O Boi Marmelo [Memória de Pará de Minas]

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                                         Luiz Viana David


No ano de 2005, a Rede Globo de Televisão levou ao ar a novela “América”, cuja história teve locações no interior do Brasil e dos Estados Unidos. No folhetim televisivo foi mostrado entre outras tramas o universo dos rodeios e dos peões, desse evento que muita gente considera um esporte; e outro tanto acha que é coisa absurda nesses tempos quando impera o politicamente correto. Para esse segundo grupo, a utilização de animais em espetáculos violentos devia ser proibida definitivamente. No folhetim, um touro de nome “Bandido” acabou roubando a cena e dividiu os holofotes com os atores da emissora. O animal antes de estrear na televisão tinha conquistado fama nos grandes rodeios da cidade de Barretos, cidade ao norte do estado de São Paulo. O touro Bandido morreria de morte natural, já aposentado, no dia quatro de janeiro de 2009.

Noutras épocas, eram bastantes populares no interior do Brasil, os circos de touradas. Não tinham o charme nem as custosas produções que têm no inicio deste século os rodeios, cujo modelo foi importado dos Estados Unidos da América, com suas enormes arenas, capazes de acomodar com conforto milhares de aficionados. Os circos de touradas eram geralmente pobres, decadentes e mambembeavam de uma cidade a outra, com seus toureiros de araque, embora corajosos. Em Pará de Minas o povo, independentemente da escala social, gostava demais de um circo de touradas. Com suas arquibancadas circulares em volta da arena, onde cabiam talvez mil pessoas, se tanto, nem todos eles eram cobertos. Na maioria dos circos, lona mesmo só em volta das arquibancadas, tapando a visão de quem era muito pão-duro ou não tinha a merreca para pagar o ingresso. A platéia vibrava quando um boi (ninguém falava touro) derrubava o toureiro (ninguém falava peão), pois apesar de quase sempre perder a parada, os bois tinham a favor toda a platéia presente. E não se competia para saber qual toureiro permanecia mais tempo montado no bicho. O toureiro tinha de pegar o touro à unha, literalmente, contando apenas com o uso da capa. Era tourada mesmo, à moda caipira.

Um boi, de nome Marmelo, ficou tão famoso em Pará de Minas, que muitos anos depois de morto de morte natural, era sempre lembrado nos circos que frequentei na minha adolescência e juventude, nos idos das décadas de 1960/1970, antes que sumissem de vez, levando junto toda a tradição, bois e toureiros. Nessa época, quando os bois não mostravam a braveza que o público esperava, as pessoas mais velhas costumavam se lamuriar dizendo: – boi era o Marmelo.

Marmelo teve fama regional. Foi, em escala muito menor obviamente, uma espécie de boi Bandido do centro-oeste mineiro dos anos 1930/1940. Uma celebridade. Se a saga de Marmelo não rendeu uma novela, pelo menos mereceu quase um capitulo inteiro do livro “Azurita conta a sua história”, escrito pelo médico oftalmologista Marcelo Lopes Costa, que se ligou àquele distrito mateus-lemense em 1970. Através do velho e querido amigo comum Hugo Flávio Marinho, ganhei de doutor Marcelo um exemplar da obra e a autorização para transcrever o capítulo com a história do lendário boi Marmelo. O dono do animal, o fazendeiro José de Sousa, cujas terras ficavam no distrito de Soledade de Minas (depois Azurita).

(…) Manoel Antonio de Souza faleceu aos oitenta e cinco anos, em 4 de julho de 1955. A sede da Fazenda Sesmaria ficou para o filho primogênito José de Souza, muito ligado ao pai de quem era o braço direito, que lhe entregou a propriedade ainda em vida. Deu continuidade às atividades da fazenda e ainda explorou por longo tempo uma generosa mina de cristal ali existente, da qual sairam peças de dimensão admirável(…).  Zé de Souza tinha duas paixões na vida: a dança e o circo de touradas. Na dança era mestre em tango, do qual executava com perfeição os passos aprendidos em catálogos da época, vindos diretamente de Buenos Aires. Quanto ao circo de touradas, possuía touros bravios que eram levados a várias cidades, onde se exibiam. Alucinado pelo espetáculo, não media esforços para adquirir animais que viessem enriquecer o seu plantel. Vários bois de sua propriedade ficaram famosos, como Bordado, Pichola, Gigante, Rolete, D’Oeste, Figurão e muitos outros. Um deles, porém, foi legendário e seu nome ecoou por todos os rincões: o boi Marmelo.

Marmelo foi adquirido no final dos anos 30, pelo Carlito da Matinha, conhecido comerciante de gado na região, na fazenda de Júlio Diogo, famoso criador de gado caracu em Pompéu. Na realidade, Marmelo era um mestiço que crescera demais e tinha uma particularidade importantíssima no mister que exerceria a partir de então: chifres muito grandes e desalinhados, sendo esquerdo significativamente mais baixo do que o direito. Um dia Marmelo foi levado por Carlito a um circo de touradas em Pará de Minas. Aquela tarde tinha sido infeliz, pois nenhum dos bois soltos na arena mostrara grande disposição para investir contra os toureiros. Quando foi solto o último touro programado para o espetáculo e a apatia se repetiu, o público começou a vaiar e a exigir que soltasse um deles que havia ficado impassível no brete. Era Marmelo, que ali fora levado apenas como madrinha dos bois bravios, pois, dócil e obediente, facilitava a condução dos demais que o acompanhavam a caminho do circo. Como a platéia insistisse, Carlito soltou Marmelo na arena. O boi comportou-se como se tivesse sido tocado por uma varinha de condão: abaixou a cabeça, começou a soprar o chão com as ventas, cavacou a areia com as patas e partiu incontinenti para cima dos toureiros, expulsando um a um do picadeiro, sob aplausos delirantes da platéia. Terminado o espetáculo, Zé de Souza, que estava presente, procurou Carlito na intenção de comprar o boi. Carlito se aproveitou do interesse incontrolável de Zé de Souza e pediu um preço exorbitante. A paixão deste falou mais alto e o negócio foi fechado. Marmelo foi levado para a Fazenda Sesmaria e confirmou seu temperamento curioso: extremamente dócil com o pessoal da fazenda, especialmente com Zezé, filho de Zé de Souza, que cuidava dele, e extremamente agressivo quando entrava na arena. Marmelo foi levado de circo em circo e, aos poucos, foi ficando mais treinado, até se tornar completamente invencível. Geralmente, os toureiros mostram a capa defronte das pernas para atrair o touro. Quando o bicho se aproxima, a capa é desviada lateralmente e o touro tenta cravar nela os chifres, passando ao lado do toureiro. Marmelo aprendeu uma maldade: olhava fixo para os pés do toureiro e, quando a capa era desviada para o lado ele não a acompanhava e atingia o toureiro pelos pés, arremessando-o a longa distância. A grande maioria dos toureiros desistia nessa hora e corria a subir na cerca do picadeiro.
Naquela época, havia uma trova muito cantada que dizia:

Marmelo é fruta gostosa,
que dá na ponta da vara;
mulher que chora por homem,
não tem vergonha na cara.

Quando marmelo punha o toureiro para correr, a platéia cantava uma paródia da trova:

Marmelo é fruta gostosa,
que dá na ponta da vara;
toureiro que sobe na cerca,
não tem vergonha na cara.

A fama de Marmelo extrapolou os limites regionais e correu por todo o estado. Era levado a circos em várias cidades, de trem ou caminhão, e sua presença era anunciada com antecedência, o que fazia esgotar os ingressos dos espetáculos. Um dos poucos toureiros que conseguiram se sobrepor a Marmelo foi Canguru, que ostentava tal alcunha por ter a capacidade de dar saltos extraordinários, com os quais escapava do touro. Entretanto, ‘um dia é da caça, o outro do caçador’, diz o velho ditado. Marmelo acabou ferindo-o nas costelas e há quem diga que veio a falecer tempos depois em virtude disso.

Marmelo foi cantado não só em verso, mas também em prosa. O escritor itaunense Péricles Gomide Jr. , de pseudônimo Pancrácio Fidélis, dedicou ao boi uma crônica do seu livro “Crônicas e narrativas de Pancrácio Fidélis”. Quando morreu, Marmelo teve enterro solene, com gente chorando e tudo, em cova aberta ao lado do curral da fazenda Sesmaria. Sua cabeça, no entanto, foi preservada e está sob a guarda da filha de José de Souza, Maria Augusta.


Esta é a história de Marmelo, contada pelo médico Marcelo Lopes Costa. Mas Pará de Minas teve outros bois, que embora anônimos, fizeram, muitos anos depois, a alegria dos adeptos das touradas e a fama de seu proprietário. Desses eu me lembro bem. Sempre que chegava um circo de touradas à cidade todos se perguntavam quando estariam na função os “bois do Expedito”, famosos pela braveza.

Expedito Ferreira da Silva, motorista, dono de empresa de transportes e fazendeiro, era outro fã das touradas. De seu plantel, separava sempre os touros mais espertos e bravos para levá-los ao picadeiro. Dono de circo que desprezasse os bois do Expedito corria o risco de ver a bilheteria minguada. Mas quando se anunciava a presença dos bichos, o circo lotava até a última tábua da arquibancada. O próprio dono da boiada fazia questão de comparecer ao espetáculo e ocupar ao lado de sua esposa, do irmão José e de amigos, os lugares mais próximos do picadeiro.

A tourada foi por muitas décadas um espetáculo muito apreciado pelos paraenses de Minas, que abriam mão de outras diversões para assistirem a luta do boi contra o toureiro. De tal forma a população prestigiava o espetáculo que os dois cinemas ficavam às moscas. Numa dessas noites, o inesquecível Sebastião Mendes, o Tião do Cinema Vitória, escreveu no caderno onde anotou por quarenta e dois anos o dia-a-dia do “Vitória”: – Casa fraca. Motivo: circo de touradas na cidade.



PS) Manoel Antonio de Souza, cujo nome foi dado à rua onde se localiza a igreja-matriz de São Francisco, em Pará de Minas, nasceu no ano de 1870, em Soledade do Pará, atual Azurita. Foi casado com dona Augusta da Fonseca e Silva, de Itaúna, com quem teve oito filhos, entre eles José de Souza, que foi o dono do boi Marmelo; dona Conceição de Souza que se casou com o paraense Sigefredo Mendes, que foi coletor estadual em Pará de Minas; Geraldo de Souza, que foi vice-prefeito de Pará de Minas (1955/1959) e casado com a paraense Alaíde Xavier; a professora e diretora escolar dona Iná de Souza Mendonça, casada com o industrial José de Almeida Mendonça (Zé Orelha). Desses, Geraldo e dona Alaíde não tiveram filhos. Dona Conceição e Sigefredo Mendes;  dona Iná (97 anos em 2014) e José Almeida Mendonça tiveram proles numerosas que lhes deram muitos filhos, netos e bisnetos.


PS 2) Carlito Silveira, fazendeiro na Matinha, que descobriu o boi Marmelo numa fazenda em Pompéu, também deixou vasta descendência em Pará de Minas.

 

Fonte: http://www.estamosassim.com.br/o-boi-marmelo/  Retirado em 06.07.2014