De que morriam nossos antepassados?

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De que morriam nossos antepassados?

Essa foi a pergunta que se fez o ex-aluno do curso de história da FAPAM Gilson Magela antes de se debruçar sobre a documentação histórica da região de Pará de Minas, produzida entre 1890 e 1900. Analisando os Livros de Óbitos da Cidade do Pará, da Freguesia de Santo Antônio do São João Acima (hoje, Igaratinga) e da Freguesia de Santana do São João Acima (hoje, Itaúna), Gilson Magela desvendou esse mistério, acrescentando um elemento novo à nossa história social, tão pouco pesquisada.


A história de Pará de Minas e região carece de estudos sobre a vida cotidiana do povo comum, a famosa “história da gente pouco importante”, como a classificam alguns historiadores. Acreditamos que é através dessa história que realmente podemos sentir o pulso do nosso passado, pois, por mais importantes que sejam os estudos sobre “grandes” políticos, “grandes” famílias e “grandes” entidades, a “história de baixo para cima”, do povo, de suas alegrias e infortúnios, é a que, de fato, revela a verdadeira face da nossa realidade social. Em sua monografia, Gilson Magela se preocupou em analisar alguns aspectos da saúde pública na região de Pará de Minas no final do século XIX, produzindo um texto exemplar de história social “vista de baixo”. Com relação às causas de mortes na nossa região, entre 1890 e 1900, o autor identificou várias: “parto difícil; afogamento; amarelão; asma; bronquite; congestão; coqueluche; sífilis; diarreia; estupor; febre tifóide; feridas crônicas; hydropsia; incômodo do coração; incômodo do estômago; inflamação do fígado; influenza; mal de umbigo; mordedura de cobra; morphea ou mal de Lázaro (Lepra); paralisia; pneumonia; queimaduras; reumatismo; tuberculose; sarnas arrecolhidas; suspensão das regras (regras= menstruação); varíola; vermes; xistose; etc.” É interessante notar que muitas mortes parecem estar diretamente relacionadas ao precário controle sanitário e higiênico da época e também ao atendimento médico deficitário entre as camadas populares. Em Santo Antônio do São João Acima, por exemplo, Gilson Magela identificou relatos de atendimento médico em apenas 19 registros de óbitos, o que corresponde a apenas 6,71% do total. Doenças relacionadas a contaminação da água aparecem com frequência nas três localidades: muitas crianças e adultos da região foram vitimados por diarreias, vermes e lombrigas, e foi registrado um caso de morte por xistose na Cidade do Pará na década estudada. Mortes de mulheres e crianças durante ou logo após o parto também aparecem com muita frequência. Em um registro de óbito analisado pelo autor, relata-se o depoimento de uma parteira justificando a morte de uma criança, enforcada pelo cordão umbilical na hora do parto. Em Itaúna, por exemplo, 138 crianças morreram durante o parto ou horas depois entre os anos de 1890 e 1900, correspondendo a uma cifra de 12,8% do total de óbitos do período, naquela região.


Publicado originalmente, em 3 de janeiro de 2005, pelo Grupo Mesopotâmia Mineira em sua coluna Resgate Histórico do Jornal Diário de Pará de Minas. O Grupo Mesopotâmia Mineira, na época da publicação, era composto por Geraldo F. Fonte Boa, Eliana Medina, Flávio Marcus Silva, Ana Maria Campos Varela, Alaércio Delfino, Alfredo Couto, Damary de Carvalho, Geraldo Campos, Geraldo Rodrigues, Hernany Lisardo, Washington Moreira.


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Foto: Praça Torquato de Almeida, 1928.


Postado em: 28/01/2021.