O agronegócio em Pará de Minas

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                                                        (Luiz Viana David)  

                Pará de Minas desde os seus primórdios teve despertada a sua vocação para o atividade rural, começando com a agricultura  de subsistência, que estimulava a prática do escambo, quando o  produtor, digamos, de arroz, trocava o excedente de sua produção, com o vizinho que plantava milho ou aquele que plantava cana, trocava parte de sua produção de cachaça e rapadura por grãos, ou tecidos, etc.   Depois, a essa vocação foram agregadas as atividades nas pecuárias de corte e leiteira; e bem mais tarde a avicultura  e a suinocultura.
               A ausência de estradas e os precários meios de transporte dificultavam  demais o escoamento da produção,  de forma que tudo o que se produzia  era consumido por aqui mesmo.
E assim foi, desde o começo do povoamento  até a década de 1870.
               Certamente que a cultura do algodão foi a primeira a ser desenvolvida em uma escala um tanto quanto maior, considerando que em 1872 surgiu no povoado de Brumado do Pitangui,  a primeira fábrica de tecidos da região, uma das primeiras de Minas e do Brasil. A fábrica, movida a água, pois a eletricidade ainda não havia sido dominada ao ponto de mover motores,    era portentosa para os padrões da época. Produzia em média seiscentos metros de tecidos/dia e empregava entre sessenta e oitenta operários entre crianças e adultos, que tocavam os vinte teares. Boa parte do algodão utilizado na fábrica do Brumado era produzido na região de Pará de Minas. Depois de industrializado, a linha que sobrava era vendida para tecelões domésticos em muitas cidades e vilas, inclusive de Pará de Minas, despertando a vocação do nosso povo para as artes da tecelagem.
             A fábrica do Brumado consumia aproximadamente duzentas toneladas de algodão e produzia diariamente seiscentos metros de tecidos, números que podem ser considerados modestos em 2014, mas naquela época eram um portento.
Foi assim que a cultura do algodão desenvolveu-se no município. Aumentando ainda mais a partir de 1892 quando foi fundada a primeira fábrica de tecidos  na localidade de Santana do Rio São João Acima, atual Itaúna, que pertencia então a Pará de Minas, sendo emancipada apenas em 1902. Em 1908, quando finalmente foi inaugurada a primeira fábrica de tecidos na ainda Cidade do Pará, a Companhia Industrial Paraense, a lavoura de algodão prosperou ainda mais, rendendo bom dinheiro aos produtores.
             Na segunda metade da década de 1930, sendo governador de Minas o patafufense Benedito Valadares, a indústria têxtil já estava definitivamente consolidada na cidade com três fábricas de grande porte: a Industrial Paraense com duas unidades e a Companhia Melhoramentos de Pará de Minas. Neste ponto, a produção do algodão já não atendia a demanda das  fábricas, que passaram então a importar algodão de outras regiões do estado. O algodão, em estado bruto, enfardado, chegava à cidade já através da estrada de ferro, inaugurada em 1912. Para industrializá-lo, o governo do estado construiu aqui em 1937 uma usina de beneficiamento de algodão, que foi chamada de Usina Inconfidência. Os galpões da Usina Inconfidência, “fábrica de óleo”, ainda estão de pé, na praça Simão da Cunha, no centro da cidade. O estado então passou a beneficiar o algodão para as indústrias têxteis do Pará e de cidades vizinhas, cobrando das empresas pelo trabalho. A ferrovia construiu então um desvio, permitindo que os vagões carregados de algodão encostassem na plataforma da própria usina para serem descarregados.  Essa Usina Inconfidência,logo foi apelidada “fábrica de óleo” pelo povo, pois aproveitava as sementes do algodão em sua produção.  Essa usina funcionou até meados da década de 1960, quando foi desativada, pois o algodão, com o surgimento da indústria de derivados do petróleo que proporcionou o aparecimento das linhas de poliéster, não era  mais a única matéria prima utilizada pela indústria têxtil . E sendo a usina  uma empresa estatal, logo nos seus primeiros anos se transformou em monumental cabide de empregos, chegando a ter em seus quadros aproximadamente cem trabalhadores, entre gerentes e operários.  É possível encontrar na cidade algumas pessoas que lá trabalharam, todas obviamente já bem idosas.
E foi assim que acabou, digamos assim, o ciclo do algodão na região de Pará de Minas.
            Simultaneamente à produção algodoeira, desenvolvia-se uma incipiente pecuária de corte e de leite. Muitos fazendeiros  ganhavam a vida comprando e vendendo gado bovino, atividade ainda hoje bastante desenvolvida na região. Mas havia também os que preferiam atuar na produção de leite, que historicamente sempre foi importante na economia do município.
            Para ilustrar a importância da bacia leiteira do Pará de Minas, talvez seja importante mencionar a passagem pela cidade do senhor Arthur Savassi, que em 1927 implantou na cidade a “Laticinios Arthur Savassi”, que industrializava leite produzido na região, encaminhando praticamente toda a sua produção de queijo, requeijão e leite para os estabelecimentos comerciais da família em Belo Horizonte. Mas não era fácil. O leite então era congelado em barras enormes, colocado em caixas térmicas de madeira, coberto por serragem e embarcado no trem de ferro que partia diariamente às quatro da manhã da estação do Pará.  A viagem demorava em média seis horas, e por volta das dez horas, as carrocinhas dos irmãos Savassi recolhiam o carregamento na estação central em Belo Horizonte e faziam a distribuição pelas padarias na praça Diogo de Vasconcelos (atualmente praça da Savassi) e no Barro Preto.
Boa parte da produção leiteira de Pará de Minas era então adquirida pela empresa “Arthur Savassi”.  Não se pode negar a importância de Arthur Savassi  no desenvolvimento da pecuária leiteira de Pará de Minas, apesar de ele nunca ser citado em pesquisas nem nos livros de história. A segurança oferecida por ele aos pequenos fazendeiros foi o fator principal desse desenvolvimento, pois esses tinham a certeza de vender a produção, a preço justo,  e todos ficaram animados a aumentarem o plantel de vacas leiteiras. Os produtores que não vendiam seu leite à Laticínios Arthur Savassi, seguiam com a produção doméstica de queijo e requeijão e com a venda/entrega do leite de porta em porta.                                                                       

              Uma figura que marcou o cenário urbano de Pará de Minas foi a do leiteiro, às vezes numa charrete, mas quase sempre a cavalo, levando na garupa, um de cada lado, latões de leite, quase todos com uma pequena torneira na parte de baixo. Os fazendeiros tinham freguesia permanente, que pagava mensalmente pelo produto. Nas residências, as pessoas deixavam na janela,  a vasilha onde o leiteiro depositava, às vezes, sem descer da charrete ou do cavalo, o leite encomendado. Quase sempre na mesma hora, sem que as vasilhas fossem roubadas ou danificadas pelos transeuntes. Da mesma forma o padeiro deixava o pão;  e o rapaz do açougue deixava a carne e o caixeiro do armazém as compras da família. Os tempos eram outros, mesmo.  Só no começo da década de 1970 o leiteiro saiu de cena; foi quando a fiscalização apertou em cima dos produtores e o leite só podia ser vendido depois de esterilizado. Daí para o saquinho plástico de um litro, na forma que conhecemos, foi um piscar de olhos. E todo o leite passou a ser entregue na cooperativa.
             A idéia de fundação da Cooperativa dos Produtores de Leite de Pará de Minas pode ter surgido da atividade da Laticínios Arthur Savassi, que foi desativada em 1941.
             Em 1935, o empresário Benjamin Ferreira Guimarães, então  um dos homens mais ricos do Brasil, nascido em 1870, no distrito de Santo Antônio do Rio São João Acima, atual Igaratinga, então pertencente a Pará de Minas, grande benfeitor de nossa cidade, muito famoso pela filantropia, quis homenagear a terra natal, pois sempre se considerou paraense,   resolveu fundar aqui um Instituto Agrícola de Artes & Ofícios, em parceria com o governo estadual que cedeu o terreno.  O objetivo era o de qualificar a mão de obra de jovens trabalhadores rurais.  De tal forma a produção leiteira da região tinha se acentuado, que o Instituto pouco depois  foi transformado em Fábrica-Escola, inaugurada em 1940, para formação de técnicos laticinistas, um dos poucos estabelecimentos do gênero no Brasil. A Fábrica-Escola consolidou a bacia leiteira de Pará de Minas como uma das principais do estado.
           Quando o governador Benedito Valadares, amigo pessoal do filantropo Benjamim Guimarães, foi deposto do governo em 1945, logo os seus adversários em Pará de Minas ficaram assanhados, buscando desfazer se não todas, pelo menos algumas das obras que eram marcas registradas de seu governo na cidade. Um dos alvos foi a fábrica-escola, fechada em 1946, sendo o imóvel logo depois “doado” à recém fundada Cooperativa dos Produtores de Leite de Pará de Minas. Mais tarde, a Cooperativa de Pará de Minas, a primeira e então a mais forte do estado,  foi também  a primeira a se filiar à recém-criada CCPL – Cooperativa Central dos Produtores de Leite, que mais tarde adotaria o nome de fantasia “Itambé”.
          Se a figura do leiteiro a cavalo ficou marcada na memória de algumas gerações de paraenses,  o caminhão-leiteiro também é sempre relembrado, a partir dos anos 1950/1960. Eram várias as linhas de leite. Uma que saía lá dos confins da Jaguara; outra que partia da serra dos Pimenta; outra de Carioca /via Torneiros; a linha de Florestal que atendia toda a região; a linha de Igaratinga, além de outras. Os caminhões vinham com a carroceria cheia de latões de leite. Como não havia transporte de ônibus para passageiros, os caminhões leiteiros acabaram por se transformar na opção de transporte das pessoas da zona rural; homens, mulheres e crianças  que se equilibravam por cima dos latões.  Uma cena fantástica, diária, uma aventura perigosa.
Havia ainda os grandes produtores de leite, que entregavam o leite fazendo o transporte em tropas de  burros e mulas, que atravessavam toda cidade alegrando os transeuntes com seus guizos pendurados no pescoço.
          Os caminhões chegavam entre nove e meia da manhã e meio-dia, fazendo uma fila na plataforma de desembarque, onde um a um os latões eram descarregados e o conteúdo despejado em enorme recipiente. Como esquecer do grande Joaquim Boi, uma lenda do nosso futebol e do Levi “Pão-Véio”, nas horas vagas o nosso melhor jogador de bilhar, descarregando os latões. E a confusão que se instalava na plataforma era mesmo uma coisa de doido, mas que ao final dava sempre certo. E o dia 15 de cada mês, era na cidade o melhor dia para o comércio. Era chamado o “dia do leite”,  em que a  cooperativa pagava aos fazendeiros pelo leite produzido. A rua Direita regurgitava de gente. Alguns fazendeiros só vinham à cidade no dia 15. Muitos costumavam trazer mulher e filhos para compras no comércio, enquanto eles próprios iam aos bancos acertarem as contas.
          Se eu fosse comentar no estilo bíblico, eu diria que a Laticínios  Arthur Savassi gerou o Instituto Agrícola de Artes & Oficios, que gerou a Fábrica-Escola, que gerou a Cooperativa, que gerou a CCPR, que virou Itambé.
           Curiosamente, quando a Itambé veio instalar-se em Pará de Minas, na década de 1990, foi uma espécie de filho retornando ao lar, mas nem tanto. Houve uma disputa pela produção leiteira, entre a CCPR/Itambé e a  já denominada Coopará – Cooperativa Mista Regional Agroindustrial dos Produtores Rurais de Pará de Minas. O melhor preço oferecido pela Itambé fez com que dezenas de produtores deixassem de entregar  o produto no antigo endereço; e por muito pouco mesmo, a Coopará não foi sufocada. Mas resistiu bravamente, diversificou sua linha de produtos e seguiu em frente. Ao mesmo tempo surgiu a cooperativa virtual denominada Coopergranel – Cooperativa dos Produtores de Leite Granelizado da Região de Pará de Minas, ligada à Itambé, que por ter um custo menor, remunera melhor os seus aproximados cem cooperados.
           Mas, nem só de leite vive o homem. E assim, de meados para o final da década de 1960, surgiram as primeiras granjas de aves de Pará de Minas.  Uma delas, ficava onde atualmente se encontra o clube AABB. Pertencia à família Felleti, que se mudou da cidade pouco tempo depois. O lugar foi alugado pelo professor e contador Silvio Francelino, mais lembrado como contabilista, professor, desportista e contabilista e político, do que como um dos pioneiros da avicultura em Pará de Minas, incentivado talvez,  pelo seu principal cliente no escritório de contabilidade, o senhor Antônio Alves Capanema,  fundador da Francap, cujo pioneirismo no setor em Pará de Minas, parece ser indiscutível.
           Amigos e admiradores do senhor Antônio Capanema costumam brincar, dizendo que ele inventou o moto-contínuo, sonho de todo cientista. Uma máquina que funciona com energia que ela mesma gera ininterruptamente. Dizem isto, por que da cadeia produtiva da avicultura pode-se dizer que a Francap é independente: a partir do gigantesco plantel de galinhas poedeiras; o incubatório, as granjas onde os frangos são criados; a fábrica de rações; o abatedouro; o frigorífico; o transporte das aves; os pontos de venda. Talvez por não ser interessante para a empresa, o único ítem que vem de fora é o milho, usado na fábrica de rações.
No inicio, a avicultura era uma atividade de alto risco. O frango só estava pronto para o abate com noventa dias, mais do que o dobro do  tempo que leva hoje, da hora em que bica o ovo, até o momento  em que, metaforicamente, tem o pescoço torcido.
Como parecia ser uma atividade altamente rentável, mesmo com os riscos, dezenas de pessoas, que exerciam outras atividades, resolveram arriscar na criação de frangos;  de bancários a comerciantes, de operários a profissionais liberais. Todos queriam aproveitar a chance de ganhar um dinheiro extra. A insegurança na hora de retirar as aves era o fantasma que assombrava a todos, pois dois ou três dias que os frangos permaneciam alojados, além dos noventa dias de praxe, o prejuízo era certo. Quanto maior o lote de frangos, maior o prejuízo. Muitos granjeiros de primeira viagem, como era a maioria, quebraram ao sabor do mercado. Mas aqueles que resistiram aos primeiros tempos de aventura, sobreviveram na atividade e seguem entre os principais na região.
               A evolução da genética também foi uma benção no setor. Os frangos passaram a ficar prontos cada vez em menor tempo: oitenta dias; setenta e cinco; sessenta; cinqüenta; até o recorde atual em média quarenta dias, a partir do ovo.      
Em 1980 foi fundada a COGRAN. A avicultura  havia mudado o status da economia de Pará de Minas, onde se destacavam o setor têxtil, a indústria do gusa e de fundição, as cerâmicas e a pecuária leiteira. Neste ano de 1980 já havia  certo controle na produção, mas quase ninguém se arriscava  a encher o galpão (botar o pinto prá dentro, como se dizia com uma pitada de bom humor) se não tivesse a garantia de retirada na data prevista.  Foi neste contexto que o avicultor Alfeu Silva Mendes, egresso da indústria de torrefação de café, reuniu diversos companheiros e juntos fundaram a cooperativa, que por contar com muitos associados de cidades vizinhas chamou-se Cooperativa dos Granjeiros do Oeste de Minas. Desde então, há trinta e quatros que a COGRAN tem o mérito de organizar o setor na região. A cooperativa não apenas garante o comprador para a produção, como apóia tecnicamente os produtores.
Atualmente a COGRAN conta 240 cooperados que produzem em média três milhões de aves/mês. Mas a produção total da região, incluindo municípios vizinhos, alcança a doze milhões de aves.
Em Pará de Minas é comum ouvir alguém dizer que “se a avicultura vai bem, tudo o mais vai bem também”, o que é fato verdadeiro.
            A partir dos anos 1990 outro filão por aqui inexplorado, entrou na moda: a suinocultura. Com tal ímpeto que Pará de Minas que era conhecida como a “capital mineira do frango” passou a ser também a capital mineira do suíno. Muitos avicultores passaram também a produzir porcos para abate. Apenas entre os associados à Cogran existem quinze mil matrizes;  e trinta mil animais vão para o abate mensalmente (1.000/dia). Números que dobram, se contados todos os produtores não associados que encaminham a produção para abatedouros diversos.
A pujança do agronegócio em Pará de Minas levou à criação de uma cooperativa de crédito, no caso, a Credirural, que está entre as cinco maiores do ranking nacional das cooperativas congêneres.
          O agronegócio na atualidade emprega diretamente na região de Pará de Minas, entre doze mil a quinze mil pessoas;  contando a avicultura, a suinocultura, a pecuária de leite, assim como a olericultura, pois a região é uma das principais produtoras do estado, de hortaliças e legumes. E números existem, que apontam  a participação do agronegócio no PIB de Pará de Minas em 65% do total de tudo que é produzido no município.
          Apenas a título de curiosidade vale mencionar a tentativa de transformar Pará de Minas em região produtora de borracha. Nos primeiros anos da década de 1910, uma companhia inglesa adquiriu terras nas proximidades da cidade, com o objetivo de plantar seringueiras, das quais se extrai a seiva da borracha. A plantação não prosperou. Acredita-se que os ingleses chegaram à região por engano. Pode ser que pretendessem se instalar no estado do Pará, que vivia então o “boom” da borracha (sem trocadilho),  mas,  vieram dar com os costados na Cidade do Pará (primeiro nome da cidade, que só seria mudado em 1920) em Minas Gerais. Desanimados, quem sabe, retornaram os ingleses à terra natal. A fazenda seguiu aos cuidados de integrantes da família Morais, de origem espanhola,  que nela já trabalhavam, sendo que depois de algumas décadas pediram e receberam as terras em ação de  usucapião.
          Bem mais tarde, na década de 1970, o francês George Collin, estabeleceu-se com a família,  numa fazenda bem próxima ao perímetro urbano de Pará de Minas, onde plantou e colheu sucessivas safras de café. Mas a plantação da rubiácea foi substituída no final da década de 1990 por um grande seringal. Com o avanço o perímetro urbano esse seringal está sendo substituído por conjuntos habitacionais.


(Palestra proferida na FAPAM - Faculdadde de Pará de Minas, para alunos dos cursos de Agronegócio e Administração de Empresas, em 25-03-2014).