O Artista Benjamim

PDF 

                                       Por Ana Maria Campos*

 

  O palhaço Benjamim de Oliveira com a mãe Leandra.


Benjamim de Oliveira, 1º palhaço negro do Brasil, filho dos escravos Malaquias Chaves e Leandra, nasceu na Fazenda dos Guardas, em Patafufo, atual Pará de Minas, em 11 de junho de 1870. 

Do pai dele, Malaquias, sabe-se que  foi adquirido por Roberto Evangelista de Queiroz, em 27 de fevereiro de 1866 na Vila do Pará, Minas e Comarca do Indaiá, compra efetuada de Francisco Rodrigues Chaves, de quem Malaquias adotou o sobrenome “Chaves”. Consta no Livro de Notas do Termo da Vila do Pará, na Escritura Pública de Compra e Venda que fez Francisco Rodrigues Chaves, como outorgante vendedor, a Roberto Evangelista de Queiroz, como outorgado comprador,  de "um escravo de nome Malaquias, crioulo de idade de vinte e um anos pouco mais ou menos, natural do município de Pitangui com todas as qualidades ou vícios pelo preço e quantia de dois contos duzentos e quarenta e cinco mil reis a prazo; por ele outorgante dito me foi mais dito quais de já transfere na pessoa do outorgado comprador toda posse, domínio, direito e ação que no dito escravo tinha e que por sua pessoa e bens se obriga em todo o tempo a fazer esta venda boa e a defender o comprador quando ele o honrar a autoria".  Comprador e vendedor eram moradores na dita Vila do Pará. Roberto Evangelista de Queiroz, o comprador de Malaquias, era proprietário e senhor da Fazenda dos Guardas.

Beijo era o apelido de Benjamim. Em 1882 fugiu com o Circo Sotero, que se apresentara na pequena localidade. Aprendeu acrobacias com Severino de Oliveira, de quem se supõe tenha adotado o sobrenome, como consta no livro da pesquisadora Ermínia Silva, abaixo mencionado.

Com espírito determinado venceu os percalços que se apresentaram, tornando-se o rei dos palhaços do Brasil. Possuidor de múltiplos talentos, Benjamim levou o teatro para o circo, tornando-se também ator, autor e produtor de peças teatrais, além de cantor e compositor, chegando a gravar seis discos. Em 1908, foi filmado no Circo Spinelli representando Peri, na peça O Guarani, pela Photo-Cinematographica Brasileira, outra das muitas informações encontradas no livro da historiadora Ermínia.

Já consagrado e famoso, Benjamim de Oliveira apresentou-se em show artístico em seu berço natal, Pará de Minas. A presença dele na terra em que nasceu foi mencionada por José Moreira Xavier (Zezinho Xavier), cuja filha Angela Xavier registrou no texto sobre os circos em Pará de Minas, já postado neste site. Tal informação também foi confirmada pelo sr. Geraldo Magela Fonseca, entrevistado por Ana Maria Campos em 14.06.2010, para o arquivo Muspam. Magela Fonseca afirmou ter assistido ao show de Benjamim de Oliveira no Ideal Cinema, ocasião em que o artista também cantou e tocou violão. Sobre a época em que ocorreu o espetáculo, Magela não soube datá-la com precisão, mas afirmou ter assistido o show de Benjamim de Oliveira quando era um rapazinho de uns 15 anos de idade. Ora, se Fonseca possui 94 anos na data do depoimento dele para o Museu da cidade, o ano de seu nascimento é 1916.  Deduz-se, portanto, que a apresentação de Benjamim de Oliveira em Pará de Minas ocorreu no início da década de 1930. Estes relatos orais são as referências encontradas, até o momento, sobre a presença dele na terra em que nasceu, mas nossa busca continua.

Desconhecemos se há parentes dele na região e, nem mesmo o neto dele, Juyraçaba Santos Cardoso, soube informar ao ser indagado por nós, em maio último, quando da primeira visita dele a Pará de Minas. Cardoso relatou-nos que Benjamim de Oliveira levou a mãe e os irmãos para o Rio de Janeiro, mas não soube em que época. Foi nessa localidade, então capital do país, que Benjamim de Oliveira faleceu em 30 de maio de 1954.

Sobre o falecimento de Benjamim, o jornal O Estado de São Paulo, edição do dia 01.06.1954, página 9, noticiou o seguinte: "Falecimento de artista circense. Rio, 31 ('Estado' -- Pelo telefone) -- Faleceu ontem nesta capital, o velho artista circense Benjamin de Oliveira. Com 85 anos de idade, gastou 60 em atividades artísticas. Era natural de Pará de Minas e iniciou sua vida de palhaço em Várzea do Campo e Pindamonhangaba, aos 20 anos. Seu sepultamento realizou-se hoje, no Cemitério de São Francisco Xavier." O jornal A Noite, edição de 31.05.1954, págs. 3 e 8, com o título "Morreu o palhaço Benjamin de Oliveira" também veicula a notícia do falecimento do artista Benjamim em 30 de maio de 1954. As informações da data correta do falecimento do famoso palhaço foram gentilmente repassadas a mim por Alaércio Antônio Delfino, juntamente com as imagens digitais dos jornais.

Em justa homenagem, o nome dele está perpetuado em Pará de Minas em uma das vias públicas do Bairro Nossa Senhora das Graças, pela Lei Municipal Nº 440, de 24 de abril de 1958: Rua Artista Benjamim de Oliveira. Outra homenagem a ele ocorreu em 22 de março de 2013 com a inauguração de uma escultura dele em bronze, obra de Alexandre Magno Martins Pinto, no Parque Bariri em área que, posteriormente, foi designada Praça Benjamim de Oliveira, por força da Lei Nº 5.470, de 05 de abril do mesmo ano.

A importância de Benjamim de Oliveira no cenário artístico brasileiro foi resgatada em 2007 pela historiadora paulista Ermínia Silva, ao lançar o livro Circo-Teatro: Benjamim de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil (Editora Altana,SP). A magnífica obra foi resultado da tese de doutorado da autora, atraindo a atenção de especialistas e, ainda, repercutindo positivamente na alta estima dos conterrâneos de Benjamim, motivando estudos e projetos escolares sobre o artista. A escritora Terezinha Pereira incentivada pelo  livro de Ermínia Silva, tornou-se uma grande divulgadora de Benjamim de Oliveira por meio de textos produzidos por ela, publicados na mídia local e na web. Não podemos deixar de mencionar que anos antes havia acontecido na cidade, por iniciativa do agente cultural Nilton Araújo, uma louvável manifestação da arte circense enfocando o palhaço Benjamim. Se a geração jovem não tinha conhecimento da importância de Benjamim de Oliveira na historiografia das artes brasileiras, outra eficiente divulgação do nome dele em Pará de Minas aconteceu em 2009, quando a escola de samba do Rio de Janeiro, a São Clemente, transformou-o em samba-enredo, provocando significativa repercussão na comunidade onde ele nasceu,  contribuindo para a propagação da extensão e valor do trabalho dele. Nesse mesmo ano, a Secretaria Municipal de Cultura de Pará de Minas criou o Festival de Palhaços ParaBenjamim e, quem vai relatar sobre essa promoção, logo a seguir, é José Roberto Pereira, diretor de cultura. Confiram. 

Vivenciamos em 2019 a expectativa da nova homenagem ao artista de Pará de Minas, prestada por uma grande e bem conceituada Escola de Samba do Rio de Janeiro, a Salgueiro, que o escolheu como tema do desfile do Carnaval de 2020. Benjamim de Oliveira continua vivo na memória da arte e cultura do Brasil! Viva Benjamim!

                                                                                                                           


* Ana Maria de Oliveira Campos é pesquisadora da história de Pará de Minas, diretora do Museu Histórico de Pará de Minas.