Paraense E.C. o inacreditável voo do pato. Ou, o dia em que um Convair pousou no aeroporto de Pará de Minas [Memórias do futebol de Pará de Minas]

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                                                                                                                                                                                                       Luiz Viana David
   
Em três de julho de 1957 a cidade de Montes Claros comemorou festivamente o seu centenário de emancipação política/administrativa, embora ainda hoje, entre os próprios montes-clarenses existam muitas controvérsias sobre a efeméride, com uma corrente defendendo a tese de que a emancipação tenha ocorrido muitos anos antes. Mas o fato é que os festejos comemorativos do centenário (ou não) aconteceram com sucesso absoluto, com a presença de políticos importantes, até mesmo Juscelino Kubitschek, presidente da república, esteve por lá. Famosos cantores e cantoras de rádio, numa época em que a televisão engatinhava, também foram. O parque de exposições, um dos primeiros do interior de Minas, foi inaugurado. O povo de MOC vibrava com o progresso a olhos vistos de sua urbe, que caminhava para se tornar uma espécie de capital do norte de Minas, uma das maiores e principais cidades do estado. Neste clima de tanta empolgação, o futebol, uma das paixões do povo montes-clarense, não ficaria de forma alguma fora dos eventos. Foi nesse contexto que os organizadores da festança procuraram um grande time mineiro para abrilhantar os eventos comemorativos do centenário. Um time que enfrentasse os dois poderosos esquadrões locais, Ateneu e Casimiro de Abreu, as duas principais forças do esporte bretão, como se dizia, na região norte-mineira. Naquela época Casimiro e Ateneu ainda não tinham se aventurado no futebol profissional, o que apenas aconteceria poucos anos depois. Deste modo, os organizadores preferiram convidar um time também amador para medir forças com os gigantes locais, e a escolha acabou recaindo sobre o Paraense E.C. que naquela década era mesmo o mais famoso esquadrão amador do interior de Minas Gerais.

A partir da inauguração do moderno estádio “Ovídio de Abreu” em 1951, que o Paraense se colocava na vanguarda do futebol mineiro. Os torcedores, não apenas do Paraense, mas também da região, não compreendiam o porque do clube ainda não participar do campeonato de profissionais da Federação Mineira, à qual já estava filiado. Nos últimos anos o PEC havia enfrentado quase todos os times que disputavam o campeonato mineiro, incluindo as equipes da capital, obtendo resultados bastantes satisfatórios. Apesar de formado basicamente por jogadores da própria cidade, o time era muito respeitado, com vários de seus craques sendo cobiçados pelos grandes clubes de Belo Horizonte. Como o futebol profissional pagava mal, quando pagava, nenhum deles se interessou por uma transferência. E havia o fator estádio. Inaugurado em 1951, o “Ovídio de Abreu” era considerado o melhor do interior de Minas, com uma cancha tão boa, que as equipes visitantes se espantavam com o verdor da grama, onde a bola rolava macia.

Quando chegou o convite para jogar duas partidas em três dias em Montes Claros, o diretor Hugo Marinho bem no seu estilo intrépido logo respondeu que sim, sem pensar duas vezes. Resposta que foi confirmada por telegrama alguns dias depois. Só então a diretoria começou a pensar na logística da viagem, afinal de contas Montes Claros está a quinhentos quilômetros de Pará de Minas. Por via rodoviária, a viagem costumava durar no mínimo quinze horas, por empoeirada e esburacada estrada de terra. Pela estrada de ferro a viagem demorava ainda mais e os atrasos freqüentes tinham de ser considerados. Não seria fácil chegar até o destino, mas o compromisso estava firmado e o Paraense iria cumpri-lo. Por que não viajar de avião?

De avião? O Paraense viajar quinhentos quilômetros de avião? Como assim? Se nem os grandes times brasileiros costumavam usar tal meio de transporte. No Torneio Rio-São Paulo, o mais importante torneio inter-clubes do Brasil, as equipes viajavam de trem na maioria dos vezes, trem noturno que ligava as duas maiores cidades do país. Uma viagem por via aérea estava fora do alcance da maioria da população brasileira. Atlético, América e Cruzeiro quando saiam pelo interior de Minas costumavam viajar de trem. Até mesmo para amistosos no Rio ou em São Paulo os grandes clubes de Minas utilizavam a rede ferroviária. Raras vezes um desses times viajava por via aérea.

Hugo Marinho tinha alguma coisa de louco ou de visionário. A torcida do Paraense mesmo acostumada com suas atitudes mais ousadas, acreditava que uma viagem de avião era loucura demais. O clube não era rico, a diretoria era formada em sua maioria por abnegados, tão amadores quanto os atletas, a cota oferecida pelos anfitriões mal cobria as despesas com ônibus (ou trem) e o lanche nas paradas. Talvez fosse melhor o Paraense desistir da viagem enquanto havia tempo suficiente para que os organizadores arranjassem outro adversário. Ainda mais que Hugo Marinho estava há dois dias em Belo Horizonte sem dar noticias; e a viagem prevista para daí a seis dias. O fim de semana foi de agonia para a torcida do Paraense. Os diretores quietos, aguardando qualquer sinal de Hugo. Enquanto isso, a torcida do recém fundado Rio Branco, clube que se apresentava como rival local do PEC, tirava sarro, sugerindo que antecipassem a viagem e seguissem de carro de boi, ou a cavalo.

No domingo a noite o desaparecido diretor retornou á cidade, mas não deu as caras. Na segunda-feira bem cedo Hugo Marinho reuniu a diretoria no bar do Ary, no centro da cidade,  e anunciou a viagem para as dez horas da manhã de quinta-feira. -De avião, anunciou ele, determinando ao técnico Bruno Marinho que intensificasse os treinamentos, pois o time não podia fazer feio em partidas tão importantes. Enquanto os boateiros se encarregavam de levar a noticia da viagem de avião aos quatro cantos da cidade ainda pequena, Hugo explicous aos demais diretores e contou-lhes o tamanho de sua proeza. Havia contratado junto à Real Aerovias, um avião Convair, de cinquenta lugares, para transportar o Paraense; o avião viria a Pará de Minas para o embarque da delegação que retornaria na segunda-feira seguinte, com chegada prevista para as duas da tarde. Para pagar o aluguel do avião, o diretor planejou vender vinte das cinquenta poltronas para torcedores do clube ou outras pessoas que talvez tivessem negócios a tratar na metrópole norte-mineira. A renda auferida com a venda de vinte lugares, mais a cota oferecida pela prefeitura de Montes Claros seriam suficientes para pagar o avião e talvez até ocorresse uma sobra para os cofres do clube, o que de fato acabou acontecendo.

As poltronas extras foram facilmente vendidas. Naquele tempo, era intenso o comércio entre as duas cidades. Montes Claros era um grande polo produtor de algodão e Pará de Minas um grande consumidor, com suas inúmeras fábricas de tecidos. Havia ainda a Usina Inconfidência, que beneficiava algodão, de cujas sementes extraía o óleo. A Usina Inconfidência, que o povo paraense chamava de “fábrica de óleo” pertencia ao estado e tinha um quadro de mais de duzentos trabalhadores, o que fazia dela um enorme cabide de empregos. Em Montes Claros havia uma congênere, também estatal, da nossa fábrica de óleo, só que dez vezes maior, de forma que as relações entre as duas eram intensas. A metade dos lugares disponíveis no avião foi negociada com vendedores de óleo e tecidos, compradores de algodão, outros comerciantes, mas ainda sobraram dez poltronas. Foi quando Hugo Marinho procurou um amigo, viciado em jogo de cartas e o convenceu a seguir com a “embaixada” para conhecer as famosas mesas de pôquer de MOC. A ideia foi tão boa que logo outros carteadores se animaram com a aventura e pagaram adiantado pela passagem. Testemunhas garantiram que mal chegaram ao hotel em Montes Claros onde deixaram suas bagagens, os adeptos do jogo de baralho tomaram o rumo dos cassino locais e só foram vistos novamente quatro dias depois, já no avião, de volta ao Pará de Minas.

Na manhã de quinta-feira o clima em Pará de Minas era de enorme expectativa, boa parte da população de propalados quinze mil habitantes, marchou rumo ao distante campo de aviação, cuja pista de terra atendia quase que apenas o pequeno teco-teco do aeroclube local, cujo hangar não passava de singelo barracão. O frisson entre as centenas de curiosos atingiu o clímax quando o reluzente Convair sobrevoou a tosca pista, preparando-se para aterrizar. Nem mesmo a poeira afastou das imediações a embasbacada platéia. Um dos presentes, na época com doze anos de idade, depois confessaria que se sentiu como os índios que primeiro viram as caravelas de Pedro Álvares Cabral. O efeito da visão talvez se compare ao que sentirá um terráqueo que veja um óvni pousar no seu quintal em pleno século 21.
Quando a enorme (para a época) aeronave estacionou, a multidão correu até ela, tocando com as mãos a reluzente fuselagem. Para a maioria não bastava ver, era preciso tocar, sentir o calor dos pneus, dar pulinhos na vã tentativa de ver pelas janelinhas o interior daquele monstro.

Os viajantes, ansiosos, já estavam todos na pequena cobertura de alvenaria que fazia as vezes de salão de embarque, quando o Convair pousou. O único atrasado foi Levi Silva, o Levi do sô Chico, grande jogador de sinuca e de baralho, que trabalhava na cooperativa dos produtores de leite. Todos envergando o seu melhor terno, indumentária então exigida para quem viajava de avião. Poucos daqueles passageiros já tinham estado no interior de uma aeronave e as brincadeiras foram inevitáveis, o que contribuiu para que muitos substituíssem o medo de voar por uma falsa euforia.Foram quase três horas de viagem, até que o avião chegasse a Montes Claros.

O time levou dois reforços, ou enxertos, como a torcida costumava dizer: o atacante Ferreira, campeão mineiro em 1951 pelo Villa Nova, que costumava jogar pelo Paraense em partidas consideradas mais difíceis; e o jovem goleiro Mussula, então com dezenove anos, que pertencia ao time juvenil (atualmente sub-20) do Cruzeiro. Mussula depois se consagraria como goleiro do Cruzeiro e pela longa passagem pela meta do Atlético, onde depois foi supervisor e auxiliar-técnico, assumindo as funções nas eventualidades.

Tecnicamente a excursão do Paraense a Montes Claros foi um sucesso. Na noite de sexta-feira o time enfrentou e venceu o Casimiro de Abreu, por um a zero. Na tarde do domingo, o resultado foi um empate por um gol diante do Ateneu. O atacante Nilton Pintado marcou os dois gols do PEC na excursão.

Nos dois jogos o Paraense formou com: Mussula, Barrão e Hélio, Luiz da Ica, Wilsinho e Silvio – Geraldo Casinha, Nilton, Coteco, Ferreira e Rivalino.
No banco de reservas figuraram: Divino, Negrito, Zé da Uca, Wilson Capoeira, Tozinho, Miguel, Pascoalito e Mourão(que também era atleta juvenil do Cruzeiro).

A Comissão Técnica: Presidente Hugo Marinho; Técnico Tião do Cinema; auxiliar técnico Antonio Tatu; Médico dr. Heleno Leitão; roupeiro Dico Buru.

Curiosidades: O Convair talvez seja ainda a maior aeronave a pousar na pista do aeroporto de Pará de Minas, que em 2016 é um dos mais movimentados de Minas, por conta principalmente de suas oficinas e da Escola de Formação de Pilotos, reconhecida como uma das melhores do país.

Este provavelmente foi o primeiro voo “charter” de um time de futebol de Minas Gerais, provavelmente até mesmo do futebol brasileiro. De times amadores certamente continua sendo o único voo deste tipo.

O técnico do time, Bruno Marinho, também delegado de policia, temido pelos poucos malfeitores da região e respeitado pelo seus pupilos, não conseguiu superar o seu medo por aviões e foi substituído pelo auxilar, Sebastião Mendes, o Tião do cinema.

Houve uma época que o mascote do Paraense E.C. foi um pato estilizado; daí o título da matéria.

Entre os passageiros não-atletas, estavam, entre outros: o ex-jogador do PEC, Patesco; os diretores Roque Mendonça e João Meireles, os torcedores João Theodoro, Hélio Duarte (da Casa de Amostras), Ade Idelfonso, Juvercino Eugênio e Levi Silva.

Para recuperar a memória desta extraordinária excursão do Paraense, entrevistei os atletas Nilton Pintado (Nilton José de Faria); Miguelzinho (Miguel Arcanjo); Geraldo Casinha (Geraldo Cecílio Almeida) e Mussula (Luiz Luchesi).


Postado em 07.01.2015