Museu Histórico de Pará de Minas

Circos [em Pará de Minas]

                                                      Angela Xavier*

Um circo é algo fantástico, principalmente para quem foi criança nos anos 50 [1950] quando não havia TV, cinema só de vez em quando.

Quando o circo chegava a Pará de Minas, ele era montado na Várzea e a criançada acompanhava tudo, desde a montagem da lona até o cuidado com os animais e, no final da temporada já estava amiga de todos os componentes do circo.

A propaganda para atrair o público era um espetáculo à parte. Lembro-me de um circo que desfilou com seus astros pelas ruas da cidade e eu, pequena ainda, via tudo dependurada na janela da casa da vovó Lilina, na rua São José 388. Desfilavam girafas, ursos e leões dentro de suas jaulas, cavalos enfeitados, com acrobatas se equilibrando de pé sobre suas montarias. Uma girafa parou para comer as folhas tenras de uma árvore que havia em frente à casa do tio Tavinho Xavier, a última casa antes de subir para o jardim da prefeitura. A girafa parou o cortejo todo e ficou mastigando as folhas satisfeita. Mais satisfeitos ainda ficaram os netos na janela do tio Tavinho vendo a girafa de tão perto.

No cortejo desfilavam também elefantes e, uma moça de maiô brilhante era apanhada pelo elefante, pela tromba, e colocada em cima dele. Depois vinham os palhaços dando piruetas, o mágico com sua cartola de onde saiam sempre coelhos. E mais os trapezistas, os atores, os malabaristas jogando suas bolas para cima, chipanzés vestidos e uma pequena orquestra. Na frente vinha o apresentador vestindo smoking colorido e, com o chapéu, ia saudando a todos. Ninguém perdia um espetáculo como este.

Meu tio Mário Leite contava um episódio muito interessante acontecido na passagem de um circo, quando ele era ainda menino pequeno. Coisa do início do século XX, quando havia ainda muitos ex-escravos na cidade. Um antepassado, Antônio Leite Praça, português, era o proprietário de uma fazenda grande no caminho para Belo Horizonte, onde há uma lagoa, já foi da Divinal e hoje não sei de quem é. Ele tinha 40 escravos e casou-se com uma mulata de nome Matildes. Quando houve a abolição ele recebeu a notícia pelos jornais que vinham do Rio de Janeiro no lombo de burros, com dois meses de atraso. Reuniu seus escravos e deu-lhes a notícia, deixando que resolvessem o que fazer de suas vidas agora que eram livres. Ex-escravos não tinham lugar na sociedade, eles não queriam sair dali pois eram bem tratados. Assim, o tio Mário chegou a conhecer quatro desses ex-escravos já velhos, ainda moradores da fazenda. Seu Cornélio era um deles e usava vários anéis em cada dedo. Uma vez, o circo chegou à cidade e desfilava pelas ruas com todo o seu elenco. De repente, um elefante pegou seu Cornélio pela tromba e o jogou longe. No hospital, todo quebrado, se recuperou. O povo disse que ele fora reconhecido por um seu conterrâneo africano.

Circo cheio, meninada e adultos dependurados nas arquibancadas, comendo pipoca ou chupando pirulito de mel esperando o início do grande espetáculo. As meninas, que então só usavam saias, ficavam constrangidas nas arquibancadas com medo de alguém ver suas calcinhas. O show sempre começava com a entrada dos palhaços fazendo rir a todos, enquanto o cenário do próximo número era montado.

Palhaço famoso, nosso conterrâneo foi o Benjamim de Oliveira. Benjamim do Malaquias, como era conhecido. Filho de família pobre da Várzea, fugiu com um circo e se tornou palhaço. Meu pai, Zezinho Xavier, se lembra de um show onde ele se apresentava com sua filha Jussara e cantava:

“Eu vi você bulinar Lili, eu vi,
Fiquei muito admirado
De ver você beijando o namorado.”

Ele inovou o espetáculo circense com peças teatrais, números cômicos, números musicais, numa tentativa de fazer frente ao cinema que crescia muito. Ele se apresentava também no Ideal Cinema, o cinema do Juca Ferreira. Sempre, ao chegar ao Pará, ele abraçava e beijava o coqueiro que havia defronte da velha Matriz de Nossa Senhora da Piedade.

Um personagem de que me lembro muito e se apresentava no circo e nos teatros era o Delmário. Ele falava um monte de bobagens e piadinhas e cantava com uma sanfona:

“Eu tinha uma vizinha
Uma veia sorterona,
A veia num parava
De tocar sua sanfona:
Nheco, nheco, nheco,
Essa veia é de amargar,
Nheco, nheco, nheco,
Ela num para de tocar."

E a música prosseguia, fazendo todo mundo rir. O circo lotava sempre que o Delmário se apresentava.

Um número ótimo, apresentado em todos os circos e que ninguém se cansava de ver era o teatro dos palhaços. Vai ver que foi coisa inventada pelo Benjamim. Dois palhaços se sentavam num banco e começavam a contar casos de cemitério, de caveiras e almas penadas. De repente, uma caveira se aproxima de mansinho e senta perto de um deles. Ele, sem olhar, continuava a falar, abraçava a caveira. Nisso, o outro já tinha visto a bicha e saiu correndo deixando seu companheiro em má companhia. Ele continuava falando sem ver, a platéia desesperada, gritando e a cena correndo. O ponto alto era quando ele se virava e via a caveira. Então gritava e saia correndo com a caveira atrás. O público ia ao delírio.

O circo Irmãos Elias ia sempre ao Pará.. Os donos eram da região mesmo e toda a família trabalhava no circo. Lembro-me de um número incrível com vários irmãos e irmãs acrobatas que saltavam um após o outro e iam se aparando. O menor era uma criança de uns 6 anos. Incrível! Este circo, como muitos outros de pequeno porte, foram desaparecendo com o surgimento da televisão. Dizem que a dona do circo ficou doente, sua vida não tinha sentido, quase morria de tristeza, pois não se acostumava com a vida fora do circo. Seus filhos, preocupados, se reuniram e resolveram comprar um pequeno circo para ela. Eu cheguei a ver essa senhora, já velhinha, à frente do seu circo, se apresentando pelas cidades do oeste mineiro.

Um número de grande sucesso, ponto alto do espetáculo, era o número dos trapezistas. Todas as meninas se apaixonavam por eles. Eu e a Maria Olga chegamos a fazer um trapézio numa árvore do quintal da casa onde morávamos, a casa do Jacinto Mendonça onde hoje mora o Urbano Medeiros. Tentávamos fazer as estripulias que víamos no circo e chegamos a fazer algumas proezas, isto escondido, é claro. Um dia caí de cabeça no chão e não pude nem chorar direito para não sermos descobertas, senão, adeus trapézio! Lembro de uma moça da cidade que fugiu com o circo. Havia se apaixonado por um dos trapezistas.

O circo fazia parte de nossa vida, do nosso dia a dia enquanto estava na cidade. Um circo estava montado do lado esquerdo na Avenida Presidente Vargas, depois da Ponte Grande. Nós ficamos amigas dos meninos do circo. Um deles foi atropelado quando passava de bicicleta pela ponte e foi socorrido no Hospital, onde veio a falecer. Todas nós, irmãs e primas, fomos visitá-lo e acompanhamos o enterro chorando como se fossemos da família.

Os números das feras eram emocionantes. Os leões saltavam arcos de fogo, rugiam e deixavam o domador colocar a cabeça dentro de sua boca, para horror de todos nós. Ele ficava o tempo todo com um chicote na mão, batendo com ele no chão e um banco na outra mão servindo de escudo.

Uma vez, em Belo Horizonte, eu e meu marido José Efigênio, estávamos de carro no trânsito. Num certo momento ficamos atrás de um carro-jaula com um leão dentro. Então, o leão fez xixi e molhou o vidro do nosso carro. Foi preciso usar o limpador de pára-brisa. Quando contamos, ninguém queria acreditar.

Os mágicos encantavam a todos. Tiravam coisas incríveis da cartola. Dos bolsos, faziam objetos desaparecerem e depois surgirem nos locais mais inusitados. Colocavam aquelas mulheres de maiô brilhante dentro de uma caixa e enfiavam espadas por todos os lados, no maior suspense. Depois de mostrar que não havia nenhum canto sem espada, ele ia tirando uma a uma e abria a caixa de onde a mulher saia ilesa, em meio aos suspiros de emoção da platéia. Outras vezes, a mulher era deitada numa caixa comprida como um caixão. Essa caixa era fechada e o mágico a serrava ao meio e separava as metades mostrando ao público. Depois juntava as metades e abria a caixa, de onde a mulher saia como se nada tivesse acontecido.

Estes números me fazem lembrar do tio Jujú, o nosso mágico de família.Ele morava em Belo Horizonte e quando ia ao Pará visitava todos os irmãos. Nessas ocasiões, ele sempre estava rodeado de crianças porque fazia mágicas e brincadeiras o tempo todo.Ele pedia uma moeda e a fazia desaparecer e perguntava a todos onde ela estava. Todos procuravam, mas ninguém sabia da moeda. Ele conferia vários locais sugeridos e, nada. Feito o suspense desejado ele se dirigia a uma criança qualquer e, para espanto de todos, puxava sua orelha de onde caia a moeda, e o nariz de outra deixando cair outra moeda e assim terminava com a mão cheia de moedas. Ele jogava um objeto no telhado e tirava do bolso de alguém. Era uma festa. Ele tinha uma destreza enorme nas mãos. Parecia cortar o dedo polegar e colocá-lo novamente no lugar.

Hoje vivo em Ouro Preto, num local conhecido popularmente como Praia do Circo pois era o local onde os circos eram montados desde muitos anos atrás.Passa um córrego que tinha sua água limpa e areia, daí o nome de praia.

Nossas emoções, de crianças sem TV, eram muito intensas. Hoje fui a um pequeno e pobre circo que não é nem a sombra dos pequenos circos de anos passados, mas que me fez lembrar de outros circos e suas histórias.


* Angela Leite Xavier é contadora de histórias, pesquisa histórias regionais, histórias de mulheres e de família. Autora do livro "Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto" 

Texto retirado em 19.04.2010 do site http://angelaleitexavier.blogspot.com


Mudanças nem sempre são sinais de progresso

                                                                                                       Angela Xavier*


Saí de Pará de Minas junto com muitos jovens de minha geração para estudar em Belo Horizonte e, como muitos, nunca mais voltei a viver na minha terra natal. Minha geração se espalhou por esse Brasil afora mas sempre voltamos à terrinha para matar a saudade e rever familia e amigos. E, fato curioso, sempre que eu retornava, havia algo diferente. Em pouco tempo a cidade onde nasci e cresci foi desaparecendo e, em seu lugar nascia outra que, ainda hoje, estranho. Para quem ficou, as mudanças ocorreram naturalmente sendo eles próprios os agentes das mudanças. Era o progresso que chegava. Era dinheiro circulando.

Vi quando derrubaram a velha Matriz. Acreditavam que ela estava muito velha e ia desabar sobre os fiéis. Uma nova já estava em gestação, mais ampla e moderna. Quando ia ao Pará nos finais de semana, eu ficava olhando a demolição. Uma grande equipe trabalhava incessantemente. Havia um grande guindaste. com uma bola de ferro pesadíssima na ponta, batendo nas paredes grossas da igreja que resistia. Os objetos de culto, os santos e quadros foram doados a igrejas dos distritos, outras coisas como o relógio, pedaços de altar, telas enormes ficaram guardados num cômodo do Asilo das meninas tranformado em faculdade. D. Anita Sales encontrou abandonado, num canto, um quadro pintado por meu avô, Alfredo Leite, retratando a matriz mais antiga de 1846, pintado em 1946 por ocasião do centenério da paróquia. Essa amiga da família recolheu o quadro e levou para minha mãe. Esta foi a única pintura do meu avô que minha mãe teve e que hoje tenho o privilégio de possuir.

Assim como a velha matriz outros prédios menores, referências de minha infância, foram derrubados: as casas amarelas, a casa do meu tio Tavinho, a casa do Cornélio Moreira, a casa da Anita Sales, a casa do Silvino Silva, a casa de minha avó Lilina na rua são José 389. Igual destino teve a casa de minha outra avó Cota que ficava onde hoje é o INSS, a linda construção art nouveau do Júlio Leitão na rua direita, o prédio antigo da Prefeitura Municipal, uma bela construção, a casa arborizada da Marta de Abreu, onde hoje é o Banco Real. Também as casas dos meus tios, tio Silvio e tio Juvenal não existem mais, nem os cinemas Vitória e Imperial, o bar do Ari onde a gente comprava deliciosos picolés redondos de côco. Não ficou de pé nem o sítio do personagem mais importante da cidade, o Benedito Valadares. A área verde ao redor da cidade desapareceu e o clima que já foi agradável, chegando a ser muito frio e nebuloso no inverno, se tornou quente. O calçamento de paralelepípedos ficou debaixo da camada de asfalto jogada nas ruas principais da cidade em dias de eleição para governador, tentativa desesperada e inútil de angariar votos na cidade por parte do então candidato Elizeu Rezende.Uma onda avassaladora de "progresso" tomou conta de todos. Era como se fosse necessário desmanchar tudo e fazer outra cidade, e num período de tempo rápido demais! Abriram-se grandes avenidas, dezenas de novos bairros nasceram ( vou tentar enumerar os bairros ou logradouros do Pará onde vivi: Centro, Nossa Senhora das Graças, Alto, Várzea, Avenida, Zambeque, Tabatinga, Automóvel Clube). A população crescia, muitos novos moradores chegavam de toda parte para viver numa cidade tão progressista. Os trilhos da estrada de ferro foram cobertos por grossa camada de alfalto, acabando de vez com a linha de trens por onde tantas vezes viajei para Belo Horizonte, Bom Despacho, Mateus Leme ou para um final de semana na Fazenda dos Guardas. Para nós, que havíamos saído um dia para estudar fora, toda essa mudança foi um choque.

Logo veio a consciência de que alguns prédios deviam ser restaurados e usados pela população por serem referência cultural e histórica: o prédio do Fórum, o Grupo Escolar Torquato de Almeida, o Grupo Escolar Governador Valadares, os Colégios São Francisco,  departamentos feminino e masculino, hoje com outros nomes. A casa da Zezé Castelo Branco, salva por um triz e restaurada, hoje abriga o Museu da cidade. O prédio da antiga Escola de Comércio hoje é Casa de Cultura, a Estação do Pará onde funciona o cinema, a antiga granja Orsini tem sua casa preservada onde funciona a Escola [Municipal] de Artes Sica, o prédio onde funcionou o Asilo das meninas hoje é a FAPAM. As pinturas da velha Matriz foram restauradas e colocadas em novas capelas, os outros objetos são hoje acervo do Museu, assim como muitas doações de famílias da cidade. A Banda de Música renasceu e hoje grupos de Congado se apresentam nas festas do Rosário. Um novo coreto foi construído onde havia o antigo na praça Torquato de Almeida.

As transformações fazem parte da vida. Só não podemos perder nossos rastros, as referências de nossa tragetória pela vida, o que constitui a história de um povo, sua identidade. As referências do passado são de grande importância para dar a personalidade a uma comunidade, sua estrutura básica.

José Efigênio, meu marido, lendo na Gazeta Pará-minense muitas reportagens onde as pessoas lamentavam a perda da antiga Matriz me disse: "Por que não constroem outra Matriz idêntica à que foi desmanchada?" Disse isto com conhecimento de causa pois ele visitou a Espanha e viu igrejas e monumentos totalmente reconstruídos depois de terem sido derrubados por bombardeios nazistas durante a Revolução espanhola.

Então, eu pensei que o melhor presente para o pará-minense, hoje, seria ter a sua velha Matriz de volta. E acredito ser possível através das fotografias existentes e da vontade de todos. Então, mãos à obra!


* Angela Leite Xavier é contadora de histórias, pesquisa histórias regionais, histórias de mulheres e de família. Autora do livro "Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto" 

Texto retirado em 19.04.2010 do site http://angelaleitexavier.blogspot.com


Quarta no Museu com o Grupo Brisa e Cia.

 

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A boa música do Grupo Brisa e Cia. foi a convidada para a 2ª edição do Projeto Quarta no Museu, dia 14 de abril, 20h. O Grupo Brisa, formado pelas irmãs Sandra, Andréa, Derlane e Adriana Moreira, cujas vozes e instrumentos musicais que tocam entram em sintonia harmoniosa em cada apresentação, chegou com os convidados: Rodrigo Maciel (teclado e saxofone) e Glaucio (baixo). O vasto e eclético repertório que interpretaram agradou a todos que foram apreciar a beleza das vozes e interpretação do Grupo Brisa e Cia. 

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José de Mello Machado, pioneiro da indústria de calçados em Pará de Minas

                Umbelina Felicidade de Mello*
 
       José de Mello Machado é filho de Umbelina Júlia de Mello Machado e José Francisco Machado. Nasceu em Pará de Minas aos 28 dias do mês de março de 1896 e faleceu em 17 de dezembro de 1954. Foi casado com Maria Bahia da Fonseca, filha de Bento Antônio da Fonseca e Maria Cândida da Fonseca, natural de Pitangui(MG), nascida aos 31 dias do mês de março de 1896 e falecida em 17 de agosto de 1945. O casal deixou os seguintes filhos: Raimunda Lydia da Conceição, José Simão, Geraldo Machado, Umbelina Felicidade de Mello e Joana D'Arc Machado.
        Em segunda união com Geralda Barbosa de Oliveira, natural de Pitangui(MG), nascida em 1913 e falecida em 04 de outubro de 1963, filha de Leonardo Luiz Barbosa e Maria Belchiorina de Freitas, deixou a seguinte filha: Maria Barbosa Machado.
        Pioneiro da indústria de calçados desta cidade [Pará de Minas], tendo começado nos idos de 1917 com uma pequena oficina, dentro dos padrões artesanais, foi aos poucos ampliando-a e modernizando-a, chegando a possuir uma fábrica com capacidade para mais de 22 empregados. A oficina funcionava em prédio próprio e sob a sua inteira responsabilidade. Administrou sozinho e muito bem a sua indústria de calçados.
        Dentro dos moldes da época, quando a tecnologia ainda era falha dificultando a fabricação padronizada, já se fabricava na oficina dos "Calçados Mello", sapatos dos mais variados tipos, desde a "botina gomeira" até as sandálias do mais alto estilo, os quais eram bastante apreciados, não só pelo esmero do fino acabamento, como também pela sua durabilidade, tendo ótima aceitação, não só no mercado local como no das cidades do interior de Minas e até no da Capital do Estado e também no do Rio de Janeiro, que era o Distrito Federal na época.
       Quando o BNH, ainda nem sequer fazia parte dos planos do Governo Federal, o proprietário da indústria "Calçados Mello" já construía barracões e os entregava para os seus empregados neles habitarem com suas famílias, e o que é mais importante, cobrando-lhes um aluguel simbólico.
        Quando a Previdência Social ainda não existia, o senhor José de Mello Machado já agia como tal, facilitando aos seus empregados consultas médicas e compras de remédios nas farmácias locais, descontando parceladamente nas suas folhas de pagamento.
         Com a morte da esposa em 1945, já cansado, encerrou suas atividades no ramo de calçados, transferindo a sua indústria aos seus filhos José Simão e Geraldo. A partir daí passou a dedicar-se inteiramente ao ramo da construção civil, onde chegou a construir a "Vila Joana D'Arc", composta de uma casa e quatro barracões, situada na Rua Capitão João Cruz, esquina com a Rua Professor Pereira da Costa; a "Vila Maria Bahia", situada na Praça Mello Viana 62, e muitas outras casas e barracões em diversos logradouros da cidade. As construções quando terminadas, eram vendidas  à prestação, como se dizia na época. Esta sua nova atividade durou pouco, pois nove anos após a morte de sua esposa, ele veio a falecer também.
           Adepto da preservação ecológica conservava e cuidava de árvores, plantas e flores, inclusive uma das árvores que foi plantada em um jardim que ficava em frente a sua residência, na Praça Mello Viana 62, foi tão bem regada e adubada por ele, que sobressaiu-se às outras que foram plantadas no mesmo local e época. Era muito comum vê-lo, já alquebrado pela doença, sentado debaixo dessa árvore, para sentir-lhe o frescor e ouvir o canto de seus pássaros, cujas gaiolas ele as pendurava  nessa mesma árvore. A árvore ficou conhecida como "a árvore do Zé Machadinho".
           Dentre os seus vários hobbies, os pássaros tinham o papel principal. Mantinha vários viveiros, das mais variadas espécies, os quais eram cuidados com carinho e amor. O local desses viveiros servia de ponto para excursões escolares, onde os alunos dos diversos estabelecimentos de ensino da cidade visitavam para adquirirem maiores conhecimentos sobre a matéria de ciências naturais.
            Foi um homem atuante e muito capacitado. Possuia pouca escolaridade, somente o 2º. ano primário, no entanto, sabia ler e escrever muito bem, era dado à leitura de livros e jornais.  Ele mesmo era o contabilista da sua indústria de calçados e, com a implantação da Previdência Social, IAPI, na época, contratou um  contador de Belo Horizonte, especializado no assunto, para lhe ensinar os primeiros manuseios com os descontos e pagamentos de seus empregados. José de Mello Machado se atualizou para não prejudicar os seus empregados. Foi, enfim, um homem cujo caráter era da mais alta lisura, bom marido, chefe de família exemplar e um bom patrão.
            Era católico praticante, frequentava com assiduidade os deveres cristãos. Pertencia à Confraria dos Vicentinos e era um grande incentivador dessa prática, se fazendo acompanhar por seus dois filhos, José Simão e Geraldo, em todas as reuniões e deveres da Confraria. Levava à sério a distribuição de esmolas e ajudas das diversas espécies aos necessitados, observando com retidão o que diz Matheus(6,3) "quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que fez a tua direita", e assim era. Às vezes as pessoas vinham agradecer-lhe os favores recebidos e ele dizia nem se lembrar mais daquilo. É um ancestral que deve servir de exemplo para todos os seus descendentes.
          O vereador Dalmi Assunção, conhecedor dos antecedentes de José de Mello Machado quis homenageá-lo indicando seu nome como patrono de uma das ruas da cidade. A indicação foi recebida com apreço pela Câmara Municipal e o projeto foi aprovado por unanimidade, em 1985. A Rua José de Mello Machado é a terceira transversal da Avenida Nair Guimarães, que fica no Bairro Recanto da Lagoa, nesta cidade.

*Umbelina Felicidade de Mello é advogada, filha de José de Mello Machado.

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