Museu Histórico de Pará de Minas

Manoel Gomes Baptista, Patafufo?

                                                                                  Gilson Magela Campos
                                                                                  Graduado em História pela FAPAM 
                                                                                   Pós-graduado em História e Cultura Afro-Brasileira pela PUC/MG
                                                                                   Genealogista


Partindo da informação que Dr. Wilson Baptista, 92 anos, advogado, neto de José Marciano Gomes Baptista, o “Pirula”, apelido daquele que foi um dos primeiros boticários paraenses; bisneto do Cônego Dr. José Marciano Gomes Baptista, portanto, tetraneto do Alferes Manuel Gomes Baptista, o Patafufo [1], vamos evidenciar fatos para entendermos os mistérios do lendário “Diamante do Abaeté” que trouxe à nossa realidade a figura mítica do Alferes Manoel Gomes Batista, até então, o Patafufo. 

Nas Efemérides Mineiras, de José Pedro Xavier da Veiga, na data de 24/05/1797, temos a informação transcrita do Recopilador Mineiro, de 1º de Agosto de 1872, com relato escrito pelo Rev. Dr. José Marciano Gomes Batista:
                                                                                          O Alferes Manuel Gomes Batista, paulista de origem e até descendente de caiapós, estabeleceu-se em Lavras do Funil; e passando por ai um outro paulista, seu parente e amigo, deu-lhe um roteiro que indicava a mata da Corda (...) o alferes Manuel Gomes, nos fins de 1796, dirigiu-se para àquelas paragens (...). [2]
  
Na obra O Diamante do Abaeté & Outros Contos, Rubens Fiúza transcreve uma citação do Cônego Dr. José Marciano que se refere ao seu avô:
                                                                                          Eu não conheci meu avô Manoel. Quando ele morreu, em 1809, eu ainda não era nascido. Ele morreu na sua Fazenda das Gerais, no município de Dores Indaiá, em conseqüencia de uma apoplexia, doença que naquele tempo eles chamavam pelo estranho nome de “ramo de estopor”. Morreu relativamente moço, pois mal tinha passado dos 60 anos de idade. [3]
  
Perfazendo a genealogia do Alferes Manoel Gomes Batista, podemos desmistificar algumas lendas e comprovar o que é de fato verdadeiro. Seria incoerente afirmar que ele é realmente o Patafufo, responsável pelas origens de nossa atual Pará de Minas. Fato é que, as verdades históricas são apontadas através de documentos que confirmam sua origem.

Através do processo De Genere, vita et moribus de José Marciano Gomes Batista, datado de 1833, sob os cuidados do Arquivo Eclesiástico da Cúria de Mariana, podemos verificar o seu veio familiar:
                                                                                      José Marciano Gomes Baptista, natural e baptizado na V.a. de Sabará deste Bispado, filho legitimo do Cap.m Antônio Gomes Bap.ta e D. Narciza Adriana dos Stos. esta natural e baptizada na Villa de Sabará, e aquelle natural e baptizado na Freg.a  Lavras do Funil (...) pelo lado Paterno he Netto de Mel. Gomes Bap.ta, e D. Ignez Clara de Jesus (...) ambos naturais comarca de São João dEl Rey. [4]

Nessa citação, confirmamos a filiação e ascendência do referido habilitando às ordens e reportando ao Arquivo Eclesiástico da Cúria de São João del Rei, no livro 02 de casamentos da Freguesia de Carrancas, encontramos o seguinte registro de matrimônio:
                                                                                     Aos dose dias do mês de Abril do anno de mil sette centos e settenta e quatro, nesta Parochial Igreja de Nossa Senhora da Conceipção das Carrancas e  Santa Anna das Lavras do Funil, sendo feita as tres canônicas admoestrações na forma do Sagrado Concilio e com Provisão do Reverendo Doutro Vigario da Vara desta Comarca, de Solteiros, Livres e dezempedidos pelas des horas do dia em prezença do Reverendo Parocho desta Freguesia Manoel Afonso e das testemunhas o Capitam Francisco Alves Sandim e João da Silva Ribeiro de Queirós celebrarão palavras de presente o Sacramento do Matrimônio Manoel Gomes Baptista filho legitimo de Manoel Gomes Batista e Maria Gonçalves da Rocha natural e baptizado na freguesia de nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo, e Ignes Gomes de Jesus filha legitima de Luis Gomes e de Ignes Clara de Jesus natural e baptizada nesta freguesia das Carrancas onde todos são fregueses e moradores e logo receberão as bençãos na forma do Ritual Romano de que fiz este assento que assigney. O Coadjutor Manoel Afs. da Cunha Per.a  [5] 

Analisando a certidão de casamento eclesiástico, acima transcrita, confirmamos que o Alferes Manoel Gomes Batista e Inês Gomes (ou Clara) casaram-se em 12/04/1774 em Carrancas/Lavras do Funil, ele natural de Borda do Campo, atual Barbacena, e ela de Carrancas/Lavras do Funil. 

Inês Gomes (ou Clara) nasceu em 1752 e foi batizada na Igreja Nossa Senhora da Conceição de Carrancas [6], filha do português Luiz Gomes Ferreira e Inês Clara Jesus, neta paterna de Martins Gomes e Felícia Cardosa e materna de Artur da Rocha, natural de Guaratinguetá e Maria das Neves, natural de Baependi.

Em 1807 Inês residia, provavelmente, na Fazenda das Gerais, pois no Livro 01 de assentos de batismos de Dores do Indaiá consta:
                                                                                 Aos 30 de 7bro de 1807 Baptizei e pus os Sanctos oleos a João f.o. Leg.mo de Lourenço Justiniano de Noronha e Maria Ter.a. da Assumpção forao Padrinhos o Alf. Mel. Gomes Bap.ta  subestabelecendo mais vezes por procuração Mel. Bap.ta Gomes e D. Ignez Clara de Jesus [7]

No Arquivo Eclesiástico da Cúria de Mariana, em um dos livros de assentos de batismos e casamentos da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo, localizamos o seguinte registro:
                                                                              Aos vinte e sinco dias do mes de Junho de mil Sete centos e quarenta e dous eu o Pe. Joze de Freitas, na pia baptismal desta freguezia de N. Sr.a. da Piedade da Borda do Campo Baptizei solennemente e puz os Santos Oleos a Manoel filho de Manoel Gomes e de sua Mulher Maria Gonçalves da Roxa forão Padrinho Manoel de Azevedo e madrinha (...) da Silva filha de Domingos Borges ela solteira todos desta freguezia e por ser verdade faço este acento hoje em dia, mes e era et supra. O Vig. Pe. Jozé de Freitas [8]
  
Com base nessa certidão, verificamos que o Cônego Dr. José Marciano desconhecia o local de nascimento de seu avô, porém tinha noção da idade aproximada do mesmo. Ainda, no mesmo livro onde se encontra esse assento de batismo, encontramos o casamento de seus pais conforme abaixo:
                                                                            Aos seis dias do mes de Setembro de anno de mil sete centos e quarenta e    hum pelo meyo dia nesta Igr.a. Matris de N.Sr.a. da Piedade da Borda do Campo feytas as denuciassoes na forma o Sagrado Concilio Tridentino e const. e Julgados sem impedimento algum pello Rev.o. D.or. Vigr.o. desta com.ca. Amaro Gomes de Oliveira eu o Pe. Joze de Freitas em minha prezenssa receberao in facie iclesia por pallavras de prezente Manoel Gomes Bap.ta. filho legitimo de Bautista João e de sua mulher e de sua mulher Antonia Gomes n.al da Frg.a. de São João de Chabam termo de Barcellos Arcebispado de Braga com Maria Gliz. da Roxa filha legitima de Simão Ayres Correa e de sua mulher Ignes Gliz. Natural da Villa de São Francisco das Chagas de Taubate deste Bispado do Rio de Janeyro e lhes dey as bençois forao testimunhas Fran.co. Luis Vitancor e Domingos Borges da Silva e Antonio da Silva e todos desta freg.a. e por ser verdade fiz este acento era dia e mês et supra. Vig.o. Declaro que forao julgados sem impedim.to pelo Re.do. D.or. Vigr.o. da vara desta com.ca asima mencionado. Vigr.o. O    Pe. Jozé de Freitas. [8]  

Manoel Gomes Batista, homônimos, pai de origem portuguesa, natural de São João de Chabam, Arcebisbado de Braga e a mãe paulista. A partir do documento acima, podemos desfazer as lendas que circundam a vida do português Manoel Gomes Batista que se perdera da bandeira de um Taques e que convivendo com os caiapós, casara-se com uma índia da tribo [1]. Na realidade, o dito português casou-se com a descendente de uma família tradicional, cuja ascendência já se encontrava em São Vicente e outros lugares de São Paulo desde a primeira metade do século XVI, descartando assim a descendência indígena direta.

Simão Ayres, que vivia em Taubaté-SP até 1708, sogro do português Manoel Gomes Batista, era bisneto de Diogo Arias de Aguirre, que veio para o Brasil mandado para S. Vicente e S. Paulo por dom Francisco de Sousa, vice-rei do Brasil, como capitão-mor governador e ouvidor da capitania com patente de 27 de Novembro de 1598, e tomou posse em S. Vicente a 18 de Dezembro do mesmo ano. Esta verdade consta do liv. de registro, Tit. 1598, fls. 21 a 23, que se acha na câmara de S. Paulo [9]

Ainda sobre os Aguirre, a obra Genealogia Paulistana nos informa que Diogo Arias de Aguirre casou em Santos com Marianna Leitão de Vasconcellos, f.ª de Antonio de Oliveira, cavaleiro fidalgo de dom João III, em cujo serviço passou ao Brasil, trazendo sua mulher Genebra Leitão de Vasconcellos. Este Oliveira foi o 1.° capitão-mor governador e 2.° loco-tenente do donatário Martim Affonso; e em 1553 passou Oliveira a S. Paulo e sua 1.ª povoação (Santo André) criou vila em 8 de Abril de 1553. [9]
  
O português Manoel Gomes Batista e Maria Gonçalves da Rocha tiveram, ao menos:
- Manoel Gomes Batista, futuro alferes, objeto deste estudo.
- Tereza Gomes da Rocha, casada com João Gonçalves da Fonseca, filho da famosa ilhoa Antônia da Graça. Tereza Gomes. Viveu e faleceu na Parada do Rio Verde de Santo Antônio do Vale, atual Campanha. [10]
- João Gomes Batista, casado em 1773, em São João del Rei, com Joana Maria da Conceição, pertencente à tradicional família Gomes do Nascimento, cuja ascendência e descendência são  descritas pela pesquisadora Apparecida Gomes Nascimento Thomazelli em sua obra As Famílias de Nossas Famílias. João Gomes e Joana foram residentes em São Tomé das Letras. [11]
- Inês Gomes da Rocha, que no estado de solteira teve dois filhos e depois se casou com Sebastião Barbosa Raposo. Ela redigiu seu testamento em 1805 em São João del Rei e faleceu em 1811 em Lavras do Funil. 

Quanto ao parentesco próximo do português Manoel Gomes Batista e João Gomes Baptista, o mestre talhador e mestre de Aleijadinho [1] é algo que ainda temos que pesquisar. Este parentesco deve ser com Inês Gomes, esposa do Alferes Manoel Gomes Batista, pois o Mestre João Gomes, conforme declarou em seu testamento redigido aos 13/12/1788 em Vila Rica, é filho de uma Felícia dos Santos Cardoza e Inês Gomes, neta de Felícia Cardosa. Vejamos o trecho do testamento:
                                                                               Sou natural da cidade de Lixboa filho legítimo de João Gomes da Silva e Felicia dos Santos Cardoza ambos já falecidos e sempre me conservei no estado de solteyro em o qual nunca tive filho algum nem parente algum vivo e que pudesse instituhir por meu herdeyro dos meus bens; [12]

O Abridor dos Cunhos da Real Intendência, João Gomes Batista, faleceu em 24/12/1788 e foi sepultado na Capela da Ordem Terceira de São Francisco, na então Vila Rica.
  
O lugar denominado Patafufo tem Provisão Episcopal e licença para ereção da Capela datada de 02/07/1772 [13]. Se confrontarmos os períodos do casamento do Alferes Manoel Gomes Batista e Inês com a data da provisão da Capela, não haverá coerência ao afirmar que o nome do local foi dado devido ao “apelido” da pessoa desse Alferes Manoel. Será que o Alferes Manoel Gomes Batista veio para estas terras [Pará de Minas] antes dos 30 anos de idade e depois voltou a Lavras do Funil para se casar? Possivelmente não, pois conforme citei acima, o Cônego Dr. José Marciano diz que ele seguiu para as paragens da Mata da Corda pelos idos de 1796.

O orago de Nossa Senhora da Piedade do Patafufo, imagem que também é padroeira nas terras da Borda do Campo, onde nasceu e foi batizado o referido Alferes Manoel Gomes Batista pode ter sido venerada neste território [Pará de Minas] devido à influência dele como dono de estalage ou mercador, conforme textos citados na bibliografia, caso realmente tenha passado por esta paragem, aqui se estabelecido e obtido relevante importância, pois a Provisão Episcopal não faz referência à devoção do oraculu. Mas tal hipótese é pouco provável. Esse desbravador, então, não seria conhecido como o Patafufo e sim como “Alferes Manoel Gomes Batista do Patafufo”, agregando o nome do lugar à pessoa do mercador. 

A Mata do Cego, que é uma antiga Fazenda das terras patafufas, teve sua história ligada à do cito Alferes Manoel Gomes Batista, conforme:
                                                                               (...) na Mata do Cego – referência da trilha do Caminho do Pitangui citada no mapa do Padre Cocleo – se desenvolveu dois núcleos, o do Paciência, onde José Nunes de Camilo Lélis, além de minerar fazia do seu rancho um paradouro de estalage e o do Patafufo onde também Manuel Gomes Baptista tinha seu arranchadouro [14].

Acredito ser um equívoco agregar o nome do pai do “descobridor do Diamante do Abaeté” a esta Fazenda da Mata do Cego, pois nessa paragem do Paciência existiu um outro Manoel Gomes que parece ter gozado de algum prestígio e ser o verdadeiro mercador do Patafufo. 

Se a Mata do Cego dos Penteados; o arranchadouro do Manuel Gomes Baptista, o Patafufo [14]; a lenda proferida por muitos da antiga Pará de Minas que ele era um português “baixinho e gordinho” possa ter alguma veracidade, esse outro Manoel Gomes, português, proprietário de huma rossa de cultura cita na Mata dos Cegos [15] e ainda não estudado será o princípio para se decifrar o Patafufo. 

Ele, Manoel Gomes, redigiu seu testamento em 02/01/1798 na Mata do Cego e faleceu em 29 de Junho de 1803 na mesma Fazenda. O documento está no Arquivo Judiciário de Pitangui, cujas partes dizem:
                                                                                Declaro que sou natural da Freguesia de Santiago e Senhora da Graça do Couto de Cambezes Arcebispado de Braga filho legitimo de Manoel Martins, e sua mulher Maria Gomes ambos falecidos (...) meu corpo será amortalhado no Abito de São Francisco e sera conduzido a Capela de Nossa Senhora da Piedade do Patafufo Filial desta Matriz da Vila de Pitangui. (...) Declaro que sou cazado com Maria Alves de cujo matrimônio tivemos quatro filhos João, Manoel, Mariana, Damaso todos naturais desta Freguesia de Pitangui Bispado de Mariana. Declaro que a fazenda que possuo de prezente hé huma rossa de cultura cita na Mata dos Cegos, huma morada de casas cobertas de telhas com uma moradas (...) dois caixons quatro caixas duas com feixaduras, tres catres, seis celas, hum Engenho de muer cana, tres taxos, hum lambique quatro espumadeiros hum tanque, hum paiol coberto de telhas, hum moinho tambem coberto de telhas com seus (...) hum monjollo coberto de capim e assim mais uma morada de casas sope da Capella digo atras no Arrayal do Patafufo coberta de telha com seu quintal cercado de braunas com seus arvoredos de espinhos e assim mais huma no sope ao pe da Capella e assim mais os escravos a saber [13 escravos] e assim mais nove juntas de Bois (...) seis vacas com suas crias, nove bestas muares(...) cinco cavalos (...) cincoenta cabeças de porcos, trinta cabeças de ovelhas. Declaro que possuo mais huma Fazenda no Couto de Cambezes Arcebispado de Braga. (...) Declaro que meu testamenteiro das noventa Missas que mandei dizer se dirão quarenta e oito que se dirão em louvor de São Gregorio pela minha Alma ficando quarenta e duas que tambem mandarão(...) rogo novamente a Manoel Gomes dos Santos, Damaso Gomes Martins e João Gomes Alves meus legitimos herdeiros nesta(...) assignei Hoje Mata a vinte e dois de Janeiro de mil setecentos noveita e oito Manoel Gomes [15]

Analisando a transcrição do testamento acima, podemos afirmar que o arraial fazia parte de uma estrutura de mercado interno cuja economia agropecuária abastecia outros mercados, como produção do acúcar, aguardente, gado vacum, cavalar e suíno [14] conforme fala o Doutor em História Flávio Marcus da Silva. 

Entendemos que o dito Manoel, devido ao engenho, quantidade de ovelhas, escravos e juntas de bois listados no testamento, comercializava os produtos que produzia e, por esse mesmo documento comprova-se que era dono de uma pequena fortuna, mas contudo não se desfez de sua propriedade em Portugal. 

Quanto a seus filhos João Gomes Alves, casado com Maria Antônia, cuja descendência se encontra até hoje em terras patafufas; Manoel Gomes dos Santos, Mariana Eufrásia de Jesus e Dâmaso Gomes Martins, falecidos solteiros e residentes na Fazenda Mata do Cego até idos de 1821, quando Dâmaso ainda estava vivo. 

Possivelmente esse Manoel que apresentamos é o citado no Inventário do Capitão Antônio Pinto de Miranda, datado de 1795, arquivado no IPHAN de São João del Rei, conforme:
                                                                                     (...) casas no fundo do dito arraial coberta em parte de telha com partes de capim, arruinadas, que foram de Manuel Gomes com seus fundos [1]
  
Certificando-se com o texto acima, devido aos nomes comuns, talvez tenha havido incoerência ao analisar os fundamentos históricos e afirmar que o Alferes Manoel Gomes Batista é o Patafufo. Fato é que este outro Manoel Gomes, falecido em 1803, tem mais probabilidade de ser o homem que cedeu seu apelido ao arraial em formação.

  
Fontes:
[1] MOURÃO, Maria da Graça Menezes. Patafufo, o mameluco caiapó de Lavras do Funil – www.muspam.org
[2] VEIGA, José Pedro Xavier. Efemérides Mineiras. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1998
[3] FIÚZA, Rubens. O Diamante do Abaeté & outros contos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1988
[4] Arquivo Eclesiástico da Cúria de Mariana – Processo De Genere  nº 1003 – ano 1833
[5] Arquivo Eclesiástico da Cúria de São João del Rei – Livro 02 Casamentos – Carrancas
[6] Arquivo Eclesiástico da Cúria de São João del Rey – Livro 01 batismos – Carrancas
[7] Arquivo Judiciário de Pitangui – Inventário de Lourenço Justiniano de Noronha – 1834 – s/nº
[8] Arquivo Eclesiástico da Cúria de Mariana - Livro D10 – Barbacena 1737 a 1751
[9] LEME, Luiz Gonzaga da Silva. Genealogia Paulistana vol. IX
[10] BARBOSA, Valdemar de Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda, 1995
[11] THOMAZELLI, Apparecida Gomes do Nascimento. As Famílias de Nossas Famílias. Belo Horizonte: Oficinas Gráficas da FAAP, 1984
[12] LANGE, Francisco Curt et al. Barroco – vol.05. 1973
[13] Arquivo Eclesiástico da Cúria de Mariana – Livro de Provisões 21-05-1772 à 05-10-1772 pp. 6v. e 7
[14] MOURÃO, Maria da Graça Menezes. De “Paradouro de estalage” no caminho para as Minas do Pitangui à Cidade do Pará (1877)
[15] Arquivo Judiciário de Pitangui – Testamento de Manoel Gomes – 1803 – s/nº


                                                                                                                           Em 28.09.2010.
                                                                            

Coleção do jornal "Diário" é doado ao Museu

                                                                                                   
          

                              Milhares de exemplares do "Diário", jornal que circula em Pará de Minas e região desde 1997, foram doados ao Museu Histórico pelo editor proprietário Wanderlei Salmazzo. São 3001 edições que foram incorporadas ao acervo e que, a partir de agora, poderão ser consultadas por pesquisadores nessa casa da memória de Pará de Minas.
                             O ato de entrega da doação ocorreu no próprio Museu, dia 22 de setembro de 2010, abrindo a programação "Parabéns, Pará de Minas!" em homenagem aos 151 anos de emancipação político-administrativa do Município (Veja fotos na Galeria de Imagens/Promoções).
                            Wanderlei Salmazzo entregou a Ana Maria Campos, diretora do Museu de Pará de Minas, as encardenações dos exemplares do jornal "Diário" e os jornais avulsos que completam a coleção e relembrou o início do jornal, cujo primeiro nome foi "Jornal & Revista". As alterações pelas quais o jornal passou até chegar ao formato atual como "Diário" também foram rememoradas.
                            O acervo do Muspam foi enriquecido com a doação, pois os jornais são fontes preciosas de informações, reproduzindo o pensamento e o modo de vida da comunidade que representa.

Veja mais fotos na Galeria de Imagens/Promoções.

Patafufo, o mameluco caiapó de Lavras do Funil

                                                                                       Maria da Graça Menezes Mourão
                                                                                       Especialista em História e Cultura de Minas Gerais
                                                                                       Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais


                                  O Cônego Dr. José Marciano Gomes Baptista – vigário de Curvelo (1840) e neto do Patafufo – registrou que seu avô, o alferes Manuel Gomes Baptista era paulista de origem, estabelecido em Lavras do Funil e descendente de índio caiapó. Através do historiador do Instituto Histórico Geográfico de Minas Gerais, Jorge Cunha Pereira, residente no Rio de Janeiro, chegamos até ao Dr. Wilson Baptista, 92 anos, advogado, neto de José Marciano Gomes Baptista, o “Pirula”, apelido daquele que foi um dos primeiros boticários paraenses; bisneto do Cônego Dr. José Marciano Gomes Baptista, portanto, tetraneto do Alferes Manuel Gomes Baptista, o Patafufo.
                                 Dr.Wilson Baptista relatou-nos que sabia por tradição oral de sua família que os Gomes Baptista tinham laços com certo Manuel Gomes Baptista, filho de português, parente bem próximo de João Gomes Baptista, o mestre talhador e mestre de Aleijadinho. O tal se perdera da bandeira de um Taques e que convivendo com os caiapós, casara-se com uma índia da tribo. Em uma festa de 50 anos de formatura entre os colegas, o desembargador Hélio Costa confirmou o parentesco entre eles, primos, por parte do “Doutor Mal Acabado”, forma que em família se referiam a Antônio Gomes Baptista. Era do conhecimento que este apelido surgira após um gracejo quanto à sua pessoa na colação de grau de Medicina em Coimbra, o que o levou a retirar-se sem receber o devido diploma. Hélio Costa relatou-lhe que o filho do Patafufo era enorme, espadaúdo, de cor amarelada e parda, de olhos puxados como índio caiapó, conhecido como “Antônio Grande” em toda Sabará.
                               A respeito da descendência caiapó, o Dr. Wilson Baptista falou sobre uma mancha de nascença, roxa na espinha dorsal encontrada em sua família, em netos, bem como seu oitavo filho que muito lembra um índio caiapó. O médico de sua família, Dr. Olinto Orsini de Castro explicou tratar-se de mancha malaia, de raça indígena ou amarela, conhecida como mongólica. A menção lembra-nos Gilberto Freyre em “Casa Grande e Senzala” descrevendo que todo brasileiro traz a pinta do indígena ou do negro: há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil.
                            Quanto ao pai do Alferes Manuel Gomes Baptista ter-se perdido realmente da bandeira de um Taques é possível corroborar esta afirmação. Tanto o bandeirante Pedro Taques, quanto José e Antônio Pompeu Taques estiveram no roteiro comum por onde passavam os caiapós em seu nomadismo. Em determinados períodos do ano estes índios passando pelo Rio Grande, ou seja, Lavras do Funil, transitavam desde o Rio Pardo em São Paulo até a Mata da Corda na Serra da Marcela, às margens do Rio Abaeté, onde foi encontrado o famoso diamante pelo pai e filho Gomes Baptista. Quanto à bandeira, no final do século XVII, muito antes que a região do Pitangui fosse ao descoberto, Pedro Taques e Joseph Rodrigues Betim estiveram passando, pelo Jequitinhonha andando vinte e sete dias à beira da Serra que se diz ser dos Aimorés (RAPM, Ano II, p.34). É sabido também que na mesma época, após bandeirar-se pela região, José Pompeu Taques estabeleceu-se no funil ou passagem do Rio Grande, onde foram descobertas as Lavras da Grandeza, daí o nome Lavras do Funil, cuja provisão foi concedida a ele em 20.12.1701(RAPM, 1897, p. 471). Todavia, a bandeira que mais corrobora a presença do português Manuel Gomes é a de Antônio Pompeu Taques, cujos componentes Bartolomeu Bueno de Siqueira, Manuel de Borba Gato e Mateus Leme Barbosa fizeram a picada para o Centro-Oeste, trilhando  o Caminho do Pitangui, à época que o Governador Artur Sá e Menezes encontrava-se nas Minas. Segundo Viana Passos, encontrava-se junto com eles, um Manuel Gomes, no Sabará (Vianna Passos. Em torno da História de Sabará. V. II. Imprensa Oficial. BH. 1942, p.93-95). 
                             A presença do Alferes Manuel Gomes Baptista e seu pai em Lavras do Funil pode ser corroborada através de documentação primária em arquivos de Lavras e Carrancas. O alferes mameluco caiapó se casou com Inês Clara de Jesus ou da Rocha. Em 1775, sua primeira filha Ana foi batizada na Freguesia de Carrancas da qual fazia parte o povoado de Lavras do Funil, sendo padrinhos Francisco de Ávila Fagundes, um dos povoadores e proprietário da capela “pública” de Carrancas e Ana Gomes da Rocha, a avó da menina (APCarrancas, 1775).
                            A família permaneceu em Lavras do Funil, enquanto o alferes servia no Terço de Ordenanças em Mariana. Posteriormente, ao adquirir terras às margens do Ribeirão Paciência, no Caminho do Pitangui, vendeu sua propriedade para o Capitão Antônio Pinto de Miranda, cuja moradia foi mencionada em seu inventário em 3.12.1795: [...] casas no fundo do dito arraial cobertas em parte de telha com partes de capim, arruinadas, que foram de Manuel Gomes com seus fundos (MRSJDR- Caixa 161-1795).
                           Ao trazer a família para as margens do Ribeirão Paciência, o alferes estabeleceu-se com uma estalagem oferecendo pouso e alimentação aos que passavam pelo Caminho do Pitangui, o que proporcionou o surgimento do arraial que levou o seu nome, hoje Pará de Minas. Suas mudanças de endereço o aproximavam cada vez mais da trajetória que os caiapós faziam, sendo costume entre eles contarem uma lenda sobre uma grande mina de diamantes na direção da Mata da Corda, localizada no Rio Abaeté, onde desde 1726 já havia explorações. Conhecida entre os bandeirantes, essa fábula deu origem ao Roteiro do Cururu, nome de um mosquito que proliferava no pântano, onde surgiu a cidade de Pihum-i. Do Ribeirão Paciência ao Abaeté, para chegar à Mata da Corda era um pulo.
                          Memorialistas chegam a afirmar que o Alferes Manuel Gomes Baptista fazia parte do esquema que contrabandeava diamantes para a Antuérpia na Holanda, muito antes que a Coroa Portuguesa tivesse conhecimento da existência do mineral. Sobre tal assunto, o historiador Carlos Cunha Corrêa, que nasceu na região do Abaeté, garantiu que ele já vinha visitando aquela região muito antes de encontrar o famoso diamante do Abaeté. Após desfiar vários argumentos, ele tem em conclusão que foi bem antes que o alferes mameluco entrou para zona do Indaiá, antes talvez de ser estabelecida ali a primeira extração régia em 1791 e criado o Quartel do destacamento sob o comando de José Dias Bicalho (Carlos Cunha Corrêa.- Serra da Saudade–Imprensa Oficial. SP. 1948, p.190).
                          Esta afirmação ganha sentido quando se lê atenciosamente a história a nós legada por José Augusto Correa de Miranda. Segundo ele, era tradicional chamar-se Manuel Baptista que por suas pavonices e ostentações, ganhara o apelido de Patofofo, o qual passou com pouca alteração ao arraial [...] Patafufo.
                         É bom questionar quais seriam essas pavonices do Alferes Manuel Gomes Baptista.  E suas ostentações? Que indumentária, enfeites e demais quinquilharias da época eram usados pelo mameluco caiapó na hora do seu exercício militar como alferes do Terço de Ordenança da Companhia de Pitangui ou a passeio pelo arraial que muito antes de sua morte era conhecido pelo seu próprio nome?  É nossa proposição que o seu cavalo Rosilho fosse fufo, isto é, ajaezado, considerando que a denominação corresponde ao modo mouro pelo qual se aparatava o animal para a cavalhada, costume bem em voga em Mariana, berço mineiro dessa tradição ibérica no Brasil.
                                                           Lá vem o Fufo! Lá vem o Patá e o Fufo! Olha o Patafufo! 


      Cavalo enfeitado à moda Fufo. Carnaval de Bonfim/MG. Figurante João Paulo.


                                                          
       Cavalos fufos no Carnaval à cavalo de Bonfim.Gentileza: Secretaria de Cultura.
                                                                       
                                     Nos festejos do Triunfo Eucarístico em 1733, para comemorar o traslado do Santíssimo Sacramento da Igreja do Rosário para a Igreja do Pilar em Vila Rica, as cavalhadas tiveram cavaleiros ricamente vestidos e montados em briosos cavalos bem ajaezados. Estes eram suntuosamente transformados na peça ornamental do desfile, chamando atenção não só pela sua cavalgadura, mas pelo aparato de seus enfeites, motivo de maior atração, quando homem e cavalo se transformavam em uma só figura.
                         A cavalhada era utilizada como exercício militar da Companhia de Cavalaria e, portanto, também dos Terços de Ordenança. Quando nascia um príncipe ou outro motivo de regozijo, era esta a forma com que a população se manifestava. Durante os festejos do casamento de Dom Pedro de Alcântara com a princesa D. Leopoldina, houve cavalhadas e apresentações dos cavaleiros. Todos estavam montados em soberbos cavalos ricamente ajaezados e satisfizeram à curiosidade pública com várias escaramuças e justas perfeitamente desempenhadas (Gazeta do Rio, Sábado, 24.10.1818, col. II).

                              ******************           *******************           *******************




                                                           

Benedito Valadares. Cronologia

1892 – Nasceu em 4 de dezembro, na Fazenda da Cachoeira, município de Pará de Minas.

1914 – Formou-se em Odontologia pela Faculdade de Belo Horizonte.

1920 – Formou-se em Direito pela Universidade do Brasil, no RJ.

1923 a 1930 – Vereador em Pará de Minas.

1930 a 1933 – Prefeito de Pará de Minas até 1º de março.

1933 – Deputado Constituinte Federal.

1933 – Interventor em Minas Gerais empossado em 15 de dezembro.

1935 – Governador de Minas Gerais, eleito em 5 de abril pela Assembleia Constituinte Estadual.

1937 – Confirmado como Governador de Minas, por Getúlio Vargas, no novo regime do “Estado Novo”.

1945 – Exonerado do Governo de Minas Gerais com a queda do “Estado Novo”, em 29 de outubro, organizou o P.S.D. nacional e foi seu vice Presidente. Em MG o presidiu até o Ato Institucional nº. 2, de 1965, que extinguiu os 13 partidos políticos. Foi eleito Deputado Federal de MG, pelo PSD, integrando a Comissão da Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou a Constituição de 1946.

1950 – Reeleito Deputado Federal de MG, em 3 de outubro.

1954 a 1971 – Senador de Minas Gerais, até janeiro/1971.

1970 – Não concorreu à reeleição. Comunicou, durante a Convenção da ARENA em Belo Horizonte, em 2 de agosto, seu afastamento da vida política.

1973 – Faleceu no Rio de Janeiro em 2 de março, com 80 anos. Em Belo Horizonte foi velado no saguão do Palácio da Liberdade e, com honras de chefe de Estado, foi sepultado na Quadra 18 do Cemitério do Bonfim, conhecida como Quadra dos Presidentes de Minas.

1979 – Transladação de seus restos mortais para Pará de Minas, em 2 de março, cumprindo o inabalável desejo de minha avó, o de executar uma das últimas intenções de meu avô, disse seu neto João Maurício Valadares Pádua, a de ser enterrado em Pará de Minas — como compreendia ele [Benedito] que esta seria a sua maior homenagem à cidade de suas origens, que lhe deu início na vida pública!

1983 –Solenidade comemorativa da chegada de Benedito Valadares ao Governo do Estado, no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, em 15 de dezembro. A sessão foi presidida pelo Governador de MG, Tancredo Neves.

1992 – Comemoração do Centenário de nascimento de Benedito Valadares, iniciativa da Assembleia Legislativa de MG, com uma série de atividades políticas, culturais e educacionais, durante todo o ano. Encerrou-se em Pará de Minas, com uma sessão solene na Câmara Municipal, em 4 de dezembro, dia em que nasceu.

Joomla extensions by Siteground Hosting