Futebol em Pará de Minas

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                                                                   (Luiz Viana David)

               No começo, primeiros anos do século XX, foi como em todos os lugares; o jogo de bola de meia nas ruas empoeiradas, depois a bola de bexiga, as pessoas reclamando da molecada que fazia muita algazarra, muitas vezes a queixa ia parar na mesa do chefe de polícia, que contornava a situação. Com a chegada dos trilhos da ferrovia em 1912, alguns operários trouxeram bolas de couro, para os rachões que começaram a ser jogados às margens do Paciência.
               Mais tarde, em 1923, dona Neném Coutinho (Heráclita Coutinho de Melo Franco), jovem esposa do tenente Júlio de Melo Franco, uma mulher à frente de seu tempo, incentivou a criação do primeiro time de futebol de Pará de Minas: o Mello Sobrinho Foot-Ball Club, o nome sendo uma homenagem ao sogro dela, coronel Júlio José de Mello Sobrinho, o Julinho  Marzagão, falecido poucos meses antes da fundação do time.
               O campo do Mello Sobrinho Foot-Ball Clube, ficava nas imediações de onde atualmente (2014) está a rua Acre, esquina da rua Mello Sobrinho, no centro da cidade. A poucos metros da sede da fazenda do coronel Julinho. A fundadora, dona Neném, costurou ela própria o uniforme do time, cujo escudo tinha a sigla MSFC. Não se tem notícia de nenhum jogo deste time contra adversários organizados como tal.  Principalmente nas tardes de domingo, aconteciam partidas entre o time A e o time B, com a presença de bom número de adeptos do novo esporte.
              O Mello Sobrinho F.C teve vida efêmera. Em 1924 nasceu o Americano F.C. cujo campo foi traçado no terreno em frente à estação ferroviária, às margens do Paciência, cujo leito na época margeava a estação. O lugar atualmente é ocupado pelo gigantesco galpão da Cia. Santanense.
             A primeira partida inter-municipal de futebol em Pará de Minas aconteceu em 1925, quando o Americano enfrentou o Campolina F.C. da cidade de Esmeraldas. Foi um evento esportivo-social que movimentou toda a cidade, com a delegação visitante sendo recebida festivamente na gare da ferrovia com discursos, fogos e banda de música, com direito a jantar na sede do Centro Literário.
             O Americano F.C sobreviveu até 1931, quando o campo já havia se transferido para o bairro da Várzea . A partir daí vários clubes surgiram na cidade: o Varzeano, o Nacional, o Paraense em 1936, o Cruzeiro, cujo campo ficava no lugar denominado Porteira do Campo, onde atualmente (2014) estão o escritório e a estação de tratamento de água da Copasa. Local onde por muitos anos foi utilizado por circos e parques de diversão que vinham cumprir temporadas na cidade. E o nome Cruzeiro E.C. nada teve a ver com o clube de Belo Horizonte, que nesta época ainda se chamava Palestra Itália, mas sim com a grande cruz de madeira que ainda hoje se encontra nas imediações. Em 1938 nasceu o Guarani, no bairro do Alto -atual bairro de Lourdes. As décadas de 1940/1950/1960 foram prolíficas no futebol de Pará de Minas  com o surgimento de muitos outros, entre eles os mais famosos Dom Bosco, Estrela do Mar, Estrela Azul,  Suicida, Londrina, Continental, Alaska, Reivax, o Rio Branco F.C que foi fundado em 1956, o Clube Atlético Paraminense em 1966. A partir de 1951 o futebol na cidade ganhou um palco dos melhores do Brasil: o estádio Ovídio de Abreu, do Paraense E.C. O Guarani mandava seus jogos no antigo campo de terra, que ficava atrás do cemitério municipal, mais ou menos onde hoje existe a rua Pinhuí, no bairro de Fátima. Os outros times usavam o campo do ginásio São Francisco, na atual Vila Maria, que foi desativado no final da década de 1970. Em 1964 o Rio Branco inaugurou, ainda de terra e sem arquibancadas, o seu atual estádio, no bairro Independência.
             Mil novecentos e setenta e um foi um ano interessante para o futebol de Pará de Minas. Neste ano, com o apoio da prefeitura, sendo então  prefeito o senhor José Gentil de Almeida, todos o clubes amadores da cidade, que ainda não o eram, foram registrados e filiados à Federação Mineira de Futebol, entre eles: São Francisco F.C., Clube Atlético Paraminense, Palmeiras, Grêmio, Internacional, Fluminense, que se juntaram aos já registrados Paraense, Guarani e Rio Branco.
             Em 1976 foi fundada a Liga Desportiva de Pará de Minas, que passou a organizar os campeonatos e outros eventos futebolísticos na cidade e na região. O primeiro campeão oficial de Pará de Minas, aliás, tricampeão, foi o Paraminense, que ganhou  os títulos de 1977 (invicto)-1978-1979. O atual campeão (2013) da cidade é o São Francisco.
            O futebol de Pará de Minas desde os seus primórdios sempre foi o que se costuma chamar de “celeiro de craques”. Muitos dos atletas da cidade brilharam profissionalmente nos campos do Brasil e do mundo. Para citar apenas alguns: Vinícius Menezes; Edgar; os irmãos Geraldo e João Alfredo; João Ribeiro; Rômulo Binder; Matinha;  Zezé Pulula; Alcides Mico; Lalau; Edmilson; Luciano; Heleno; Waltinho...
            Dentre aqueles que permaneceram sempre amadoristas vale mencionar: Wilson Melo Franco; Wilson Amarante (Polanche); Pedro II; Davizinho; Patesko; Coteco, Barrão; Hélio Bechtlufft; os irmãos Luiz e Sílvio da Ica (este depois foi atleta profissional; com passagem por América e Cruzeiro de BH); João do Doge; Antônio da Lina; Nilton Pintado; Lúcio David; Vado; Geraldo Gás; Edson Borracha; Traque; João Maurício; Ernane Banana; Jorge Madalena; Pacífico; Getúlio; Galba; Flavinho e Zé  Osvaldo; Quinzinho; Robson David; Careca (José Niwton de Sousa); Hermelino; Zinho Peixoto; César, além de muitos outros, que a fonte é inesgotável. Nos últimos dez anos, sem sombra de dúvida que o grande destaque do nosso futebol é o atacante Guilherme Morais, o Bidí.  
            Merece destaque dentre todos, o atacante Calé (Hilton Marques dos Santos) que brilhou em nossos gramados nas décadas de 1970/1980. Merecidamente escolhido em enquete popular  como o “Melhor Atleta Amador de Pará de Minas no século XX.
           E deve-se fazer justiça também aos grandes abnegados do futebol, dirigentes que fizeram e fazem andar o esporte em nossa terra: Bruno Marinho; Cabo Zé Soldado; Joaquim Boi; Brás do Palmeiras; José Nogueira;  Dininho; José Maria de Castro; Luiz Pinta-roxa; José Porfírio de Oliveira (o pai); Domingos de Oliveira; os irmãos Nhô e Licinho Peixoto; Jésus Geraldo de Oliveira; Dinho Assunção; Fuzinho; Edson Mendonça; Antônio Júlio de Faria; Dr. Lisandro Pimentel Marinho;  Hugo Marinho e Edson Campolina Pontes. Este último, escolhido em enquete popular como o dirigente do século XX na cidade.
           E assim caminha o futebol em Pará de Minas,  que permanece sendo o esporte preferido de nossa população, hoje, com mais de noventa mil habitantes.


                                                                                           Março de 2014