Museu Histórico de Pará de Minas

O nome Pará de Minas

                                                             Por Ana Maria Campos*

             Substituindo Patafufio e Patafufo nossa terra foi batizada com a denominação Pará, inicialmente como Vila, que depois de promovida virou Cidade do Pará no século XIX.
             Mas, Pará por quê? Etimologicamente, o vocábulo tem a sua origem na língua tupi, significando o rio caudaloso, colecionador de águas, designativo para o Rio Pará, que nos primórdios do povoamento era tão grande quanto o mar, atravessando com suas águas abundantes o imenso território em que se constituia o Patafufo. Argumentação semelhante é encontrada em publicação de 1916, sobre o Município do Pará: “(...) Pará, que em tupy vale o mesmo que mará e significa o mar; corrompeu-se em y-pará ― águas todas colhe ― isto é, o ‘colleccionador das aguas’ segundo o douto indianologo dr. Baptista Caetano de Almeida interpretou. Theodoro Sampaio accrescenta que o vocábulo pará, é o ‘rio volumoso ou caudaloso’. Pará, seria então, o rio collector do centro-oeste do Estado” (CAPRI, Roberto. Minas Gerais e seus Municípios, São Paulo: Pocai Weiss & Comp, 1916).
             No primeiro quartel do século XX, a simples denominação Pará acabou por se constituir um problema, pois sem outro termo complementando-o, ao menos para indicar a região a que pertencia, frequentemente confundia o precário correio, que desconhecia que cá nas Minas também havia um Pará. Mercadorias e correspondências inúmeras vezes foram parar no Estado do Pará, ocasionando prejuízos a muitos.
            Visando solucionar a questão, o Presidente da Câmara e Agente Executivo da Cidade do Pará, Torquato de Almeida, solicitou ao governo do Estado a alteração do nome do Município. A reivindicação transformou-se na Lei Estadual Nº 806, de 22 de setembro de 1921, que alterou a denominação do Município e da sua sede para Pará de Minas.
            Em uma anotação do pesquisador Robson Correia de Almeida, arquivada no Museu Histórico Municipal, consta que a idéia da alteração do nome da cidade surgiu em uma das visitas que Torquato de Almeida fez à casa de seu irmão Francisco Torquato de Almeida Júnior, mais conhecido como Chiquinho Torquato. Comentando os transtornos que o simples nome “Pará” ocasionava, foi interrompido por Rita Guimarães, cunhada do irmão, que ouvia atenta:  “É fácil resolver o problema, Torquato! Não existe o Pará do Norte? O nosso passa a ser Pará de Minas”. A sugestão foi aplaudida por todos os presentes.
           Aqui, faço parênteses para compartilhar com vocês uma hipótese. Quem sabe, poderão me ajudar a constatar se é verdadeira ou não, até mesmo por ter ouvido alguém mencionar algo a respeito do que irei relatar. Raciocinem comigo, já cientes da sugestão para a alteração do nome da cidade, mencionada no parágrafo anterior. Vamos lá: o jornal “Pará de Minas”, cujo proprietário era Torquato de Almeida, surgiu em 1918. Confrontando as datas do seu aparecimento, 1918, e a da lei que alterou a denominação da cidade, 1921, acredito que o nome do jornal foi escolhido como uma forma de difundir aquele que seria o novo nome do Município. Vejam porquê: sabemos que a alteração do nome de uma localidade requer apoio comunitário, ou seja, vontade popular, e não somente apoio político, que é imprescindível no caso. Essa alteração também não é feita da noite para o dia, leva tempo, mesmo com uma sólida justificativa como a apresentada por Torquato: os problemas de desvios de mercadorias e correspondências, provocados pela denominação “Pará”, frequentemente confundida com o Estado. Também sabemos que, concomitante ao apoio da comunidade, faz-se necessário o apoio político, quando os procedimentos legais necessários são providenciados. Isso leva tempo... Se o nome do jornal “Pará de Minas” é bem anterior à alteração do nome do município, certamente visava tornar os vocábulos reunidos mais  familiares para a comunidade. Perfeita estratégia de marketing, como denominamos hoje ações desse tipo.
           Não sabemos se nossa hipótese é verdadeira. Mas sabemos ser verdadeira a visão de longo alcance, futurista, do qual era dotado o líder da comunidade naquela época. Tudo que Torquato de Almeida projetava visava também o futuro. As edificações que construiu o comprovam: Grupo Escolar Torquato de Almeida; Ramal do Pará; Grande Hotel, atual Casa da Cultura; o Hospital, entre outras realizações de grande representatividade. Obras orquestradas pensando-se também em servir à posteridade. Pois bem, o certo é que esse jornal semanal, “Pará de Minas”, veículo poderoso de comunicação do líder político, Presidente da Câmara e Agente Executivo, pelo nome adotado, foi o precursor da nova denominação do Município e de sua sede. Se involuntariamente, também não o sabemos. O certo é que foi o precursor do novo nome da cidade.
           O ano de 1921, o penúltimo da administração Torquato de Almeida, chegou. O Município, dois dias após as comemorações da sua primeira emancipação político-administrativa, passou a denominar-se Pará de Minas por força de Lei Estadual. Pará, sim, mas de Minas Gerais! O dia era 22 de setembro. Até hoje não se sabe de notícias sobre extravios de mercadorias e correspondências.


* Ana Maria de Oliveira Campos é pesquisadora da história de Pará de Minas. Texto veiculado no jornal local "Diário", de 30.06.2009, pág. 8.

   

 

25 de março ou 20 de setembro, aniversário de Pará de Minas?

                                                                                                                 Por Ana Maria Campos*

           O ano era 1959. Setembro, o mês. A população festivamente comemorou os cem anos do município de Pará de Minas, com inúmeras promoções. Não se questionou se a data era aquela mesma. Explico: o município do Pará foi suprimido em 1872, sendo a última instalação datada de 25 de março de 1876. Seria melhor parar por aqui. Além do ano, o dia e o mês são divergentes da data que se tem comemorado.  Mas vamos em frente... Tentarei me fazer entender.
          O fato é que, com as comemorações do Centenário de Pará de Minas em 1959, oficializou-se a datação da primeira instalação da Vila do Pará como aniversário da emancipação político-administrativa de Pará de Minas. Procedimento correto quando há somente uma instalação do município, mas não é este o caso de Pará de Minas. Vejamos: a primeira instalação da Vila do Pará ocorreu em 20 de setembro de 1859, ato que elevou o arraial do Patafufo a município, emancipando-o político-administrativamente de Pitangui, ao qual anteriormente pertencia. 
          Independente político-administrativamente o município permaneceu até 1872, quando pela Lei Provincial Nº 1889, de 15 de julho, ele foi suprimido. O motivo para tal ato não se justifica, pois foram as desavenças políticas entre os correligionários dos partidos Conservador e Liberal que levaram à supressão da Vila do Pará, sendo seu território integrado novamente ao de Pitangui, de quem havia se emancipado.
          A discórdia política ocorreu porque os liberais, que predominavam na Vila do Pará, não davam tréguas aos conservadores (DINIZ, 1964: p.141). Estes, em represália, solicitaram ao deputado do partido, que era majoritário na Assembléia, Dr. Gustavo Xavier Capanema, a supressão da Vila (op.cit). Na sessão de 29 de maio de 1872, esse deputado do partido Conservador encaminhou o projeto, pronunciando um intenso discurso depreciando o município, os administradores e os habitantes da Vila do Pará. Foi apoiado por seus pares, e as interferências do colega deputado Antônio de Assis Martins, reforçaram o pedido de supressão da Vila do Pará. O aparte final do deputado A. Martins explicita a motivação meramente política do projeto: “É uma medida de grande conveniência, ao menos para descanso de nossos correligionários” (Ibidem:144).
          Naquele ano de 1872, em 14 de janeiro, os liberais haviam sido derrotados nas eleições realizadas para deputados à Assembléia Provincial. Os candidatos Dr. Gustavo Xavier da Silva Capanema, médico em Pitangui, o Capitão Antônio de Assis Martins, empregado público em Ouro Preto, ambos do partido Conservador, foram vitoriosos na Vila do Pará. "Era a derrota dos liberais" (DINIZ, 1964: p.171). A situação seria revertida nas eleições de 15 de agosto do ano seguinte, quando os conservadores foram esmagados no 2º distrito, a que a Vila do Pará pertencia (Op.cit, p.189).
         O projeto de supressão da Vila do Pará, assinado pela maioria dos deputados, foi aprovado sem discussão e se transformou na Lei Provincial Nº 1889, de 15 de julho de 1872, voltando o  território paraense a pertencer a Pitangui. 
         Dois anos depois, quando os ânimos políticos se apaziguaram, o deputado Antônio de Assis Martins, que com seus comentários ajudara o colega Gustavo Capanema a suprimir a Vila do Pará, apresentou na sessão de 13 de novembro de 1874 o projeto restaurando-a, que se transformou na Lei Provincial Nº 2.081, de 23 de dezembro de 1874.
         O município do Pará havia sido recriado por Lei, faltava sua reinstalação para que os administradores eleitos pudessem atuar. Um ano e três meses se passaram, como da primeira vez, para essa instalação da Vila do Pará se concretizar. A importante cerimônia aconteceu em 25 de março de 1876 e, desta vez, foi comandada por um paraense, Cornélio Augusto Moreira dos Santos, Presidente da Câmara de Pitangui. Definitivamente a Vila do Pará se tornava independente. Aleluia!!
         Vamos retomar o raciocínio do início do texto, se estaria mesmo correto considerar como aniversário do município a data da primeira instalação da Vila do Pará, 20 de setembro de 1859, uma vez que houve a segunda, em 25 de março de 1876. Se essa última datação fosse tomada como referência, o aniversário do município seria em 25 de março e este ano, 2009, estaríamos comemorando somente 133 anos de emancipação político-administrativa. Mas, isso não foi o que ocorreu em 1959. Na ocasião, a primeira instalação da Vila do Pará é que foi referência. Historiadores, administradores, comunidade em geral, decidiram comemorar o Centenário de Pará de Minas naquele ano. Basearam-se, portanto, na primeira instalação do município do Pará, 20 de setembro de 1859. 
        Certamente, o tempo (1872-1874) em que a Vila do Pará ficou suprimida até a sanção da nova lei recriando-a, acrescido de outro (1874-1876) para a sua nova instalação, foram intencionalmente apagados da memória dos munícipes, como se quisessem esquecer o motivo insensato, torpe, não proporcional à gravidade da conseqüência que acarretou: a supressão da Vila do Pará no longínquo ano de 1872.
         Provavelmente também tenha sido analisado que o curto espaço de tempo em que a Vila do Pará desapareceu, tornou-se insignificante frente ao contexto histórico e ao centenário que se apresentava naquele ano de 1959. A amnésia comunitária, por outro lado, sinalizou também a superação do fato lastimável para o município, além de demonstração do nobre coração desta brava gente patafufa. Assim pensando, a data 20 de setembro se legitima para ser comemorado o aniversário do município de Pará de Minas.


Fonte:
DINIZ, Sílvio Gabriel. Quatorze Anos de Eleições na Vila do Pará, M.G. (1861 – 1875). In: Revista Brasileira de Estudos Políticos. Belo Horizonte: Editora Universidade Federal de Minas, 1964. Coletânea particular de Robson Correia de Almeida, pp.139 -191.

* Ana Maria de Oliveira Campos é pesquisadora da história de Pará de Minas.

No Sesquicentenário de Pará de Minas, o seu Centenário

                                                                                                         Por Ana Maria Campos*

                  Após a releitura temporal que fizemos no texto anterior “25 de março ou 20 de setembro, aniversário de Pará de Minas?”, quando foi concluído que a data da primeira instalação da Vila do Pará, 20 de setembro, foi legitimada como aniversário de Pará de Minas, voltemos no tempo até ao ano da graça de mil novecentos e cinquenta e nove, quando foi comemorado o Centenário do Município. 
                 Para o bom êxito das comemorações alusivas aos cem anos de Pará de Minas, várias comissões temáticas foram montadas, sob a chancela da Prefeitura, na administração do prefeito Dr. Edward Moreira Xavier. Todas as manifestações da inteligência e cultura da comunidade integraram o programa festivo: noites de arte, jogos de basquete e futebol, cerimônias cívicas e religiosas, palestras, jornada médica, exposições industrial e histórica, inauguração de obras, entrega de títulos de cidadania, demonstração de ginástica feminina moderna, audição de coral, baile com a coroação da Rainha do Centenário, demonstração de ginastas masculinos e de cães amestrados, acrobacias da esquadrilha da fumaça, desfile de estudantes e de  carros alegóricos, espetáculo pirotécnico, show em praça pública, coquetel dançante nos salões do Centro Literário, entre outros. Para as crianças foi preparada uma inesquecível rua de recreio na via principal da sede do município até a Praça Padre José Pereira Coelho, que todos já chamavam de Praça da Matriz. A Rua Benedito Valadares, chamada de “Direita”, foi invadida por elas e pelos profissionais da Diretoria de Esportes de Minas que, utilizando-se dos equipamentos que trouxeram, incansavelmente brincavam com as crianças, apoiados irrestritamente pelas valorosas professoras dos grupos escolares da cidade. No Estádio Ovídio de Abreu, popularmente conhecido como Campo Paraense, os alunos ginastas do Departamento de Instrução da Polícia Militar fizeram uma memorável apresentação, seguida por outra com os seus treinados cães pastores alemães. Apropriadamente, algumas palestras versaram sobre a história da nossa terra. Um dos palestrantes, Senador Benedito Valadares, nosso conterrâneo, com brilhante trajetória política iniciada como vereador a Câmara de Pará de Minas, e cujo avô, Dr. Francisco Cordeiro dos Campos Valladares, instalou a Vila do Pará em 20 de setembro de 1859, deixou registrado no livro “Na Esteira do Tempo” (1966: 147-156) a sua fala referente ao Centenário de Pará de Minas, proferida no Centro Literário Pedro Nestor e também no Senado Federal. Ele inicia falando sobre a obra pioneira da construção de Brasília, que no ano seguinte seria inaugurada, passando a seguir a discorrer sobre Pará de Minas. Reproduzo-a na íntegra por sua relevância:
                 "Às vezes, a gente tem vontade de chorar. Não é por causa da dor física, nem tão pouco do sofrimento moral. Aquele que marcha de coração bom pelos trilhos tortuosos de nossas montanhas e atinge os altiplanos, onde o horizonte ao longe se confunde com o céu, não pode deixar de se comover até às lágrimas. E é o mesmo que freia o veículo, que segue a toda velocidade pela avenida asfaltada, e contempla com os olhos umedecidos o monumento a Fernão Dias. A bandeira, o machado e o trabuco, símbolos da esperança e da bravura do velho sertanista, governador da terra das esmeraldas, não podem ser encarados sem se lembrar dos dias sombrios de sua heróica existência. Toda obra de pioneiro toca a sensibilidade pelo sacrifício que encerra. O móvel é discutido. Acham uns que é a ambição em todas as suas modalidades. Outros, o desejo de servir. Somos inclinados a adotar a segunda hipótese. Em certa ocasião, perdoai a narrativa, indo de Sacramento a Araxá, cheguei ao alto do Barreiro. Era ao claro-escuro da ave-maria. De repente o vale, outrora moradia de elefantes e depois de batráquios, surgiu com seus  lagos, parques e edifícios monumentais, inundado de luz. Vendo afinal realizado, com enorme sacrifício do povo mineiro, aquele gigantesco empreendimento no interior do País, em benefício de nossa civilização, fui presa de comoção profunda  e invencível. As realizações dos pioneiros  só serão julgadas com justiça inteira pela posteridade. Assim será Brasília.
                  Mas devo falar é de Pará de Minas e em vez de apontar o futuro, voltar ao passado até 1859. Conviria mesmo fossemos além e percorrêssemos as veredas que iam de Mateus Leme a Pitangui, na faixa limitada pelos Rios Pará e Paraopeba, e assistíssemos ao labor dos faiscadores do ouro. Seria interessante conversar com Domingos Rodrigues do Prado e Mateus Leme sobre as suas esperanças e desenganos. Ou então, penetrarmos com passo firme o domínio da lenda e descermos na residência de Manoel Patafufo, que deu o nome à localidade, ali na rua São José, à margem do Ribeirão Paciência, em frente à linda queda d'água da atual propriedade de D. Zezé Castelo Branco. E estaríamos andando seguros, pois, no dizer de Alexandre Dumas, os palácios cairão em ruinas, as cidades se cobrirão de pé, mas nunca se pode destruir ou enterrar uma lenda. 
                 O que comemoramos hoje, entretanto, é o centenário de Pará de Minas, a partir da sua instalação. Aos vinte dias do mês de setembro do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil oitocentos e cinquenta e nove, trigésimo oitavo da independência do Império do Brasil, na Sala das Sessões da Câmara Municipal, meu avô, o Dr. Francisco Cordeiro dos Campos Valladares, Presidente da Câmara de Pitangui, instalava a vila do Pará.  Daí prá cá muita coisa mudou, menos o espírito de religiosidade do povo que continua a ser o mesmo professado na Capela de Nossa Senhora da Piedade do Patafufo. Por isso mesmo é feliz. No dizer de Vander Meersch, nem o dinheiro, nem o poder, nem a glória, nem ainda o saber, nada vale se não se tem fé em outra coisa que não é deste mundo.
                Contam-nos que existia nesta cidade um preto chamado Malaquias, homem inteligente e inculto, tronco da árvore genealógica que deu famoso artista, o palhaço Benjamim de Oliveira. Malaquias era orador popular de todas as festas. Em certa feita, a cidade se engalanou para receber seus filhos, os irmãos padre Zeca e padre Silvestre, que acabavam de se ordenar. Na grande manifestação, que então se realizava em frente à casa dos homenageados, Malaquias não se conteve e começou seu discurso: 'Meus Senhores, que horror uma mãe com dois filhos padres!' Risada geral, mas Malaquias não se deu por achado e continuou sua arenga. Estes dois sacerdotes paraenses, admirados e queridos de todo mundo, concorreram de maneira decisiva para a manutenção do espírito profundamente cristão dos habitantes deste Município.
               O povo paraense viveu em torno de sua igreja, e foi na porta da Matriz desta cidade que tive o primeiro contato com a realidade da vida. Aos sete anos de minha idade vim da roça para me matricular na Escola Primária de D. Joaquina Orsini, onde já estava meu irmão mais velho. À noite fomos à reza. Seguiu-se o clássico leilão de prendas. Dentre estas se encontravam diversos pássaros. A meninada irrequieta fazia lances. Meu irmão aventurou trezentos réis e arrematou uma siriema. Ouvindo o seu grito, e sem saber de que se tratava, mas querendo imitá-lo, bradei a todos pulmões: 'oitocentos réis'. Na manhã do outro dia tive a surpresa de ver chegar, na casa em que morava, um pássaro que havia arrematado sem querer e sem dinheiro. Valeu-me a lição, desta data em diante comecei a dar valor à palavra e jamais aventurei lance que não pudesse sustentar.
               Pará teve, nos cem anos de sua existência, trinta e sete agentes executivos, a começar em 20 de setembro de 1859, por Francisco de Assis dos Santos Reo, e a terminar hoje, 20 de setembro de 1959, no atual, aqui presente, Dr. Edward Moreira Xavier. As transformações por que passou, no decurso do tempo, foram numerosas, chegando até, para evitar confusão, a ser crismada com o nome de Pará de Minas. Seu progresso, inclusive industrial, se inscreve no haver de seu povo econômico e trabalhador, mas também se registra no esforço de seus honestos administradores. Não fica bem dizer quem realizou mais; temos de levar em conta a época da execução de qualquer iniciativa. O Serviço de água, com conduto de madeira, do qual se tirava um anel para a bica de cada proprietário, tinha o mesmo valor para os de então, que a atual canalização de água potável. Se naquele tempo as instalações eram deficientes para a população, talvez ainda hoje o sejam, em que pese o esforço dos últimos administradores. Os lampiões de esquina, que clareavam a cidade, produziam o mesmo efeito, no espírito do povo, da luz elétrica que a ilumina agora. Serviço público é uma obra de igreja. O alicerce é difícil; mais penoso ainda o acabamento, que não termina nunca. Todo administrador entra com seu contingente, construindo ou demolindo o que os outros edificaram, para compor de novo. Se não considerarmos o valor dos feitos no tempo e no espaço, poderão, com a transformação que já se prevê, achar, daqui a um século, que a nossa geração pouco fez para o Município. Entretanto, Pará de Minas é uma cidade atualmente provida de quase todos os recursos existentes nas comunas modernas. Dos mais variados meios de preservação do bem-estar, da saúde e do vigor de seus habitantes, cuja inteligência e cultura cada vez mais se aprimoram.
              A sua política foi muito agitada no passado, mas isto nenhum mal fez ao Município, antes lhe trouxe alguns benefícios. No tempo do Império, os partidos Conservador  e Liberal se digladiavam aqui da maneira mais violenta. Contam-nos que, de uma seção eleitoral que se processava na igreja, o político Valico saiu sem uma das abas da casaca. Tendo João Jacinto de Mendonça recebido instruções para propalar que o Partido Liberal também estava armado, achou de bom alvitre reunir eleitores, entregar-lhes armas e comandá-los pelas ruas da cidade. Não deixou de ser útil o expediente, porque os conservadores, diante dessa exibição bélica, se aquietaram. Se o espírito combativo e apaixonado do povo era este, mais realça o gesto de Antônio José de Melo que, diplomado e convocado vereador, fez uma representação proclamando entender que não tinha sido eleito. Feita a verificação, comprovou-se que na realidade vencera Manuel Antônio Moreira dos Santos por pequena diferença de votos. 
             Durante o civilismo a luta política que aqui se travou concorreu para abreviar a construção da estrada de ferro que corta o Município, iniciativa de Torquato de Almeida, auxiliado, assim, de certo modo, por seus adversários. Mais tarde, o movimento político de oposição, iniciado por José Alves Ferreira de Melo, deu um Governador de Estado. É bem verdade que todos os partidos, esquecendo dissensões, concorreram para que isso acontecesse.
            Esta é uma terra feliz: teve sempre bons administradores, notáveis guias espirituais, a começar pelo Padre Paulino Alves da Fé e a terminar no atual vigário, Padre Hugo Bittencourt; justiça incorrupta, desde o dr. Aristides Godofredo Caldeira, passando por Pedro Nestor, cujo nome, como advogado que fui na sua jurisdição, me sentiria mal se não citasse, até os drs. Euripedes Correia de Amorim e Márcio Morais aqui presentes. Escolas com dedicadas professoras e presentemente ótimos sistemas de educação dirigidos por franciscanos e salesianos.
           Pará de Minas é o conjunto de diversas famílias que se entrelaçaram e estão representadas em todas as atividades do Município. Encontram-se pessoas da mesma família no meio operário e no executivo industrial; no comércio, como empregados e empregadores; na lavoura e nas profissões liberais, na judicatura e como representantes do povo no legislativo municipal, estadual e federal. Em resumo, Pará de Minas é uma grande família de trabalhadores. Mas o que mais se admira é que os paraenses procedem como aconselha o filósofo, passam de uma ação social a outra, pensando sempre em Deus."

           As palavras que o Senador Valadares proferiu no Centenário de Pará de Minas são preciosos testemunhos sobre nossa terra, que não podem deixar de serem revisitadas e reabsorvidas, principalmente neste ano do Sesquicentenário.   


*Ana Maria de Oliveira Campos é pesquisadora da história de Pará de Minas.

Doação do livro "Dona Joaquina do Pompéu. Sua História e Sua Gente"

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Em 17 de julho de 2009, o Museu Histórico de Pará de Minas recebeu a doação do livro "Dona Joaquina do Pompéu. Sua História e Sua Gente", obra em três tomos, de autoria do Dr. Deusdedit Pinto Ribeiro de Campos, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. O autor recebeu a solicitação da doação no IHGMG, durante conversa com a diretora Ana Maria Campos. Obra de grande vulto, abrangendo a história da grande matriarca de Minas Gerais e a extensa descendência que deixou, o livro é referência na genealogia das famíílias mineiras, principalmente das geradas no Centro-Oeste do Estado. A obra foi incorporada à biblioteca da instituição e lá poderá ser consultada.

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