Museu Histórico de Pará de Minas

Guarda de Moçambique no Museu

                                    
A Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Santa Isabel se apresentará no próximo domingo, dia 13 de junho, a partir das 9h30min, na área de atividades do Muspam no Projeto Guardas no Museu. Uma roda de conversa sobre essa manifestação cultural antecederá a apresentação. Compareçam!

Homenagens à historiadora Ermínia Silva e Juyraçaba Santos Cardoso, neto de Benjamim de Oliveira

Encontro com a historadora Ermínia Silva e Juyçaraba Santos Cardoso, neto de Benjamim de Oliveira, em 29.05.2010
   Foto: Éden Bahia
       
         Dentro da programação do 2º Festival de Palhaços Parabenjamim, promoção da Prefeitura de Pará de Minas/Secretaria de Cultura, aconteceu no Museu Histórico na tarde do sábado, 29 de maio de 2010, em parceria com a Academia de Letras, o Encontro Aberto com Ermínia Silva e Juyraçaba Santos Cardoso, neto de Benjamim de Oliveira. 
         Ermínia Silva, historiadora, autora do livro Circo-Teatro: Benjamim de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil (SP: Editora Altana, 2007), adaptação da sua tese de doutorado, recebeu durante o encontro o diploma de Acadêmica Honorária da Academia de Letras de Pará de Minas em virtude de sua tese de doutorado que se transformou no livro sobre o artista conterrâneo Benjamim de Oliveira. Juyraçaba Santos Cardoso, que pela primeira visitava a terra natal do importante avô, também foi homenageado com uma significativa placa. No dia anterior, ambos já haviam recebido homenagens da Câmara de Vereadores do Município pela marcante contribuição à memória de Benjamim de Oliveira.
         Benjamim de Oliveira, 1º palhaço negro do Brasil, nasceu em Pará de Minas em 11 de junho de 1870, na Fazenda dos Guardas. Faleceu no Rio de Janeiro em 03 de maio de 1954. Beijo era o apelido dele, filho dos escravos Malaquias Chaves e Leandra de Jesus. Em 1882 fugiu com o Circo Sotero, iniciando o treinamento de acrobacias com Severino de Oliveira de quem adotou o sobrenome, como é suposto.
         Além de palhaço, Benjamim de Oliveira era ator, cantor, compositor, autor e produtor de peças teatrais. Foi considerado o rei dos palhaços do Brasil. Gravou seis discos pela Columbia Phonograph Co. e foi filmado no Circo Spinelli representando Peri, na peça O Guarani, de autoria de José de Alencar,  pela Photo-Cinematographica Brasileira, em 1908.
         O livro Circo-Teatro: Benjamim de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil (SP: Editora Altana, 2007), da historiadora Ermínia Silva, adaptação da sua tese de doutorado, inspirou o samba enredo da Escola São Clemente (RJ), em 2009. Nesse mesmo ano, aconteceu em Pará de Minas o 1º Festival de Palhaços ParaBenjamim e, nas escolas do município foram iniciados vários projetos enfocando a história dele. O nome de Benjamim de Oliveira, desde 1958, também é perpetuado em sua terra natal em uma via pública do Bairro Nossa Senhora das Graças: Rua Artista Benjamim.



Postado em 02.06.2010.

Orquestra de Violões Anita Salles na 8ª Semana Nacional de Museus: 17 a 23.05.2010



A Semana Nacional de Museus faz parte da agenda de eventos permanentes do Ibram–Instituto Brasileiro de Museus e ocorre durante uma semana, sempre no mês de maio, em comemoração ao Dia Internacional dos Museus (18/05). O propósito é mobilizar os museus brasileiros a aderirem ao tema da Semana, a partir de um esforço de concertação de suas programações por um período específico, intensificando a relação desses com a sociedade. 
                 O Ibram adota para o evento o tema do Dia Internacional dos Museus escolhido pelo Conselho Internacional de Museus - Icom, que este ano é "Museus para harmonia social", destacando o papel desses centros de cultura como instituições conectadas ao mundo contemporâneo e interessadas na vida social, política e econômica da sociedade em que estão inseridos, estimulando ainda a discussão, a reflexão e a prática do respeito e da valorização das diversidades e diferenças.
                 O Museu Histórico de Pará de Minas aderiu à proposta do Ibram com a seguinte programação:
. De 18 a  21 de maio, de 9 às 11h, e de 15 às 17h: Projeto Conheça o Muspam: educadores serão apresentados aos bastidores da instituição descobrindo o potencial que poderá ser explorado por eles em sala de aula. Inscrições pelo telefone 3231.7790 até o dia 17, das 8 às 18h.

. Dia 19, 20h: apresentação da Orquestra de Violões Anita Salles, regência de Júlio Saldanha, que também se apresentará com João Franco (voz e violão). Imperdível!

                  A Orquestra de Violões “Anita Salles” de Pará de Minas, primeira da região Centro-Oeste mineira, nasceu em 2003, contando na ocasião com onze membros fundadores. Desde então, foram várias apresentações em escolas, aniversários, saraus, lançamentos de livros, homenagens e serenatas com um repertório que varia música clássica, folclórica e popular.
                 Sempre com a preocupação de divulgar esta forma peculiar e coletiva de tocar violão, unindo gerações, a Orquestra criou projetos como o Ensaio Aberto na Praça, “Concertos Natalinos”, “Sexta em Serenata” e “Doe um violão e ganhe uma serenata”, este último com destaque na mídia nacional com reportagem vinculada ao MGTV, Bom dia Minas e Globo News da Rede Globo de televisão.
                 Reconhecida de utilidade pública municipal, a Orquestra de Violões  conta hoje com vinte e um membros de idades variadas divididos em três naipes de violão sob a regência de Júlio Saldanha.
                 João Franco e Júlio Saldanha criaram uma parceria há quase um ano. A primeira apresentação foi no próprio Museu, acompanhando o Coral Nossa Senhora da Piedade no lançamento do Hino do Sesquicentenário de Pará de Minas, composição de Júlio Saldanha e Dalva Frágula.
                 João Franco é uma referência no violão em Pará de Minas. Um dos principais violonista da cidade, participa sempre de grandes eventos, desde os tempos áureos da seresta em Pará de Minas.
                 Júlio Saldanha é cantor, compositor, escritor, pós-graduado em arteterapia e professor de violão. Idealizador da Orquestra de Violões “Anita Salles”, dedica-se à regência do grupo desde a sua fundação, há sete anos.
                   
                 Participe da noite especial no Muspam dia 19 de maio, 20h.
               

Circos [em Pará de Minas]

                                                      Angela Xavier*

Um circo é algo fantástico, principalmente para quem foi criança nos anos 50 [1950] quando não havia TV, cinema só de vez em quando.

Quando o circo chegava a Pará de Minas, ele era montado na Várzea e a criançada acompanhava tudo, desde a montagem da lona até o cuidado com os animais e, no final da temporada já estava amiga de todos os componentes do circo.

A propaganda para atrair o público era um espetáculo à parte. Lembro-me de um circo que desfilou com seus astros pelas ruas da cidade e eu, pequena ainda, via tudo dependurada na janela da casa da vovó Lilina, na rua São José 388. Desfilavam girafas, ursos e leões dentro de suas jaulas, cavalos enfeitados, com acrobatas se equilibrando de pé sobre suas montarias. Uma girafa parou para comer as folhas tenras de uma árvore que havia em frente à casa do tio Tavinho Xavier, a última casa antes de subir para o jardim da prefeitura. A girafa parou o cortejo todo e ficou mastigando as folhas satisfeita. Mais satisfeitos ainda ficaram os netos na janela do tio Tavinho vendo a girafa de tão perto.

No cortejo desfilavam também elefantes e, uma moça de maiô brilhante era apanhada pelo elefante, pela tromba, e colocada em cima dele. Depois vinham os palhaços dando piruetas, o mágico com sua cartola de onde saiam sempre coelhos. E mais os trapezistas, os atores, os malabaristas jogando suas bolas para cima, chipanzés vestidos e uma pequena orquestra. Na frente vinha o apresentador vestindo smoking colorido e, com o chapéu, ia saudando a todos. Ninguém perdia um espetáculo como este.

Meu tio Mário Leite contava um episódio muito interessante acontecido na passagem de um circo, quando ele era ainda menino pequeno. Coisa do início do século XX, quando havia ainda muitos ex-escravos na cidade. Um antepassado, Antônio Leite Praça, português, era o proprietário de uma fazenda grande no caminho para Belo Horizonte, onde há uma lagoa, já foi da Divinal e hoje não sei de quem é. Ele tinha 40 escravos e casou-se com uma mulata de nome Matildes. Quando houve a abolição ele recebeu a notícia pelos jornais que vinham do Rio de Janeiro no lombo de burros, com dois meses de atraso. Reuniu seus escravos e deu-lhes a notícia, deixando que resolvessem o que fazer de suas vidas agora que eram livres. Ex-escravos não tinham lugar na sociedade, eles não queriam sair dali pois eram bem tratados. Assim, o tio Mário chegou a conhecer quatro desses ex-escravos já velhos, ainda moradores da fazenda. Seu Cornélio era um deles e usava vários anéis em cada dedo. Uma vez, o circo chegou à cidade e desfilava pelas ruas com todo o seu elenco. De repente, um elefante pegou seu Cornélio pela tromba e o jogou longe. No hospital, todo quebrado, se recuperou. O povo disse que ele fora reconhecido por um seu conterrâneo africano.

Circo cheio, meninada e adultos dependurados nas arquibancadas, comendo pipoca ou chupando pirulito de mel esperando o início do grande espetáculo. As meninas, que então só usavam saias, ficavam constrangidas nas arquibancadas com medo de alguém ver suas calcinhas. O show sempre começava com a entrada dos palhaços fazendo rir a todos, enquanto o cenário do próximo número era montado.

Palhaço famoso, nosso conterrâneo foi o Benjamim de Oliveira. Benjamim do Malaquias, como era conhecido. Filho de família pobre da Várzea, fugiu com um circo e se tornou palhaço. Meu pai, Zezinho Xavier, se lembra de um show onde ele se apresentava com sua filha Jussara e cantava:

“Eu vi você bulinar Lili, eu vi,
Fiquei muito admirado
De ver você beijando o namorado.”

Ele inovou o espetáculo circense com peças teatrais, números cômicos, números musicais, numa tentativa de fazer frente ao cinema que crescia muito. Ele se apresentava também no Ideal Cinema, o cinema do Juca Ferreira. Sempre, ao chegar ao Pará, ele abraçava e beijava o coqueiro que havia defronte da velha Matriz de Nossa Senhora da Piedade.

Um personagem de que me lembro muito e se apresentava no circo e nos teatros era o Delmário. Ele falava um monte de bobagens e piadinhas e cantava com uma sanfona:

“Eu tinha uma vizinha
Uma veia sorterona,
A veia num parava
De tocar sua sanfona:
Nheco, nheco, nheco,
Essa veia é de amargar,
Nheco, nheco, nheco,
Ela num para de tocar."

E a música prosseguia, fazendo todo mundo rir. O circo lotava sempre que o Delmário se apresentava.

Um número ótimo, apresentado em todos os circos e que ninguém se cansava de ver era o teatro dos palhaços. Vai ver que foi coisa inventada pelo Benjamim. Dois palhaços se sentavam num banco e começavam a contar casos de cemitério, de caveiras e almas penadas. De repente, uma caveira se aproxima de mansinho e senta perto de um deles. Ele, sem olhar, continuava a falar, abraçava a caveira. Nisso, o outro já tinha visto a bicha e saiu correndo deixando seu companheiro em má companhia. Ele continuava falando sem ver, a platéia desesperada, gritando e a cena correndo. O ponto alto era quando ele se virava e via a caveira. Então gritava e saia correndo com a caveira atrás. O público ia ao delírio.

O circo Irmãos Elias ia sempre ao Pará.. Os donos eram da região mesmo e toda a família trabalhava no circo. Lembro-me de um número incrível com vários irmãos e irmãs acrobatas que saltavam um após o outro e iam se aparando. O menor era uma criança de uns 6 anos. Incrível! Este circo, como muitos outros de pequeno porte, foram desaparecendo com o surgimento da televisão. Dizem que a dona do circo ficou doente, sua vida não tinha sentido, quase morria de tristeza, pois não se acostumava com a vida fora do circo. Seus filhos, preocupados, se reuniram e resolveram comprar um pequeno circo para ela. Eu cheguei a ver essa senhora, já velhinha, à frente do seu circo, se apresentando pelas cidades do oeste mineiro.

Um número de grande sucesso, ponto alto do espetáculo, era o número dos trapezistas. Todas as meninas se apaixonavam por eles. Eu e a Maria Olga chegamos a fazer um trapézio numa árvore do quintal da casa onde morávamos, a casa do Jacinto Mendonça onde hoje mora o Urbano Medeiros. Tentávamos fazer as estripulias que víamos no circo e chegamos a fazer algumas proezas, isto escondido, é claro. Um dia caí de cabeça no chão e não pude nem chorar direito para não sermos descobertas, senão, adeus trapézio! Lembro de uma moça da cidade que fugiu com o circo. Havia se apaixonado por um dos trapezistas.

O circo fazia parte de nossa vida, do nosso dia a dia enquanto estava na cidade. Um circo estava montado do lado esquerdo na Avenida Presidente Vargas, depois da Ponte Grande. Nós ficamos amigas dos meninos do circo. Um deles foi atropelado quando passava de bicicleta pela ponte e foi socorrido no Hospital, onde veio a falecer. Todas nós, irmãs e primas, fomos visitá-lo e acompanhamos o enterro chorando como se fossemos da família.

Os números das feras eram emocionantes. Os leões saltavam arcos de fogo, rugiam e deixavam o domador colocar a cabeça dentro de sua boca, para horror de todos nós. Ele ficava o tempo todo com um chicote na mão, batendo com ele no chão e um banco na outra mão servindo de escudo.

Uma vez, em Belo Horizonte, eu e meu marido José Efigênio, estávamos de carro no trânsito. Num certo momento ficamos atrás de um carro-jaula com um leão dentro. Então, o leão fez xixi e molhou o vidro do nosso carro. Foi preciso usar o limpador de pára-brisa. Quando contamos, ninguém queria acreditar.

Os mágicos encantavam a todos. Tiravam coisas incríveis da cartola. Dos bolsos, faziam objetos desaparecerem e depois surgirem nos locais mais inusitados. Colocavam aquelas mulheres de maiô brilhante dentro de uma caixa e enfiavam espadas por todos os lados, no maior suspense. Depois de mostrar que não havia nenhum canto sem espada, ele ia tirando uma a uma e abria a caixa de onde a mulher saia ilesa, em meio aos suspiros de emoção da platéia. Outras vezes, a mulher era deitada numa caixa comprida como um caixão. Essa caixa era fechada e o mágico a serrava ao meio e separava as metades mostrando ao público. Depois juntava as metades e abria a caixa, de onde a mulher saia como se nada tivesse acontecido.

Estes números me fazem lembrar do tio Jujú, o nosso mágico de família.Ele morava em Belo Horizonte e quando ia ao Pará visitava todos os irmãos. Nessas ocasiões, ele sempre estava rodeado de crianças porque fazia mágicas e brincadeiras o tempo todo.Ele pedia uma moeda e a fazia desaparecer e perguntava a todos onde ela estava. Todos procuravam, mas ninguém sabia da moeda. Ele conferia vários locais sugeridos e, nada. Feito o suspense desejado ele se dirigia a uma criança qualquer e, para espanto de todos, puxava sua orelha de onde caia a moeda, e o nariz de outra deixando cair outra moeda e assim terminava com a mão cheia de moedas. Ele jogava um objeto no telhado e tirava do bolso de alguém. Era uma festa. Ele tinha uma destreza enorme nas mãos. Parecia cortar o dedo polegar e colocá-lo novamente no lugar.

Hoje vivo em Ouro Preto, num local conhecido popularmente como Praia do Circo pois era o local onde os circos eram montados desde muitos anos atrás.Passa um córrego que tinha sua água limpa e areia, daí o nome de praia.

Nossas emoções, de crianças sem TV, eram muito intensas. Hoje fui a um pequeno e pobre circo que não é nem a sombra dos pequenos circos de anos passados, mas que me fez lembrar de outros circos e suas histórias.


* Angela Leite Xavier é contadora de histórias, pesquisa histórias regionais, histórias de mulheres e de família. Autora do livro "Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto" 

Texto retirado em 19.04.2010 do site http://angelaleitexavier.blogspot.com


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