Cova d’Anta, um distrito de Pará de Minas

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                                                                                                  Gilson Magela Campos
                                                                                                  Graduado em História pela FAPAM 
                                                          Pós-graduado em História e Cultura Afro-Brasileira pela PUC/MG 
                                                                                                   Genealogista

                                                                                                                                                                                    03/07/2010


Cova da anta ou lugar da anta, animal que era encontrado em grandes quantidades naquele lugar é a explicação para a origem do nome da localidade, conforme me informou verbalmente a Sra. Hilda Cecília de Araújo. Talvez pela existência de um córrego denominado Cova d’Anta, o povoado tenha recebido essa denominação. Supostamente esse córrego pode ter recebido o nome devido a ser o habitat natural do animal, que se escondia em suas margens para fugir de predadores, conforme esclarece: 

                             As antas são animais herbívoros, encontrados em toda a  América
                             Latina, de hábitos noturnos e estão sempre próximos aos rios porque
                             é neles que ela prefere se esconder dos predadores.
                                           
                                        (PACIEVITCH – www.infoescola.com)

Hilda Cecília nasceu na localidade em 1918 e faleceu em 2005, pertencente à tradicional família Araújo em Cova d’Anta, tem seu tronco em José Batista de Araújo, nascido em 1863 e casado, em 1889, com D. Ambrosina Augusta Tavares, nascida em 1868 e sepultada no cemitério local em 1910, filha de Manoel Tavares de Carvalho e Maria Constância Tavares, esta, em seu testamento, declara ser natural de Queluz e falece em 1899.

O segundo filho do casal, José Batista e Ambrosina, é o homeopata Abdon Senen de Araújo, pai da dita Sra. Hilda, casado em primeiras núpcias com Rosa Cecília, também nascida em Cova d’Anta, filha de Antônio Cecílio Pereira e este, provavelmente, primo em primeiro grau do lendário Vigário Paulino Alves da Fé.

A primeira citação encontrada que se refere a Cova d' Anta trata-se de uma declaração contida no inventário do Capitão Antônio Machado Ribeiro, cuja viúva e inventariante D. Maria Pereira da Silva na rol de bens, em 11/1815, relata:

                           Declarou ella Inventariante haver ela e seu fallecido marido dado em
                           Patrimonio ao Padre Camillo (1) quando se ordenou hum citio de cultura e terras
                           chamado Cova Danta (...)

No Anuário Histórico-Chorographico de Minas Geraes de 1909 encontra-se um artigo sobre Pará  e um destaque sobre o povoado de Cóva d’Anta:

                           Há no distrito da cid. um povoado – Anta, onde existe uma cadeira rural mixta,
                           creada pelo Gov. a 26 de janeiro de 1908.  Pov. da Cóva d’Anta - Logarejo a
                           7kms. da Cid. do Pará, zona centro oeste.Há neste povoado 1 escola publica 
                           estadoal, creada em 1908.
(SENNA, 1909:745 e 747)

Na citação acima SENNA destaca Cova d’Anta como sendo um povoado que entende ser constituído de poucas casas, circundadas de uma parcela rural sem a constituição de vias de comunicação.

O primeiro professor do qual encontramos registros na localidade foi João Maria de Melo, conhecido como Prof. Joanico, filho do ourives Júlio José de Melo Júnior e D. Maria Amélia da Cruz, natural da Vila do Pará, diplomado professor em 1890, na Escola Normal “Paula Rocha” em Sabará e conforme o Professor Oswaldo Diomar nos informa:

                           Sua atuação como professor começou na Escola Rural do povoado da Prata,
                           então município de Pará de Minas, onde lecionou a [até] 1893, quando foi
                           transferido para Cova d’Anta (Ascensão), também município de Pará de Minas,
                           onde ficou até 1902. (DIOMAR, 2000:165)

Quanto à localidade Cova d’Anta citada em registros eclesiásticos da Matriz de Nossa Senhora da Piedade de Pará de Minas, ressalto como primeira anotação o óbito abaixo transcrito:

                           Aos vinte e seis de Agosto de mil oito centos e sessenta e quatro, faleceu na
                           Cova Danta José Bernardes dos Santos solteiro e vinte e cinco anos mais ou
                           menos de idade, foi sepultado neste Cemiterio [Vila do Pará], que para constar 
                           fasso este assento. O Vigr.o. Paulino Alves da Fé

Os dois primeiros casamentos, devidamente registrados como sendo celebrados na Cova d’Anta, foram realizados no dia 31/07/1923 pelo Rev. Frei Bonifácio.

Três fazendas, que acreditamos serem as origens do povoado, são descritas em livros cartoriais de notas de Pará de Minas na segunda metade do sec. XIX, informando limites do atual distrito:

                         A Fazenda Retiro da Cova Danta aos 24/07/1861 é lavrada no Cartório do Primeiro Ofício da Vila do Pará, escritura de venda que faz o Reverendo Antônio Moreira Ribeiro a Leandro Antônio da Assunção, composta de uma sorte de culturas e campos e serrados no lugar denominado Cova Danta, sita neste mesmo Districto, cuja sorte de terras houve por herança, digo, por compra ao Padre Camilo Ribeiro de Lelis (1) sendo a abrangência das terras partindo do Corrego do Ribeiro Bonito até a serra, de lá até o pico das mangabeiras, até a passagem Velha do Ribeirão Grande, ainda compondo o terreno uma pequena casa coberta de telhas.

Em 22/04/1878 a Fazenda do Retiro (aparece somente essa denominação) pertencia a Joaquim José Ferreira quando este vende partes a Luís de Faria Morato, composta de casas de morar, rego d’agua, moinho e quintal plantado de café, laranjeiras e outros arvoredos, com terras de cultura, campos e serrados, divisando até a barra do córrego que vem de Lagoa Preta, e desta ao norte até a Parição, descendo até o Capão do meio até um açude velho que vem do córrego do buracão, divisando com as terras do Buracão no caminho que vai para os Limas seguindo até as lavras da Fasenda da Ciara. O casal ainda vende outra parte a Manoel Bernardes da Silva (6), que fica na divisa da Fazenda de João Manoel e divisas com a Fazenda de Manoel de Abreu e Silva até o Córrego da Lagoa Preta.

                      A Fazenda do Ribeiro Bonito, de propriedade do Reverendo Antônio Moreira Ribeiro, adquirida do Pe. Camilo Ribeiro de Lelis e vendida a Tito Teixeira da Fonseca no mesmo dia em que a Fazenda Retiro da Cova Danta havia sido vendida, possuia seus limites “do Retiro a serra deste, a cabeceira do córrego denominado Luiz Alves, até o Ribeirão das Lages” compreendendo mais ou menos cinqüenta alqueires de terras.

                     A Fazenda do Seara, cuja grafia encontrada nas escrituras do século XIX é Fasenda da Ciara, que na segunda metade do século XX pertencia ao Patrimônio de Santo Antônio, com área de 3.771.111,64 m2, e que hoje se encontra dividida em pequenas chácaras. Até 14/08/1881 pertenceu a João Francisco Dutra, quando este vendeu partes a Martinho Alves da Silva, sendo divisa com Joaquim Batista Parreiras indo até o morro redondo, divisando com Manoel Bernardes indo até o ribeirão, composta, esta parte, de uma pequena casa, 15 alqueires de plantas e 25 de campos, citas na Cova d’Anta.
 
As regiões limítrofes de Cova d’Anta na segunda metade do século XIX , conforme as escrituras acima descritas, são: Fazenda da Parição, Fazenda da Jagoara, Lagoa Preta, Limas, Fazenda Cana do Reino, Fazenda do Tristão, Fazenda do Buracão, Fazenda de João Manoel e a Fazenda de Manoel de Abreu e Silva.

                                                                                                                            

(1) Pe. Camilo de Lelis Ribeiro, nascido em 1784, batizado na Capela N.Sa. da Conceição do Saco, Freguesia de Santo Antônio do Rio Acima, hoje denominado Rio Acima, ordenado em Mariana no ano de 1809, filho de Capitão Antônio Machado Ribeiro e Maria Pereira da Silva estabelecidos em Patafufo (antiga denominação de Pará de Minas) anterior a 1800. Era Capelão do Patafufo em 1822 quando da visita do Bispo D. Frei José da Santíssima Trindade. Infelizmente seu processo De Genere, vita, Moribus et Patrimonium não foi encontrado no Arquivo da Cúria de Mariana, podendo o mesmo ter se perdido com tempo. Nesse processo estaria contida a escritura do Patrimônio para Ordenação a que se refere D. Maria Pereira da Silva no inventário de seu finado marido.


Fontes:
- Arquivo Judiciário de Pitangui - Inventário do Capitão Antônio Machado Ribeiro - 1815.
- 1º Livro de Óbitos da Paróquia N.Sa. da Piedade de Pará de Minas. p. 40V.
- 7º Livro de Casamentos da Paróquia N.Sa. da Piedade de Pará de Minas. p. 25V.
- Livro de Notas 01 – Cartório do Primeiro Ofício Vila do Pará, Estado de Minas Gerais. pp. 93 a 94V.
- Livro de Notas 03 – Cartório do Primeiro Ofício Vila do Pará, Estado de Minas Gerais. pp. 94V a 96 e 105
  a 106.
- DIOMAR, Oswaldo. História de Carmo do Cajurú: 1747 a 2000. Divinópolis: Gráfica Sidil, 2000. pp. 165 e
  166.
- SENNA, Nelson Coelho de. Anuário Histórico-Chorographico de Minas Geraes. Belo Horizonte, 1909. pp. 
  747.
- Site www.infoescola.com