Sobre o fim de uma era e uma sessão de devaneios [Memórias do Pará]

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                                                                           Por Luiz Viana David

A partir de amanhã, 1º de julho de 2016, estará proibida em todo o território nacional a comercialização de lâmpadas incandescentes. A minha geração conviveu por décadas com elas e, só quem já morou em casa desprovida de energia elétrica, sabe como aquela lampadazinha foi importante em suas vidas.

Incluo-me nesse universo de pessoas, não há como esquecer da época, início da década de 1950, quando minha família morou no bairro do Barreiro, em Belo Horizonte, que não tinha energia em todas as ruas. Deve ter sido um impacto na vida de meus pais e de meus irmãos mais velhos, nascidos no Pará de Minas, praticamente na rua Direita e, de repente, moradores naquele breu que eram as noites do Barreiro. Eu, com meus quatro anos, só lembro das lamparinas a querosene e das narinas úmidas e pretas todas as manhãs. Deu para gravar na memória, mas dois ou três meses depois, nos mudamos para a Vila Oeste, (atualmente bairro Coração Eucarístico), uma casa bem simpática e a rua Urano dotada de luz e de calçamento.

Alguns anos depois a família voltou a viver em Pará de Minas, início dos anos 1960, eu já entrando na adolescência achava muito curioso o sistema de iluminação pública de Pará de Minas, numa fase quando a energia elétrica era produzida por pequenas usinas da região. A CEMIG só chegou ao Pará de Minas em 1966. A cidade tinha iluminação pública desde o ano de 1908 e foi uma das primeiras cidades do Brasil a contar com o benefício, com a energia sendo trazida da usina do Jatobá (ribeirão dos Paivas), depois da usina de Florestal. Nos 1950 com a entrada em funcionamento da usina do Carioca (rio São João), a partir daí havia fartura de energia, tanto que o município abriu mão da usina de Florestal. O sistema era alternado, “Carioca” funcionava de seis da manhã às dez da noite, quando era substituída pela usina do Jatobá. Não havia botões a serem apertados para desligar uma e ligar outra usina. Era um trabalho braçal. Funcionários da Cia. Industrial Paraense, a concessionária do serviço, pedalando bicicletas, levando nos ombros uma comprida vara de bambu, provida de um gancho numa das extremidades, percorriam toda a cidade, onde ficavam os transformadores no alto dos postes, desligando Carioca e ligando Jatobá às dez da noite e de manhã repetiam a operação ao inverso, ligando Carioca e desligando Jatobá. A usina do Carioca mais potente, sustentava o funcionamento do crescente parque industrial da cidade. Jatobá, mais fraquinha, garantia a energia entre às dez da noite até às seis da manhã. As lâmpadas dos postes eram incandescentes, talvez de sessenta velas, mas quando saia Carioca e entrava Jatobá, a queda da luminosidade era brutal. De um brilho, digamos assim, feérico (mas nem tanto), a lampadazinha se transformava praticamente num pequeno ponto luminoso, sob uma espécie de prato esmaltado que a protegia das chuvas e direcionava a luminosidade para baixo. Curiosamente, quando havia sessão dupla nos dois cinemas, a troca de usinas era adiada por duas horas, considerando que Jatobá não suportava dois projetores funcionando ao mesmo tempo. Mesmo nas residências, onde raras tinham geladeira e televisão nem pensar, se a dona de casa decidisse passar as roupas depois das dez da noite, só se fosse com ferro a brasa, pois não dava para manter lâmpadas e ferro elétrico. Os chuveiros tinham água quente produzida pelo sistema conhecido por serpentina, aquecida nos fogões a lenha. A vida era difícil e o fogão a gás ainda demoraria alguns anos para chegar na cidade.

Quando foi inaugurada a iluminação pública em Pará de Minas a noticia da novidade percorreu todo o sertão do centro-oeste mineiro, pessoas vinham de longe para conhecer o “milagre”. Foi nessa época que nossos vizinhos de Itaúna passaram a ser conhecidos por “ciriricas”, aqueles insetos que também atendem pelo nome de mariposas, que têm o hábito de voar em volta de lâmpadas acesas. A tradição oral conta que ciriricas, ou melhor, itaunenses, vinham em grupos para ver de perto o brilho das lampadazinhas incandescentes. A título de curiosidade vale contar que Itaúna teve energia elétrica dez anos antes de Pará de Minas, mas por lá a prioridade sempre foi a indústria têxtil. Mesmo sendo a usina dos Britos bem maior que todas as usinas do Pará, só alguns anos depois que a iluminação pública e residencial chegou por lá.

Como o assunto desviou de lâmpadas incandescentes para usinas hidrelétricas, devo contar o caso de um primo distante de minha mãe, de nome João, da família Lino de Melo, lá da Matinha, hoje florescente bairro de Pará de Minas. Pois então, no final dos anos 1950, o citado João Lino de Melo voltou ao povoado, aposentado, após trinta anos de serviços prestados ao Departamento de Bondes e Ônibus de Belo Horizonte, onde exerceu a profissão de motorneiro de bondes. João foi para capital solteiro e voltou à terrinha sem se casar. Na volta, construiu para sua residência uma grande casa no terreno que lhe tocou na herança dos pais. E saiu à caça de uma noiva na cidade. João não era exatamente um apolo, fisicamente falando, mas tinha outros atributos até mais interessantes, como uma bela casa, uma aposentadoria bem razoável e uns cobres no banco. O problema era a casa que não tinha luz, fator sempre alegado pelas pretendidas para dizer um não ao esperançoso ex-motorneiro do DBO. Na terceira recusa, o bom João decidiu que resolveria para já o problema da falta de luz na casa. Pegou o trem que parava por um minuto na minúscula estação da Matinha, bem perto da casa e se mandou para Belo Horizonte, onde adquiriu um pequeno gerador, e todo o material necessário numa iluminação domiciliar. Ele mesmo construiu um pequeno desvio no ribeirão Paciência, onde instalou a engenhoca. Três pequenos postes foram suficientes para compor a rede de transmissão até a casa. Esticar fios, boquilhas e tomadas foi o de menos. Em poucas dias tudo estava pronto. Praticamente todo o povo da Matinha foi ver de perto a primeira casa iluminada do lugar. Metódico, o motorneiro jamais deixava acesas as lâmpadas incandescentes de cômodos onde ele não estava, e às dez noite desligava o gerador. Comprou uma pequena geladeira; televisão não ia adiantar muito, pois mesmo na cidade os poucos aparelhos que haviam, mais chuviscavam do que mostravam imagens. E o rádio era a pilha. Mas comprou uma vitrola. Infelizmente nada disso contribuiu para que conseguisse arrumar uma “patroa” como ele mesmo se referia às prováveis candidatas, escolhidas a dedo, pois “um homem da família Melo não pode se casar com qualquer uma”. Morreu solteirinho da silva poucos anos depois. A casa ficou abandonada por muitos anos, o gerador não se tem noticia dele. Muitos anos depois finalmente a energia elétrica fornecida pela CEMIG chegou ao povoado, mas não era mais novidade, o casadoiro João motorneiro tinha sido o pioneiro na eletrificação do povoado.

Acendendo ou melhor, voltando às lâmpadas incandescentes, elas não vão deixar saudade, pois consomem mais energia e clareiam menos que as suas sucessoras a vapor de mercúrio e outros vapores e a suprema novidade que é a lâmpada LED, cuja luminosidade é assombrosa e gasta o mínimo de energia.

 

Fonte: http://www.estamosassim.com.br/sobre-o-fim-de-uma-era-e-uma-sessao-de-devaneios/ acesso em 06.07.2016.

 

Postado em 07.07.2016.