Museu Histórico de Pará de Minas

A trajetória de Valadares


                                  No cemitério de Pará de Minas, logo à entrada, repousa Benedito Valadares. Dorme para sempre o mestre da política, cujas lições vencerão os tempos, (...).
                                  Homem de lealdade partidária, dominado sempre pelo estilo mineiro, Benedito Valadares tinha dois componentes fortes na sua personalidade: a simplicidade, dom pessoal, e a bravura nas horas das decisões. Permanentemente acima das maledicências e do fraco humor dos adversários, respondia às análises com o comportamento impertubável de um governante que traçou em definitivo os rumos do desenvolvimento deste Estado.
                                  Criando lideranças novas na área municipal, não prescindiu, entretanto, da colaboração de figuras responsáveis da nossa vida pública, muitas das quais convocou para seu secretariado. Era a soma de valores humanos, capaz de garantir Minas em nível de destaque no plano nacional.
                                   Benedito Valadares, que Getúlio Vargas escolheu para interventor em nosso Estado, foi confirmado na chefia do executivo mineiro como governador. Nos anos seguidos em que exerceu aquela alta função, foi deixando a marca de uma atuação em que se torna visível o interesse em servir à causa do povo.
                                   Infenso à demagogia, preferiu agir nos moldes da realidade. Deu-se bem, pois até o último dia de seu mandato, manteve de pé seu prestígio de homem sempre consultado quando problemas graves reclamavam solução.
                                 A palavra de Valadares era prudente, moderadora, conservando o equilíbrio que não pode faltar nos momentos críticos. O bom senso que tantas vezes evitou a precipitação, que em política, principalmente, é um desastre.
                                 Da pacata Pará de Minas para o Palácio da Liberdade, uma escalada que muitos não conseguiram, Valadares não desmereceu a distinção feita por Vargas. Partiu para uma carreira brilhante, notada pelos que analisam nossa história republicana. (...)
                                Homem que retornou à simplicidade do torrão em que começou sua carreira, com a qual se tornou um dos expoentes da cena política do seu tempo.


(Reprodução de parte do texto do jornalista Antônio Tibúrcio Henriques no jornal “O Luziense, de 12/1980).

 

 

Benedito Valadares


                               Benedito Valadares Ribeiro nasceu em Pará de Minas (MG), em 04 de dezembro de 1892, na fazenda da Cachoeira, atualmente pertencente ao município de Florestal. É filho do Cel. Domingos Justino Ribeiro e Antônia Valadares Ribeiro. Fez o curso primário em Pará de Minas e o secundário em Belo Horizonte.
                               Advogado, diplomou-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1920. Antes, havia concluído o curso da Faculdade de Odontologia de Belo Horizonte, mas não se dedicou a esta profissão. Regressou à  cidade natal após concluir seus estudos, exercendo a advocacia e atuando no magistério como professor do Ginásio Paraense. Simultaneamente a essas atividades, iniciou sua carreira política como vereador em 1923. 
                               Em 1930 deu apoio à candidatura presidencial de Getúlio Vargas, lançada pela Aliança Liberal, coligação que reunia os setores políticos dirigentes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, além das oposições dos demais Estados. Quando o movimento revolucionário que levou Vargas ao poder foi deflagrado, em outubro de 1930, chefiou o movimento político em Pará de Minas e assumiu o poder executivo do município, sendo confirmado no cargo de Prefeito por Olegário Maciel, Governador do Estado de Minas Gerais. Permaneceu nessa função até 28 de fevereiro de 1933.
                               Íntimo colaborador do governador mineiro, participou do combate ao movimento revolucionário desencadeado em São Paulo contra o governo federal como chefe de polícia do destacamento militar, em 1932. Estava iniciada a minha ascensão na carreira política, escreveu  sobre o episódio no seu livro de memórias. No ano seguinte, filiado ao Partido Progressista (PP), foi incluído na chapa do partido às eleições para a Assembléia Nacional Constituinte. Derrotado nessa primeira tentativa de chegar à Câmara Federal, só obteve seu mandato nas eleições suplementares realizadas meses depois.
                              Em setembro de 1933 a política mineira foi abalada pela morte do governador Olegário Maciel. Para a sua sucessão apresentaram-se dois fortes candidatos : Gustavo Capanema, que havia assumido o governo interinamente logo após a morte de Olegário reivindicava a sua efetivação no cargo, e Virgílio de Melo Franco, importante articulador do movimento revolucionário em 1930 e que também pleiteava junto a Vargas sua nomeação como interventor federal no Estado. A importância de Minas Gerais no cenário político nacional atraía a atenção de políticos de outros estados para a sucessão estadual. Assim, enquanto Capanema recebia o apoio decidido do governador gaúcho Flores da Cunha, Virgílio de Melo Franco era apoiado pelo ministro Oswaldo Aranha. Pressionado, Vargas surpreendeu a todos ao indicar  para o cargo um político de pouca expressão e completamente desvinculado das facções em disputa. Benedito Valadares foi nomeado Interventor Federal em Minas Gerais, em 12 de dezembro de 1933, e empossado no dia 15 do mesmo mês. Nos anos seguintes, Valadares se tornaria um dos mais fiéis aliados de Vargas nos embates políticos travados pelo presidente.
                             Em abril de 1935, dia quatro, foi eleito pelos deputados constituintes mineiros como governador constitucional do Estado. Esteve nos anos seguintes no primeiro plano das articulações com vistas à sucessão presidencial, prevista para janeiro de 1938. Acabou, porém, por apoiar decididamente o projeto continuista de Vargas, que em novembro de 1937 cancelou as eleições e instaurou a ditadura do Estado Novo. Em seguida, foi confirmado à frente do governo mineiro, onde permaneceu até 29 de outubro de 1945, quando Vargas foi deposto. Nesses anos, consolidou sua imagem de político hábil. Ao mesmo tempo, seu jeito simples foi responsável pelo surgimento de um rico anedotário sobre sua pessoa.
                            Com o final da segunda grande guerra (1939/1945), onde os governos ditadores europeus foram derrotados, a política brasileira agitou-se querendo o fim do Estado Novo. É nesse momento que nasce o  Partido Social Democrático (PSD), agremiação organizada a partir do prestígio que os antigos interventores ainda detinham, dando apoio irrestrito à candidatura presidencial vitoriosa do General Eurico Gaspar Dutra, ex-ministro da Guerra no governo de Vargas. Valadares exerceu a presidência nacional do PSD por alguns anos. Em MG foi o presidente regional até o Ato Institucional Nº 2, de 1965, que extinguiu os treze partidos políticos, reunindo sob a legenda do PSD as principais forças políticas do estado.
                             Com a queda do Estado Novo, em 29 de outubro de 1945, deixou o governo de Minas se elegendo deputado federal constituinte em 2 de dezembro do mesmo ano. Assumiu o mandato em fevereiro de 1946.  Foi derrotado na disputa por uma vaga no Senado Federal por Minas Gerais, em 1947. Reelegeu-se para a Câmara Federal em 3 de outubro de 1950 e, em 3 de outubro de 1954, finalmente, obteve o mandato de Senador, que foi renovado em 1962, exercendo-o até janeiro de 1971.
                             Em 1964, apoiou o golpe que afastou João Goulart da presidência da República. Em seguida, defendeu o apoio do PSD à ditadura militar. Em 1966, com a extinção dos antigos partidos, ingressou na Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação do regime. 
                             Em 1970 não se candidatou à reeleição e, em 02 de agosto, compareceu à convenção da Arena, em Belo Horizonte, para votar e se despedir da vida pública. Fez o seguinte   pronunciamento: Nesta oportunidade, cumpre-me declarar que não sou mais candidato ao Senado da República, a fim de dar oportunidade a que outros possam prestar serviços à Nação. Assim procedendo, fico de acordo com a minha consciência e com a minha dedicação ao Estado de Minas Gerais. Estou certo de que os mineiros saberão escolher representantes à altura das tradições do nosso Estado, para que sejam solucionadas as dificuldades da hora presente. Contarão, naturalmente, com o meu modesto apoio, onde quer que eu esteja.
                              Benedito Valadares deixou o Senado no início de 1971, encerrando sua carreira política. Faleceu no Rio de Janeiro, em 2 de março de 1973, sendo sepultado em Belo Horizonte, no cemitério do Bonfim. Após seis anos, seus restos mortais foram trasladados para Pará de Minas, em 2 de março de 1979.


Fontes:

- Arquivos Muspam
- http://www.cpdoc.fgv.br/nav_historia/htm/biografias/ev_bio_beneditovaladares.htm

Quarta no Museu: Parabéns, Pará de Minas!



Comemore os 151 anos de Pará de Minas!

O Ribeirão Paciência (em prosa e verso)

                                                        Ao povo paraense pela passagem do aniversário de emancipação da cidade [de Pará de Minas].
                                                                                         Maria da Graça Menezes Mourão
                                                                              Especialista em História e Cultura de Minas Gerais
                        

                          O Ribeirão Paciência foi o caminho natural das águas. Em suas margens caminharam os bandeirantes que nele se abasteceram, mataram a sede do cansaço, banharam-se, lavando a poeira dos caminhos.
                          O paulista não era como o português. Como indígena, incrustado na origem mameluca buscava as águas, buscava os pássaros, dormia na rede, andava descalço. Incrustado nas roupas do mato, nas horas de descanso, espraiava-se nas águas virgens dos caminhos.
                          E o ribeirão caminhava com eles, com paciência, copiando nas pedras as páginas da História. E o remanso calmo, apenas interrompido por dois funis, encachoeirava-se pelos lados do Romão e dos Macacos. Na paciência dolente dos que acreditam que o rumo é certo, serpenteava por entre os morros que um dia seriam Piteira, Bom Sucesso, Santa Cruz, Andaime, Alto...
                          Os moinhos cortariam suas veias menores, córregos de seu abastecimento. Mas, antes de tudo, seu destino era reverter em prodigalidade:
                          As choupanas que logo se veriam construídas...
                          O fubá na panela virando angu com ensopado de galinha...
                          E o fogo crepitando, estalando a lenha do dorso de suas margens.
                          E o mugir dos bois, o ranger dos engenhos se misturando nas brisas de águas rolando nas pedras. Cheiro forte das garapas nos tachos, transbordando, nos caixotes das rapaduras... cheiro de meloso, cheiro de cana na Várzea do Engenho, espalhado pelo vento dançante do arrozal ainda verde, maturando com o sol as espigas do amanhã...Barulho de palha de milho quebrada dos sabugos. Algodão separado no murmurinho da criançada brincando nos carrapichos das saias brancas, urdidas no algodão da safra passada,
                         levantadas,
                         aparando capuchos e olhares,
                         desenhando nos homens
                         volúpias formas chamando a noite...

                        Paciência... paciência...paciência...

                       O ribeirão saiu da Mata do Cego, alimentou-se da Água Limpa, carregou no bojo a “madre d’água”.
                       Ouro, ouro, ouro!
                       Caminhou junto com o caminho para o Pitangui, que levava para os Guardas, que levava para Bambuí, que levava para o Córrego da Anta... que levava para o Córrego do Veado... para Estrela, para Indaiá, Paracatu, que levava para o Vainhu:
                       Águas que levam para outras águas, Pará; que levam para outras águas, São Francisco que leva para o mar...

                      O ribeirão grande viu nascer a capelinha,
                      Vigário Geral João Pimenta considerou ser bom lugar...
                      Veio o Bispo que consagrou ser bom para arraial novo... 
                      Veio o tropeiro trazendo saudades de longe,descansou, alimentou a tropa...
                      no Paradouro da Estalagem do Patafufo.
                      Veio gente da terra comprou rapadura, bebeu gole da boa do vizinho...
                      Na venda, Maria comprou  meadinha,levou linha, sianinha.
                      Sinhazinha perguntou por carta...
                      Sinhá borda olhando a cruz lá no morro,
                      sondando com os pensamentos a curva do  caminho.

                     Paciência... paciência ... paciência...

                     Um dia, o rio acordou da sua paciência letárgica. Viu que as fazendas estavam sumindo no meio do casario... Espiou direito e encontrou um arraial... A Várzea do Engenho ainda continuava calma, serena, paciente. O arroz crescia adiante.
                     As moças no domingo buscavam capim de Presépio. E os rapazes apanhavam barba de pau. E um ano, outro ano, Paciência... Antes que suas águas desaparecessem pelas bandas do curtume o rio divisou as casas brancas, azuis, assobradadas. O alto da torre que agora era Matriz, a cruz no alto do Morro, que agora era o Cristo.

                    Então o Ribeirão Paciência vaticinou:
                    O que levo em minhas águas?
                    Levo saudades choradas.
                    Levo imagens recordadas.
                    Levo sons adormecidos?

                    Paciência... paciência ... paciência...
                    Paciência se esgotou...

                    Vou levar a cidade comigo,
                    Único meio de fazê-la lembrar...
                    Que eu vi os bandeirantes chegando,
                    Que eu vi suas roças crescendo,
                    Que eu vi suas crianças nascendo,
                    Que eu vi suas mulheres amando...
                    Que eu vi tudo...
                    Até o descaso que tiveram.
                    Mas eu levo a cidade comigo...
                    Arrastando-a forçosamente,
                    Formando os bairros,
                    Teimando os sítios
                    Nos últimos arroubos de sobrevivência.

                    Ah...Paciência!
                    Paciência, paciência, paciência...

                   Quem sabe um dia vão cuidar de mim.
                   E então encontrarão minhas veias de abastecimento,
                   Vão tentar limpar as minhas margens,
                   E vão lembrar de ouro, diamantes, pedras preciosas.
                   E então Paciência, esse dia chegará...
                   Mas o ribeirão não vai estar lá,
                   Desapareceu.


                                                                                                              Em 06.08.2005





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