era  pretendido pelo futebol italiano, para onde seguiria naquele mesmo ano, vendido ao time do Nápoli, depois de marcar muitos gols durante uma excursão do time da “estrela solitária” ao Velho Continente, aproveitando os cruzamentos de um ponta direita ainda desconhecido, com o nome esquisito de Garrincha.

Mas o xodó da torcida era o renovado time do Paraense, assunto obrigatório de todas as conversas. Estava invicto em 1955 e  seguia goleando os adversários que apareciam na sua frente. Poucos acreditavam que o Paraense pudesse formar uma equipe como aquela da época de sua fundação, que brilhou durante toda a década de 1940. Mas agora, aqueles craques extraordinários viviam o ocaso futebolístico. Todos eles eram amadores, já veteranos, a maioria casada,  suas preocupações agora decorriam da responsabilidade com a respectiva família. O futebol para aqueles  fantásticos futebolistas -- Pedro II, Polanche, Davizinho, Patesko, Zé Vital, Hugo, Wilson Melo Franco, Antônio Walter,  Rouvier Ferreira,  Zé do Zico, entre muitos outros da mesma geração, agora seria apenas distração sem compromisso em ocasionais rachões de fim de semana.

Desde a inauguração do estádio que o técnico Bruno Marinho vinha preparando os substitutos dos velhos ídolos e, finalmente, o time parecia pronto. De forma que logo surgiu a dúvida sobre qual elenco seria o melhor: o antigo ou o atual.  Esta dúvida jamais foi esclarecida, as duas equipes, separadas por um espaço de tempo de mais de dez anos, foram as duas melhores formações do Paraense em todos os tempos; até mesmo se comparadas com os elencos profissionais do clube na década de 1960. Mas em maio de 1955 era um assunto que dava pano prá manga, gerando acaloradas discussões.

O estádio “Ovídio de Abreu”, inaugurado em 1951, era considerado o melhor do interior de Minas; bonito,  aconchegante, com o gramado considerado entre os três ou quatro melhores do Brasil. Era o “majestoso” estádio Ovídio de Abreu, como anunciava ao microfone com sua voz poderosa,  Zico Mãozinha, o locutor oficial da cidade .

Naquele tempo, o ribeirão Paciência era bastante caudaloso e o curso de seu leito nas imediações do estádio era diferente de hoje. Atrás do campo, no sopé da serra de Santa Cruz,  antes de se aproximar da Chácara Orsini (atual Escola Municipal de Artes e Ofícios), o ribeirão fazia uma curva à esquerda e passava por trás das arquibancadas cobertas do estádio, espremido entre este e o “colégio das Irmãs”. Pouco mais de cem metros à frente,  virava à direita e logo depois,  próximo da rotunda que existia nas imediações  da estação ferroviária, virava de novo à direita, atravessava a rua Dr. Higino onde havia uma ponte de madeira sobre ele, e só então seguia seu rumo de sempre, beirando a serra, ainda sem a estátua do Cristo Redentor, que naqueles anos da década de 1950  existia apenas na imaginação de seu construtor, o visionário Nem Villaça.  De modo que o gramado estava sempre verde, lindo em qualquer época do ano, graças  à umidade do solo proporcionada pelo ribeirão e aos cuidados de Bruno Marinho, que acumulava as funções de técnico e zelador do estádio. Na década de 1970  o Paciência foi canalizado na região central da cidade e teve seu curso corrigido, acabando com sua sinuosidade  e o gramado invejável  nunca mais foi o mesmo.

O estádio tinha capacidade para no máximo seis mil torcedores, o que equivalia a  sessenta por cento da população da cidade. Na época, quem ia ao campo podia assistir aos jogos de pé,  atrás  da metas, distantes menos de dois metros. Era uma espécie de geral.  A proximidade acabava por criar problemas, pois o alambrado não impedia os mais fanáticos de atirarem objetos dentro do campo, visando acertar principalmente o goleiro adversário. Depois, na década de 1970, por questões de segurança, essas gerais foram fechadas, o que diminuiu muito a capacidade do estádio.

Naquele ano de 1955 era presidente do Paraense seu ex-jogador Hugo Marinho, que freqüentava o clube desde sua fundação em 1936, quando o campo ainda era no bairro da Várzea, perto de onde as ruas Dr. Cândido e Antônio Júlio se encontram  e formam um ângulo reto. Hugo havia sido um jogador apenas razoável tecnicamente, mas era dono de um chute bastante forte e dotado de uma garra incomum, qualidades que aliadas à técnica e à categoria daqueles jogadores fabulosos já citados, davam a ele a condição de indispensável. Afinal, um time não pode contar apenas com virtuoses, sempre será necessário alguém  para “carregar o piano” e naquele time, esse alguém  era Hugo Marinho. Foi o último de sua geração a pendurar as chuteiras, em 1953, quando foi eleito presidente do clube.

Na ocasião, o jornalista Canor Simões Coelho, mineiro radicado no Rio onde era considerado uma espécie de embaixador do futebol mineiro, fez uma frase de efeito ao dizer que “agora o time do Paraense vai estar melhor pois Hugo não joga mais, e o clube vai crescer muito, pois com certeza ele será um grande presidente”. Palavras proféticas, pois com Hugo Marinho o Paraense alcançaria fama nacional, levando o nome da cidade por todos os cantos do país. De fato, onde fosse encontrado um fanático por futebol, ele sabia que em Pará de Minas, Minas Gerais, existia um time de nome Paraense.

Maio é também o mês de aniversário do Paraense, fundado num dia 30.

Irrequieto, Hugo Marinho  como fazia com freqüência, visitou a sede da Federação Mineira de Futebol, na Capital, à procura de um adversário para o Paraense, nos festejos de seu 19º ano de existência. A preferência do presidente era pelo Atlético Mineiro, tricampeão estadual, que tinha em seu elenco os principais craques das “alterosas”, entre eles o atacante Ubaldo, famoso por marcar gols considerados impossíveis, sendo pretendido pelos grandes clubes de Rio e São Paulo. Naquele primeiro contato ficou praticamente acertada a vinda do alvinegro da colina de Lourdes, como o Galo  era então conhecido.

Na  semana seguinte, ao retornar à Federação para assinar o contrato, Hugo Marinho recebeu a informação de que o Bangu Atlético Clube, do Rio de Janeiro, estaria excursionando no interior de Minas na segunda quinzena do mês, para uma série de amistosos.

O Bangu era uma espécie de segundo time de todos os torcedes; havia sido campeão carioca em 1933 e desde então se colocava entre os três ou quatro melhores times do Rio. Sua principal estrela era o atacante Zizinho, que após atuar 12 anos no Flamengo, teve seu passe comprado pelo clube alvi-rubro em 1950, na maior transação até então realizada no futebol brasileiro. Durante toda a década de 1940  Zizinho foi considerado o melhor jogador do mundo;  mesmo em 1955, aos 33 anos de idade, dividia essa condição com  o húngaro Ferenc Puskas, a maior estrela do escrete magiar, campeão olímpico de 1952 e vice-campeão do mundo em 1954,  na Copa da Suíça.

Ao tomar conhecimento da vinda do Bangu a Minas, os olhos azuis de Hugo Marinho brilharam como nunca. Com o Atlético Mineiro já acertado, com o Bangu dando sopa na praça,  por que não o Atlético  enfrentar Zizinho & Cia na festa do Paraense, que buscaria outro adversário para ajudá-lo a soprar as velinhas do bolo? Quem conheceu Hugo Marinho sabe que quando ele encasquetava  uma coisa, não sossegava enquanto não a conseguisse.

Convencer os dirigentes do Atlético não foi difícil, uma suplementação no valor da cota  e para o alvinegro não faria diferença se o adversário fosse o Bangu ou o Paraense. Era até mais interessante jogar contra o time carioca, pois  o amistoso teria repercussão nacional. Jogando todo o seu charme para cima dos dirigentes da Federação e usando o prestigio dos patronos do Paraense no Rio de Janeiro, o senador Benedito Valadares e o deputado federal Ovídio de Abreu, além do velho amigo jornalista Canor,  o presidente  Hugo Marinho conseguiu convencer a diretoria do Bangu a enfrentar o  campeão mineiro em Pará de Minas. O amistoso foi marcado para o dia 29 de maio de 1955, véspera do aniversário do Paraense, que enfrentaria na preliminar o esquadrão do  Formiga EC, da cidade do mesmo nome, um tradicional adversário no centro-oeste mineiro.

A noticia teve o efeito de uma bomba na cidade, trazida pelas ondas da poderosa Rádio Inconfidência, durante sua programação esportiva. À noite, quando retornou, Hugo Marinho tinha a esperá-lo no restaurante  do Zé Dureza, toda a diretoria do clube, estupefata com o atrevimento de seu presidente. Afinal ele havia contratado não apenas o Atlético, como também o Bangu, e com Zizinho, como rezava o contrato em letras bem grandes, não fosse Hugo dono do cartório de registro de imóveis. Mas todos já estavam acostumados com as loucuras do presidente, entre elas, a de fazer, de carro, em hora e meia, o percurso de 90 quilômetros entre Pará de Minas e Belo Horizonte, um recorde para a estrada de terra, esburacada e cheia de curvas.

- Agora é arregaçar as mangas e preparar a festança, foi a palavra de ordem do presidente aos companheiros.

Aos poucos,  os comentários sobre o jogo foram ganhando a preferência nas conversas em todas as rodas que se formavam na cidade. Dos refinados salões do Centro Literário, aos restaurantes mais afamados, ou mesmo na zona boêmia; nas fábricas de tecidos,  nos ensaios da banda de música e nas reuniões da Câmara  de Vereadores;  no footing da rua Direita ou nas filas dos cinemas Vitória e Imperial e como sempre nas rodinhas que se formavam no adro da igreja matriz antes da coroação de Nossa Senhora;  nas lojas, nos açougues e nos armazéns, nos postos de gasolina do Romualdo, do Timóteo, do Geraldo do Jafet,  e do Silvino Cunha; na oficina mecânica do “Cristo” na rua Tiradentes; ou na serraria do Chiquinho do Miguel,  no Azambeque; nas barbearias, ou nas farmácias do Julio Leitão  e do Raimundinho Leite; nas agências dos bancos e no “lobbies” dos hotéis Central e Elite. O assunto era um só. Criou-se todo um clima na semana que antecedeu a partida.

Os treinamentos do Paraense naqueles dias foram vistos por  grande número de torcedores, ávidos por acompanhar de perto os preparativos da equipe, todos de olhos e ouvidos atentos a qualquer nova informação que chegasse. Desde a terça-feira, 24 de maio, que o jornal “Estado de Minas” dedicava grande espaço ao jogo; assim que os exemplares chegavam à cidade eram disputados a tapa pelos fanáticos. O povo se envaidecia com os rasgados elogios do jornalão, não apenas ao time do Paraense, como também ao estádio que seria palco da partida e à cidade de uma maneira geral; considerada bastante desenvolvida, muito limpa, com suas fábricas de tecidos, seus colégios para internos, e à religiosidade de seu povo, esmagadoramente católico. Foi por esta época que ganhou fama a tradição popular, quando as pessoas interrompiam por dois ou três minutos o que estivessem fazendo, ao ouvir soar as campainhas anunciando, no inicio da noite, a benção do Santíssimo Sacramento, na Igreja Matriz. Na rua, as pessoas viravam de frente  para a igreja e ficavam paralisadas  como se fossem estátuas vivas.

Na sexta-feira a cidade começou a receber os visitantes. As jardineiras da empresa Santa Maria, com capacidade para 25 passageiros, vinham lotadas de paraenses que moravam  principalmente em Belo Horizonte. Outros ônibus que faziam linhas de cidades do triângulo mineiro e do Alto Paranaíba, que passavam dentro da cidade,  também deixaram aqui boa parte dos passageiros embarcados na capital. O trem da Rede Mineira de Viação chegou  sem atraso e lotado às 10 da noite, e foi  grande o burburinho de passageiros, amigos e parentes que foram recebê-los na estação,  deixando no ambiente aquele cheiro gostoso de maçãs argentinas e pão francês. Era hábito de quem viajava a Belo Horizonte trazer na bagagem  enormes  bisnagas de pães e maçãs argentinas embrulhadas em papel de seda  roxo. As maçãs eram então uma fruta rara no Brasil e custavam caro, mas eram doces e exalavam um aroma inesquecível, que faz parte da memória olfativa de quem o aspirou um dia.

No sábado o clima já era de festa, mesmo com o comércio aberto o dia inteiro e os bancos até ás 11 horas, como era da tradição. Apenas alguns anos depois é que a chamada “semana inglesa” seria adotada pelos comerciantes e os bancos passariam a encerrar  a semana  na sexta-feira.  Os torcedores continuaram a chegar de ônibus e até em  caminhões. Pela estrada de ferro, no trem novamente lotado, vieram mais algumas dezenas deles, a maioria das cidades vizinhas de  Itaúna, Divinópolis e Formiga, que fizeram a baldeação em Azurita, onde pegaram o trem do ramal de Pará de Minas. Os bares e restaurantes tiveram de contratar garçons e cozinheiras extras. Os hotéis e as pensões ficaram  lotados, com gente dormindo até nos corredores. Muitas famílias receberam parentes que vieram matar a saudade e testemunhar a histórica presença de Zizinho em Pará de Minas. Os bares da zona, que nas noites de sábado fechavam a uma da madrugada, naquela véspera da partida, deram expediente em tempo integral abrigando muitos visitantes que não conseguiram uma acomodação convencional, para alegria de seus donos e das cafetinas Uberaba, Bilica e de suas “meninas”.

Para o povo as festividades começaram na tarde/noite  do sábado. A quadra esportiva do estádio, que ficava atrás do gol, logo na entrada, foi reformada e naquele dia recebeu  o nome de Padre Grevy. A diretoria havia conseguido a iluminação da quadra, uma proeza em 1955. Para inaugurar os refletores aconteceram partidas de vôlei e basquete contra equipes da vizinha cidade de Pitangui e outra formada por alunos internos do Ginásio S. Francisco.  O deputado estadual Wilson Guimarães, ex-atleta do clube, foi quem acionou  a chave geral ligando os holofotes,  deixando todos eufóricos com a novidade.  Mas, mesmo ali, era grande a expectativa para os dois grandes jogos programados para o dia seguinte,  dentro de  poucas horas. A atmosfera era de suspense e  Zizinho, o “Mestre Ziza”, o melhor jogador do mundo, já estava na cidade.

As delegações visitantes tinham chegado durante a tarde e se hospedaram no Hotel Elite. À noite, o Paraense ofereceu aos visitantes um jantar no salão do extinto Grande Hotel (atual Casa da Cultura). Diz a lenda,  que após o regabofe, os jogadores de Atlético e Bangu deram uma volta pela rua Direita, flertaram com as moças que faziam o “footing” e retornaram ao hotel por volta de vinte e duas horas. Menos Zizinho, que antes de se recolher teria passado pelo bar Elite, onde esbanjando simpatia confraternizou com  alguns fãs que lá estavam, sempre de olho numa linda morena cujo nome se perdeu no tempo, mas   acabou levando-a para um escurinho, aos pés da recentemente inaugurada  estátua do benfeitor Torquato de Almeida, onde ficaram por boa meia hora. Na volta, feliz da vida, passou de novo pelo bar, conversou mais um pouco e educadamente pediu licença para se retirar, desejou boa noite a todos e subiu para o quarto, sob o olhar de veneração e êxtase de todos os presentes. Era o maior jogador de futebol do mundo e estava ali, quem o viu tão perto jamais esqueceu. Alguns se beliscavam, para terem  certeza de que não era um sonho a presença ali de Mestre Ziza.

Em 1955 as estações do ano ainda eram bem definidas, de modo que no final de maio as  madrugadas  eram  frias e anunciavam a chegada do inverno que era sempre rigoroso. Mesmo assim a igreja matriz estava lotada na missa das cinco horas daquele domingo, 29 de maio.  Era chamada de “a missa dos caçadores”, pois a maioria dos presentes era adepta da caça e da pesca, na época  permitidas, posto que fartas. Todos iam à missa já preparados, levavam os petrechos, matula, espingardas e varas, que deixavam  perto dos cães perdigueiros, que ficavam amarrados junto ao jardim da praça, ao lado  das  bicicletas, o meio de transporte de quase todos. Cumprida a obrigação religiosa, seguiam sem perda de tempo, diretamente para as margens dos rios e lagoas  da região, em busca dos bagres, tilápias, pacus e mandis.  Ou então se mandavam para as matas próximas à cidade, atrás de codornas, perdizes, ou quem sabe, de uma paca, se  o dia fosse de sorte  O celebrante  do culto quase sempre era  Padre Grevy,  muito famoso pela pressa com que rezava a  missa, que  nunca passava de 30 minutos e olhe lá.  Cortava na prédica e agilizava o latim; naquele dia então, eufórico com tanta agitação na cidade, a missa demorou quase nada. Muitos dos fiéis naquela manhã, nem eram adeptos da pesca ou da caça, apenas estavam motivados pela ansiedade causada pela expectativa dos dois jogos programados para o dia. Além do mais, a preliminar, reunindo os times do Paraense e do  Formiga, estava marcada para dali a pouco, para as  10 horas. Muitos saíram da igreja diretamente para o campo, a um quilômetro de distância, ou alguns poucos  minutos a passo normal.   Mas nenhum deles queria perder nada daquele dia histórico, muito menos o celebrante Padre Grevy  Guimarães de Almeida

Aos 42 anos, o padre era talvez a figura mais popular e simpática da cidade. Pertencia a família tradicional e escolhera o sacerdócio por vocação, para servir a humanidade. Abaixo de Deus e da Santa Madre Igreja tinha duas paixões: o Clube Atlético Mineiro e o Paraense Esporte Clube, não necessariamente nesta ordem. Sua cadeira cativa no estádio trazia o escudo do campeão mineiro gravado em seu encosto e ele sempre  evitava assumir compromisso  simultâneo aos jogos, principalmente os do Atlético, que eram transmitidos pelo rádio. Se a partida festiva fosse entre o Paraense e o Atlético Padre Grevy  com certeza se sentiria desconfortável e talvez  até torcesse por um empate com placar dilatado, 4 a 4  ou 5 a 5. “Ainda bem”, ele já havia comentado, “que o Hugo  teve a inteligência de separar os dois, fazendo-os jogar contra adversários diferentes”. Não fazia nenhuma questão de esconder a emoção que sentiu com a homenagem que o Paraense lhe prestara na véspera, dando seu nome à quadra esportiva, agora dotada de iluminação elétrica. Naquele dia Padre Grevy  não cabia em si de felicidade. Apressara a missa das cinco, voltara em casa  para tomar café com suas irmãs Cotinha e Amélia e pouco depois estava novamente na  igreja para concelebrar a missa das oito, junto ao vigário e futuro bispo D. Geraldo. A missa solene era em homenagem ao Paraense e mereceu um belo sermão do vigário, que causou emoção nos fiéis que lotaram a velha, linda  e inesquecível igreja matriz de Nossa Senhora da Piedade, que ninguém ali sequer imaginava, mas dezessete anos depois  seria demolida por iniciativa do vigário sucessor de padre Geraldo Penido, o que é outra história.

As nove e meia da manhã as arquibancadas recebiam um público razoável para assistir ao jogo entre Paraense e Formiga, cujo chute inicial foi dado por Dom Geraldo. O Paraense ganhou por dois a zero, gols de Geraldo Casinha e Alberto Pereira. A partida foi apitada pelo árbitro da Federação Mineira, Alcibíades de Magalhães Dias, o lendário “Cidinho Bola Nossa”. O Paraense formou com Ary, Hélio e Barrão; Zé da Uca, Hélcio e Luiz da Ica; Rivalino, Alberto, Coteco, Nilton do Lindorifo e Geraldo Casinha.

Pouco antes de morrer Hugo Marinho, em 1998, em conversa com ele, perguntei por que razão a preliminar tinha acontecido na parte da manhã. A resposta do ex-presidente foi singela e faz sentido: “o estádio tinha (tem até hoje) apenas dois vestiários. Como acomodar com o mínimo de conforto quatro equipes, da quais três eram visitantes, e visitantes ilustres? Por essa razão os jogos aconteceram de forma separada. E no intervalo entre uma e outra partida, o funcionário público Raimundo Morais, o Dico Buru, encarregado da rouparia do Paraense, com seus auxiliares, trataram de deixar os vestiários nos trinques.

Na prática, a partida entre Paraense e Formiga foi uma espécie de aperitivo, saboreado prazerosamente pelos torcedores, que após o apito final de Cidinho, chisparam para suas casas para o almoço de domingo, sem maiores delongas, pois o jogo de futebol de suas vidas começaria às três da tarde e quem se atrasasse perderia os melhores lugares na arquibancada ou nas gerais.

São três da tarde, o estádio está lotado, mais de quatro mil pessoas pagaram ingresso, proporcionando uma  arrecadação de CR$126.623,00 –cento e vinte  e  seis  mil, seiscentos e  vinte  e três  cruzeiros,  recorde na cidade.  Somados a outros convidados, caronas, pessoas que pularam o muro (um problema eterno do campo do Paraense), o público total deve ter chegado perto da capacidade máxima de  seis mil espectadores, ávidos por um show do Mestre Ziza e pelos gols espíritas de Ubaldo, pelas defesas dos goleiros  Sinval e Fernando, enfim,  por tudo que tinham direito de esperar de um grande jogo.

Fora do estádio, pelas ruas da cidade, silêncio absoluto. Quem não foi  ao campo ficou em casa, ouvindo a  rádio Inconfidência, que transmitia o jogo, com narração do mais famoso locutor de Minas, Jairo Anatólio Lima . A Fundição Oriente – depois Fundição Batista, patrocinou a transmissão radiofônica.  Quem não soubesse de nada e chegasse ao Pará naquela hora, pensaria que esta era uma cidade fantasma. Os poucos carros  deviam estar nas garagens, nenhum  transeunte, os bares vazios, as praças desertas, nenhuma atividade na estação ferroviária. A cidade parou, literalmente. Todo ruído e movimento estavam concentrados nas imediações do estádio, onde o público aguardava o encerramento das solenidades que antecederam o “match”, com a troca de flâmulas e salameleques entre atletas e dirigentes locais, de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro.

Quando o árbitro Eunápio de Queirós, carioca, considerado um dos melhores do Brasil, soprou o apito dando inicio ao  que deveria ser uma partida inesquecível, uma sensação de frustração começa tomar conta dos torcedores. O jogo fica ríspido, com faltas desnecessárias de ambos os lados, com os ataques se mostrando inoperantes, pouco exigindo  dos goleiros.

O enviado do Estado de Minas assim reportou a atuação  de Zizinho, na edição do dia 31 de maio, uma terça-feira (o jornal não circulava às segundas): “Centralizando compreensivamente a atenção de todos que se encontravam no estádio, não só pelo cartaz que desfruta, e ainda pelo muito que ainda sabe oferecer como exímio futebolista, o veterano Zizinho se constituía na atração maior do espetáculo.Não justificou, porém, a curiosidade que despertava na apresentação, no tocante à disciplina. Andou às turras com seu marcador, Múcio, na etapa inicial, embora com atuação convincente. Aos seis minutos da segunda etapa, porém, reclamou grosseiramente de uma falta recebida, mas acertadamente marcada a favor do Bangu. Fez gestos acintosos, gesticulou, como se quisesse colocar o árbitro Eunápio de Queirós em situação ridícula. Este, procurou contornar   a situação, fazendo ver ao “player” a finalidade de exibição do jogo, mais uma homenagem ao clube anfitrião que comemorava seu aniversário e disse que Zizinho estava dificultando sua função. Insiste Zizinho e o ofende moralmente. Ao árbitro não restou outra alternativa a não ser expulsá-lo imediatamente. Penalizado,  o maior jogador do mundo se recusa a sair do gramado, o que estabelece certa confusão.O capitão da equipe banguense, o mineiro Nívio,  pede então ao diretor Carlos Nascimento, para retirá-lo. Zizinho não sai, o árbitro ameaça não continuar apitando se ele não sair. Finalmente Carlos Nascimento o convence a se dirigir ao vestiário. A torcida se divide, uns aplaudem Zizinho, outros lhe dedicam estrepitosa vaia. O jogo recomeça e o Bangu com um jogador a menos, se fecha em invencível ferrolho, até que a partida chegue ao seu final, com um inexorável zero a zero”.

Às cinco da tarde tudo  estava consumado, o clima de fim de festa toma conta do estádio, com a decepção estampada no rosto de cada um dos torcedores.  Esperavam mais dos dois times e principalmente de Zizinho, que nem era considerado um jogador indisciplinado, mas que justamente naquele dia e logo aqui, resolveu mostrar seu lado catimbeiro e anti-desportivo . “Uma pena”, muitos se lamentaram.

Logo a cidade começou a se esvaziar, alguns ônibus extras conseguidos pela empresa levaram embora muitos torcedores, outros aguardaram os que vinham do triângulo mineiro e que passariam de madrugada. A maioria foi embora no trem que partiu às quatro da madrugada do dia seguinte.

À noite, a partir das nove horas, nos salões do Grande Hotel, houve uma sessão solene e um coquetel em homenagem ao Paraense, quando várias autoridades discursaram. Em seguida, aconteceu um grande baile. Por volta de onze horas as delegações  do Atlético e do Formiga se retiraram para retornar às suas cidades. Os banguenses, liberados, permaneceram até mais tarde no baile, ou se dirigiram ao bar Elite, indo dormir já pela madrugada, o que deu tempo a Zizinho de reencontrar no mesmo lugar a morena da noite anterior, sob o duro olhar de bronze  do coronel Torquato, que com seu dedo  indicador apontando para o nada, parecia dizer: - que papelão hein, seu Zizinho?

Na segunda-feira de manhã, logo após o café, Mestre Ziza & Cia se dirigiram à cidade de Divinópolis, onde no dia seguinte enfrentariam o Guarani local.

Durante muito tempo o jogo foi objeto de análise e comentários por parte dos torcedores, que relembravam as jogadas de Zizinho; os lances perdidos por Ubaldo, as boas defesas de Sinval Martins, goleiro do Atlético e nosso conterrâneo, nascido que era em São José da Varginha, na época distrito de Pará de Minas. A iluminação da quadra esportiva também foi muito lembrada; o público recorde, a ousadia de Hugo Marinho (um doido, diziam)  em promover o evento.

Na verdade, Zizinho, Bangu e Atlético só deixaram de ser assunto, quando alguns meses depois o presidente Hugo anunciou para breve, a presença do Fluminense F.C, do Rio de Janeiro para uma partida  amistosa contra o Paraense. O contrato garantia a presença de  Castilho, Pinheiro,  Píndaro, Telê, Escurinho e  todas os outros craques tricolores.

Notas do autor

Para escrever este texto fui colecionando informações ao longo dos anos. Sempre aparece um fato novo. A vinda do Bangu, com Zizinho, para enfrentar o Atlético Mineiro em Pará de Minas, só teria alguma coisa parecida, se nos dias de hoje o Atlético, com Ronaldinho Gaúcho,  viesse à cidade  para enfrentar , digamos, o Flamengo, ou o Vasco da Gama. Aquele, foi mesmo o jogo do século em Pará de Minas. Um desses jogos que não acabam nunca, mesmo quase sessenta anos depois. Com o tempo, vira tradição oral passada de pai para filho sucessivamente, por várias gerações.  O impacto foi mesmo enorme.

Naquele dia, o Bangu teve a seguinte formação: Fernando, Joel (Edson) Navarro e Jorge Dias (Nilton dos Santos), Hilton Vacari, Zózimo, Calazans (Xavier) Décio Esteves  (Mário) Zizinho, Lucas (Luiz Carlos) e Nívio. O técnico era Elba de Pádua Lima, o Tim, lendário ex-jogador que também brilhou como técnico. O supervisor era Carlos Nascimento.

Desse grupo, o zagueiro Zózimo seria bicampeão mundial em 1958 e 1962. O goleiro Fernando depois faria grande sucesso no Flamengo. O atacante Décio Esteves também chegaria à seleção brasileira, assim como Hilton Vacari, que disputou  a Copa América, na Bolivia, quando a seleção brasileira foi formada quase que inteiramente pela seleção mineira campeã brasileira de 1963 (quando havia o campeonato brasileiro de seleções estaduais, o mais charmoso torneio da história do nosso futebol). Carlos Nascimento foi também o supervisor da seleção brasileira em 1958 e 1962 e um dos responsáveis fora de campo pelo êxito de nossa seleção nas Copas da Suécia e do Chile. Calazans era irmão de Zózimo e depois passou ao América do Rio, onde atuou por muitos anos ainda. Nívio, começou no Atlético Mineiro e é ainda hoje um dos maiores ídolos do Galo. Foi um dos atletas que mais vezes vestiu o manto alvi-negro.

Seis meses depois do jogo que paralisou Pará de Minas, em 21 de dezembro, Atlético e Bangu voltaram a se enfrentar, desta vez  em  Belo Horizonte. Novo amistoso, desta vez para o time carioca pagar o passe de Ubaldo, comprado ao Atlético. Foi um jogaço, com vitória do Bangu por 3  X  2.  Zizinho marcou um gol e Ubaldo que entrou no lugar dele fez outro.

Sobre Zizinho: “”Quando eu era garoto, procurava imitar dois jogadores: o Dondinho, meu pai, e o Zizinho. Quando comecei a minha carreira no Santos, o Zizinho estava encerrando a dele no São Paulo. E encerrando em grande estilo. Ele foi campeão e considerado o melhor jogador do Campeonato Paulista de 1957. Zizinho era um jogador completo. Atuava na meia, no ataque, marcava bem, era um ótimo cabeceador, driblava como poucos, sabia armar. Além de tudo, não tinha medo de cara feia. Jogava duro quando preciso.” ((Depoimento de Édson Arantes do Nascimento, o Pelé, sobre Zizinho, seu ídolo quando criança).

Tomás Soares da Silva –Zizinho (14-9-1921 / 8-2-2002) defendeu o Flamengo entre 1939 e 1950, quando seu passe  foi vendido ao Bangu a peso de ouro. Pelo Flamengo atuou 329 partidas, marcando 146 gols. Foi tricampeão carioca em 1943/44/45. Divide com Zico a condição de maior ídolo da história do Flamengo. A fama de Zizinho só não foi maior por que sua carreira foi toda no Brasil, tendo atuado na Europa apenas em jogos amistosos do Bangu, na década de 1950. No Bangu, entre 1950 e 1957 marcou 122 gols. É o maior ídolo da história do clube. E reconhecido como maior jogador brasileiro antes de Pelé.

Em 1957 transferiu-se para o São Paulo, cuja camisa vestiu por sessenta vezes, marcando 24 gols. O tricolor paulista que não ganhava o campeonato há mais de doze anos, recuperou a hegemonia com Zizinho em 1957. O Mestre Ziza foi o grande condutor da equipe naquele ano e é reverenciado como um dos grandes ídolos do clube. Zizinho também defendeu por pouco tempo o Audax Italiano (Chile) e o Uberaba (MG). Foi também técnico da seleção brasileira de Novos em 1975 e campeão panamericano no México.

Ao longo dos anos, conversei com muitas pessoas que viveram aqueles dias, entre elas o radialista esportivo Jésus Geraldo de Oliveira, da rádio Santa Cruz, que aos nove anos de idade viu jogar pela primeira vez o seu time do coração, o Atlético. Mas o que ficou deveras gravado na memória de Jésus foi o fato de que naquele dia, também pela primeira vez, ele teria o prazer de saborear  um picolé da Kibon.

Já o ex-presidente da Liga Desportiva de Pará de Minas, Geraldo Assunção e Silva (Dinho Assunção), na época com 10 anos de idade, foi encarregado de distribuir por toda a  cidade os panfletos  de propaganda do jogo. Em troca ganhou um ingresso. Outra preciosa fonte de informação foi Nilton José de Faria, o “Nilton do Lindorifo”, então com 20 anos, titular do ataque do Paraense e que se tornaria um dos maiores jogadores de nosso futebol

Os saudosos amigos Antônio Marinho Mendonça Filho, Humberto “Betão” Gastão de Oliveira  e Juraci “Zizi”  Pereira da Costa, que tinham de 17 para 18 anos em 1955,   falaram muito da agitação daqueles dias  e de outros detalhes como a escapada de Zizinho com a morena. Os três, Betão, Zizi e Antônio Marinho, frequentaram o bar e restaurante Elite, desde a sua fundação em 1953,  até morrerem, em breve seqüência logo no começo deste século, quando o estabelecimento já havia mudado seu nome para o atual “ bar Mineirão” onde  eles eram titulares absolutos de uma mesa,  principalmente aos sábados, e o assunto dominante era sempre alguma história dos tempos bons e românticos de  Pará de Minas.

Foi naquela mesa que eu  ouvi deles sobre o tumulto ocorrido durante o jogo, que só aconteceu porque o torcedor e sócio do Paraense, Justino Aguiar,  chefe de secção na fábrica de tecidos e pessoa muito querida no Pará, grande admirador do futebol de Zizinho, não se conformou com a expulsão de seu ídolo. Justino passou a sugerir aos brados, que o árbitro é que deveria deixar o gramado, pois o público pagara o ingresso para ver o craque e não o juiz. O fato é que Justino conseguiu muitos adeptos à sua idéia de expulsar o árbitro e por pouco a partida não se encerrou ali mesmo.  Os três  ocupantes da mesa famosa, também “ habitués” desde a adolescência,  dos bares da  zona boêmia,  testemunharam de lá, a longa e divertida noite daquele sábado, véspera do jogo.

Em sua residência, na rua João do Neto, o industrial Batista José de Souza, ouviu o jogo pelo rádio, afinal, sua empresa, a Fundição Oriente, é que estava bancando a transmissão da rádio Inconfidência. Quando Zizinho foi expulso e formou-se a confusão no gramado, sô Batista que não era muito ligado às mumunhas do futebol, entendeu que estavam expulsando do estádio um de seus filhos, que justamente era chamado de Zizinho no convívio familiar. Sô Batista quis pegar o velho mas conservado  Citroen 1938 para ir até lá, sendo contido com muito custo pela esposa Dona Margarida e pela filha Glorinha. Só se acalmou mais tarde,  quando viu o filho entrar em casa, são e salvo, quando tudo ficou esclarecido.

O jornalista Emanuel Carneiro, diretor-presidente da Rádio Itatiaia de Belo Horizonte também viu o jogo. Por e-mail ele mesmo contou: “ Eu tinha 12 anos em 1955. Fui ao jogo com meu irmão Januário, lembro-me que o Zizinho foi expulso e que à noite houve uma recepção na casa do Hugo Marinho, que era um cidadão muito importante de Pará de Minas. Eu e Januário dormimos lá e voltamos na segunda-feira, bem cedo,  de ônibus”.

Com sete anos de idade e atleticano, eu não fui ao jogo, pois a família morava em Belo Horizonte. Mas meu pai, o cruzeirense José David Netto,  Negrito, veio de trem. Fã incondicional de Zizinho, não perderia o jogo por nada. Eu cresci ouvindo meu pai falar dessa partida, da expulsão de Zizinho, para ele injusta, da confusão armada pelo seu compadre Justino, da viagem no trem lotado, do corre-corre na pacata cidade..

Meus primos  Pedro, Sílvio e Luiz, filhos de minha tia-avó Ica, lendárias figuras do Paraense,  também forneceram muitas informações. Todos eles já faleceram.

Uma pesquisa nos arquivos do jornal “Estado de Minas” completou as fontes de informação.

E é claro que houve, digamos assim,  alguma licença poética. Mas as datas, pessoas, lugares, eventos mencionados, é tudo verdade.


Fonte: http://www.estamosassim.com.br/o-jogo-que-nunca-acabou-ou-quando-o-melhor-jogador-do-mundo-atuou-na-cidade/ Retirado em 02.06.2014.